EXPOSIÇÃO
DEPOIMENTOS PARA A HISTÓRIA

RETRATOS
O acervo da DOPS custodiado pelo Arquivo Público do Paraná traz imagens de rostos conhecidos e desconhecidos, reunidos pela lógica da suspeita que perpassou a história política do Estado brasileiro ao longo de quase todo o século XX. Iracy Silva, hoje Iracy Soares de Oliveira, uma senhora octogenária, foi militante comunista na sua juventude, em Curitiba, no tempo de Luiz Carlos Prestes; Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército que, em 1968, integrou a Vanguarda Popular Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), organização da luta armada onde atuou como comandante de operações de guerrilha urbana e rural. Foi morto a tiros pelo Exército, em 1971, no sertão da Bahia.
Hoje, apesar de muitos avanços na luta a favor da transparência dos acontecimentos do passado recente, como forma de consolidação de uma sociedade mais justa e submissa à preservação dos direitos humanos, a abertura de muitos acervos documentais não aconteceu plenamente. Muitas perguntas ainda buscam respostas.
 
O INIMIGO MORA AO LADO
Muitos brasileiros, ao denunciarem a presença de militantes comunistas nos seus trabalhos, na sua vizinhança ou na sua cidade, o fizeram sustentados por uma visão política presente no país desde o período Vargas e encorpada pela ação oposicionista ao governo João Goulart. Cria-se na derrota do comunismo como condição para a vitória da liberdade democrática. Emblema maior dessa postura é a “Marcha da família com Deus pela liberdade”, que ocorreu no dia 2 de abril de 1964, no Rio de Janeiro, quando milhares de pessoas reuniram-se em uma espécie de festa da vitória da queda do governo Jango.

MOVIMENTO ESTUDANTIL, 1966 A 1968
Em 9 de novembro de 1964, na gestão presidencial do militar Humberto Castello Branco (1964-1967), o então ministro da Educação, o paranaense Flávio Suplicy de Lacerda (reitor da UFPR em duas ocasiões, entre agosto de 1949 a maio de 1964 e maio de 1967 a maio de 1971) assinou a Lei 4.464, que, ao criar o Diretório Nacional de Estudantes (DNE) e o Diretório Estadual de Estudantes (DEE), ambos sem autonomia e subordinados ao MEC, retirou das entidades então existentes, União Nacional dos Estudantes (UNE, criada em 1937) e União Estadual dos Estudantes (UEE), suas representações legais. A entidade nacional, então, passa a agir na ilegalidade, inclusive mantendo a realização dos seus congressos anuais.
Em 1967, mesmo com a revogação da Lei Suplicy, que, na verdade, propiciou o acirramento da oposição de estudantes e outros grupos sociais ao governo, as entidades estudantis não retornaram à legalidade, pelo contrário, sofreram maiores limitações impostas pelo Decreto 228, de fevereiro desse mesmo ano, que restringiram drasticamente a atuação do movimento estudantil. Tal cenário de confronto recrudesceu em 1968, quando, em dezembro, o governo militar decretou o AI-5.
1968-2008: 40 anos do “ano que não terminou.”

A MORTE DE EDSON LUÍS SOUTO
O estudante secundarista belenense, Edson Luís, foi morto, aos 16 anos, vítima de um tiro disparado pela polícia militar, que invadiu o restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, em março de 1968. Este fato somou-se às demais manifestações de protesto que marcaram o ano, como a mobilização de vários segmentos da sociedade na missa de sétimo dia do estudante morto, na Igreja da Candelária, e a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro.
No Paraná, muito são os documentos, hoje históricos, custodiados no Arquivo Público do Estado, que testemunham a agitação política contra o regime militar em 68, desde discretas pichações nos muros das cidades, colocação de cartazes feitos à mão, até manifestações públicas nas ruas da capital com exibição de faixas com dizeres de protesto.

EXÍLIO
Em 1969, uma junta militar editou o Ato Institucional nº 13, expedido pelo decreto 66.716, instituindo a pena de banimento “(...) do território nacional o brasileiro que, comprovadamente, se tornar inconveniente, nocivo ou perigoso à segurança nacional.” (Artigo 1º).
A Doutrina da Segurança Nacional assentava-se sobre a crença da necessidade de uma guerra constante contra os inimigos da nação, considerados assim todos aqueles que buscassem subverter a ordem instituída em 1964. Diversos brasileiros foram expulsos do país, tornando-se exilados políticos. Somente em 1979, com a Lei da Anistia, seu retorno ao Brasil foi autorizado.




Realização: Arquivo Público do Paraná
e Grupo Tortura Nunca Mais/PR
Local: Espaço Cultural do Arquivo Público
Criação: Eldo Ferreira
Textos: Tatiana Marchette e Narciso Pires |