PROJETOS SETORIAIS
- DIVISÃO DE DOCUMENTAÇÃO PERMANENTE
Relato metodológico do projeto
Arranjo e digitalização das correspondências
do governo da província
do Paraná - 1853 a 1855
Execução e Coordenação:
Divisão de Documentação Permanente (DDP)
Apoio financeiro: Programa de Apoyo al Desarrollo
de Archivos Iberoamericanos (ADAI)
Título: Tratamento arquivístico
e historiográfico do acervo documental acumulado pela
gestão do primeiro presidente da província do
Paraná, Zacarias de Góes e Vasconcellos –
19.dez.1853 a 03.mai.1855.
Equipe:
Tatiana Dantas Marchette – Mestre em História
– coordenadora da DDP
Márcia Doré – Arquivista - colaboradora
do projeto
Bruna Marina Portela – Historiadora - colaboradora do
projeto
Andréa Cristina da Silva – graduanda em História,
auxiliar de pesquisa, colaboradora do projeto
Nailôn Ferreira Silveira – graduando em História,
auxiliar de pesquisa, colaborador do projeto |
1. Apresentação
Como resultado das atividades desenvolvidas entre
julho de 2000 e julho de 2001, mediante apoio financeiro do Programa
de Apoio ao Desenvolvimento de Arquivos Iberoamericanos (Programa
ADAI), o Arquivo Público do Paraná publicou a primeira
versão do seu Guia de Fundos, quando o acervo histórico
desta instituição arquivística foi classificado
em fundos(1) públicos, privados (pessoais/entidades
coletivas) e coleções.
Uma coleção caracteriza-se pela reunião artificial
de documentos que, apesar de não terem relação
orgânica entre si, possuem características comuns.
Dentre as coleções pertencentