EXPOSIÇÃO

A CONSTRUÇÃO DE UMA COLEÇÃO

A encadernação: um testemunho
Em 1978, quando da inauguração da
nova sede do Arquivo Público do Paraná, - que viria
a ser destruída por um incêndio em 1989 –, o
então diretor da instituição, Mbá De
Ferrante, encontrou um ex-funcionário, Franz Moritz que na
década de 1920, havia feito parte da equipe que procedeu
a encadernação de documentos oficiais e que originou
a Coleção Correspondências do Governo (1853
– 1931).
Diante desse encontro inusitado e pouco provável de se repetir,
Mbá De Ferrante pediu que Franz Moritz deixasse para a posteridade
um registro escrito da sua experiência no Arquivo Público
naqueles anos. E assim ele o fez, rememorando lugares e nomes que
fizeram a história desta instituição arquivística
hoje sesquicentenária:
“Era o ano de 1925!
O Estado do Paraná tinha como seu Presidente o Dr. Caetano
Munhoz da Rocha, e como Secretário Geral do Estado o Dr.
Alcides Munhoz.
Dentre as Diretorias e Seções existentes, afiliadas
àquela Secretaria de Estado, o ARQUIVO PÚBLICO era
uma delas. Essa repartição localizava-se na rua Marechal
Floriano Peixoto, entre as ruas Silva Jardim e Iguaçu, justamente
nos fundos da ala esquerda do Edifício do Tribunal do Júri,
meio recuada e adornada por um florido jardim. Ao adentrar-se à
aludida repartição, havia duas salas, sendo uma do
Sr. Diretor e outra do Sr. Chefe de Seção, respectivamente.
Mais a frente uma dependência bem espaçosa, onde se
encontravam inúmeras prateleiras para deposição
dos pacotes volumosos. Em direção ao lado esquerdo,
encontrava-se outra dependência com mais 30 metros de comprimento.
Metade dela destinava-se aos servidores públicos (...).
Salvo engano, o Diretor era um Sr. Afonso da Costa (...) e o Chefe
de Seção, o Dr. Theodorico de Oliveira Franco.
Mas, como nos referíamos mais acima, a dependência
dividia-se em duas partes. A outra parte era ocupada pela Seção
de Encadernação, sob a chefia do Sr. Leonel Cyrino
Marcos, um dos mais perfeitos técnicos brasileiros na especialidade,
ex-Chefe dessa seção na antiga Livraria Mundial, de
propriedade dos Irmãs Stockler França Ltda.
(...)
Diante da necessidade dos serviços, o Sr. Leonel Cyrino Marcos
admitiu um elevado número de aprendizes. Capazes de em pouco
tempo iniciarem-se as atividades de seleção e reparos
dos documentos a serem encadernados.
Altamira Artigas, João de Almeida Garret, Nenina de Faria
Moritz, Carlos e Theodoro de tal, e Franz Moritz foram os aprendizes,
que durante dois a três anos participaram das jornadas de
trabalho na Seção do Arquivo Público (...).
(...) Franz Moritz ali permaneceu até fins de 1927, de onde
saiu para trabalhar como meio oficial (...) na Livraria Mundial,
já citada, sita à antiga rua XV de Novembro (...).”

A encadernação: uma receita
Na continuação do seu relato, Franz Moritz achou importante
registrar os passos então seguidos para o procedimento da
encadernação, e nos revela os detalhes das técnicas
que garantiram a integridade física dos 2.383 volumes encadernados
hoje manuseados por pesquisadores da História do Paraná.
Franz Moritz continua:
“Estamos certos, e disso temos conhecimento, que as encadernações
das centenas de volumes, que representam hoje parcela da vida pública
e administrativa do Paraná, após sua Emancipação
Política em 19 de dezembro de 1853, portanto na fase IMPÉRIO
x REPÚBLICA, encerrando, como se vê, soma expressiva
da História do Paraná, todas as encadernações
estão perfeitas!
Seria de todo interessante que nos referíssemos como se iniciavam
as tarefas. Recebido o pacote com os documentos, eram os mesmos
desde logo selecionados e reparados, ordenando-se os mesmos por
dia, mês e por ano, e ainda, por ordem de assinatura. Depois
de bem ajustados – bem batidos – , procedia-se a encadernação.
(...) o volume era prensado, ficando o lombo em sentido horizontal;
neste momento recebia uma ou duas pinceladas com cola comum de madeira,
sem qualquer tratamento. A seguir, o volume ainda colocado na mesma
posição, era através de um furador, seu lado
lateral, furado por quatro vezes, de dois em dois, medindo mais
ou menos oito centímetros, um do outro; referidos furos recebiam
dois grampos de arame comum e liso, distantes entre si cinco centímetros.
Enquanto isso, preparava-se o lombo propriamente dito, o qual consistia
de um pano mescla azul ou verde onde colocava-se uma tira de papelão,
que seria posteriormente colado apenas pelos lados às duas
capas de papelão.
A cola em uso para estas duas últimas operações
consistia de um ‘grude’ especialmente preparado da seguinte
maneira: 1 quilo de farinha de trigo; 100 gramas de pedra hume;
1/2 litro de vinagre branco e água comum assim preparado:
em um tacho de cobre colocava-se a farinha de trigo e depois, aos
poucos para não se formar grumos, a água e o vinagre,
também aos poucos, misturando-se até tomar uma consistência
semi-pastosa e tudo isso com colher de pau; seguia-se a outra fase,
do cozimento, o que acontecia levando-se o tacho sobre chamas de
muita pressão de fogareiro ´Primus’; a etapa
seguinte era quando sempre mexendo-se a massa amolecia (...) e,
antes de endurecer, colocava-se a pedra hume bem triturada, em forma
de pó e aí batia-se até alcançar a consistência
desejada, grudenta e pegajosa, mais grossa que mingau comum, tomando
uma coloração levemente azulada. Assim, estava pronto
o ‘grude’ que era colado não só no lombo
de pano para colagem nos papelões das capas laterais, como
também em papéis coloridos que recobriam as partes
externas de cada volume, mas ainda e também, as chamadas
‘guardas’, isto é, as folhas brancas internas
de cada volume da encadernação, de cada lado, mediante
o uso de pincel. Tudo pronto, restava apenas a última etapa
de cada volume, com a impressão do lombo, feito à
mão, com dispositivo próprio ou antes da colação
do lombo, na primeira etapa, com todas as características:
nº de volume ano, mês.
Terminada a encadernação de mais um volume que encerra
em seu bojo valiosa documentação histórica,
portanto muitos deles traços vigorosos de vultos exponenciais
que muito ilustraram a História do Paraná (...).”
[MORITZ, Franz. Coisas de há 50 anos!. IN: Boletim
do Arquivo do Paraná, Ano IV, n.º 5, de 1979]
Intervenções
necessárias: numeração de páginas e
microfilmagem
(...) Ganhamos espaço condensando em pequenino
rolo a massa colossal de papel, mas isso não quer dizer que
joguemos pela janela ou condenemos à ruína o que foi
considerado digno de ser transferido a outras gerações.
Em resumo: viva o documento!
Carlos Drummond de Andrade: A memória nacional em microfilme.
IN. Boletim do Arquivo Público do Paraná,
ano IV, nº 4, 1979.
Dentre os documentos históricos selecionados
para a microfilmagem foram incluídos os volumes da Coleção
Correspondências do Governo. O volume 1, referente ao ano
1853 e contendo 171 folhas, começou a ser microfilmado no
dia 1 de outubro de 1976, no filme 225.
Antes da reprodução micrográfica, as folhas
ganharam uma numeração seqüencial de página,
utilizando-se caneta, procedimento hoje considerado uma agressão
à integridade do documento, mas que representou uma das primeiras
tentativas para a organização e recuperação
das informações, ações possibilitadas
pela contratação das primeiras estagiárias
de curso superior de História/UFPR, em 1976. A partir dessa
organização, foram elaborados índices temáticos
que indicam onde determinados assuntos são encontrados, considerando-se
o número do volume, o ano e as páginas.
A utilização da microfilmagem no Arquivo Público
teve alento na década de 1940 pelo então diretor da
instituição, Dimas do Cahy Afonso da Costa (gestão
1942/1945), preocupado com a preservação e a conservação
dos documentos.
Foi em 1966, porém, na gestão de Mbá De Ferrante
(1956/1987), que o Sistema Modular de Microfilmagem entrou em funcionamento
quando foi processado o primeiro rolo 16 mm. Apesar da distância
entre os anos 40 até a concretização, em 1966,
o Arquivo Público do Paraná foi pioneiro na implantação
de sistema de microfilmagem, antecedendo-se mesmo à regularização
da área por lei federal, de maio de 1968.
Recém instalado na sede da rua dos Funcionários, neste
mesmo local onde iria ser construído a sede atual, foram
necessárias algumas adaptações ao longo do
tempo para abrigar os equipamentos de reprodução,
bem como a aquisição e ampliação do
maquinário existente. Em 1976, por exemplo, foram adquiridas
nova unidade de microfilmadora planetária, leitor para filmes
de 35 mm, além de materiais e implementos indispensáveis.
Dez anos depois, já em sede própria (1978) com condições
adequadas de guarda e armazenamento, o acervo micrográfico
já contava com 15.000.000 de fotogramas.
A DESCONSTRUÇÃO
DE UMA COLEÇÃO
Um novo olhar sobre
os volumes encadernados: a proveniência
Segundo o Dicionário Brasileiro de Terminologia
Arquivística (Arquivo Nacional; 2005), o princípio
da proveniência é definido como o “princípio
básico da arquivologia segundo o qual o arquivo produzido
por uma entidade coletiva, pessoa ou família não deve
ser misturado aos de outras entidades produtoras”.
Visto sob o olhar da arquivística moderna, os volumes encadernados
nos anos 20 pelo Arquivo Público do Paraná não
correspondem à organização determinada pelo
princípio da proveniência, uma vez que sua ordenação
original desconsiderou as entidades produtoras e reuniu os documentos
por dia, mês e ano e ainda por ordem de assinatura.
Com o objetivo de aperfeiçoar a recuperação
da informação, o acervo permanente depositado no Arquivo,
consoante os avanços da arquivística, encontra-se
em processo de reorganização intelectual com o intuito
de identificar os documentos de acordo com a sua proveniência.
A Coleção Correspondências do Governo é,
com certeza, a mais desafiadora quanto ao restabelecimento dos vínculos
entre os documentos e as instituições que os geraram
ou os acumularam. Tal desafio vem sendo enfrentado, desde 2004,
quando iniciou-se a descrição de cada item documental,
metodologia esta que vem devolver o contexto no qual o documento
nasceu.
Para a descrição do item documental foi elaborada
uma planilha, a partir da qual iniciou-se o plano de classificação,
definindo-se o arranjo intelectual que determinou, por sua vez,
um novo arranjo físico. O objetivo é que este novo
tratamento arquivístico com o processamento da informação
e a criação das unidades documentais substitua, aos
poucos, a Coleção Correspondências do Governo,
recuperando a relação orgânica dos documentos,
arranjados agora conforme sua proveniência em fundo, séries
e subséries.
Até abril de 2005 foram preenchidas 5.285 planilhas, que
recuperaram a identidade de igual número de documentos, produzidos
e acumulados entre 1853, quando da criação da província
do Paraná, e 1855, somando a leitura de 21 volumes encadernados.
Este trabalho ganhou grande impulso com a aprovação,
em julho de 2005, de um projeto junto ao Programa ADAI, do Ministério
da Cultura da Espanha, intitulado “Arranjo e digitalização
das correspondências do governo da província do Paraná,
1853 – 1855”, cujo apoio financeiro possibilitou a contratação
de colaboradores, sendo uma arquivista, uma historiadora e dois
auxiliares de pesquisa.
Uma nova metodologia:
a descrição arquivística e a pesquisa histórica
A tentativa de devolver a organicidade a cada item
documental que compõe a Coleção Correspondências
do Governo começou pelo trabalho de recuperar a história
administrativa. Para situar corretamente o documento no contexto
da sua produção é fundamental obter respostas
precisas para as seguintes perguntas: quem o produziu; em quais
circunstâncias; no desenrolar de que ação; com
que objetivo; a quem se destinava; como e quando foi recebido por
seu destinatário e por quais meios chegou até nós?
Estas questões vêm sendo esclarecidas com a descrição
de cada documento e com a pesquisa histórica da história
administrativa da época, fundamental em uma instituição
arquivística pública, uma vez que é imprescindível
para a organização dos seus acervos e, consequentemente,
o seu acesso.
Para recuperar essa história lançou-se mão
de fontes legislativas, textos de época e textos historiográficos,
além da leitura atenta dos próprios documentos que
estão sendo tratados além de outras fontes primárias,
como os atos de nomeação para cargos públicos,
registros funcionais e relatórios de presidentes de províncias
e das demais autoridades provinciais. Assim, o panorama do cotidiano
administrativo da época é, aos poucos, desvendado,
exigindo um trabalho minucioso para juntar as informações
e encaixar os nomes aos cargos, os cargos às funções
e estas aos órgãos existentes.
Interferência necessária:
a desencadernação
Para o restabelecimento da proveniência dos
documentos perdida com a encadernação, os mesmos estão
sendo classificados, desencadernados e acondicionados em capa própria
confeccionada em papel alcalino e que recebe notação
do fundo, série, subsérie e topografia correspondentes.
Com isso, e apesar da fama dos volumes encadernados, carinhosamente
chamados pelos funcionários e usuários por “AP´s”,
em virtude da inscrição destas siglas na lombada de
cada um, a necessidade do desmonte dos tradicionais volumes foi
reforçada pelo fato de que, para o processo de digitalização
tal ação teria que obrigatoriamente ser realizada
na seqüência.
No entanto, a preocupação que hoje moveu os responsáveis
pelo acervo histórico do Arquivo Público do Paraná
para a desencadernação dos volumes da Coleção
Correspondências do Governo é a mesma que promoveu
a encadernação na década de 1920, ou seja,
a preservação dos originais mediante a garantia da
sua integridade física.
E, para a memória da formação da Coleção,
algumas capas foram selecionadas para guarda e todos os procedimentos
estão sendo registrados em fotografia e planilhas de desmonte
por volume.
Um novo modo de acesso:
dos temas às siglas
Os instrumentos de pesquisa atualmente disponíveis
e utilizados pelos pesquisadores ainda são os Índices
temáticos elaborados em 1976, que trazem uma descrição
sumária do conteúdo de cada volume encadernado a partir
de temas selecionados, como escravidão, instrução
pública, entre outros.
A recuperação da proveniência com a notação
da classificação dos itens documentais a partir do
fundo e respectivas séries e subséries, fez com que
novos instrumentos de pesquisa fossem elaborados para a recuperação
da informação no meio digital.
No processo de digitalização, os documentos foram
salvos em arquivos próprios com a denominação
da sigla correspondente, por exemplo, PB 001 ALP 1, sendo:
PB 001 – fundo Administração Provincial
ALP – série Assembléia Legislativa Provincial
1 – documento mais antigo acumulado na série
A partir dessas siglas gerou-se um instrumento de busca que indica,
além destas, o ano, o assunto, o número da caixa e
a notação anterior do documento, neste caso, o número
do “AP” e da(s) página(s). Aos poucos, caixas-arquivo
substituem os volumes desencadernados mas que ainda convivem com
milhares de outros ainda encadernados, registro visual de uma mudança
na forma de compreender e tratar arquivos históricos.
|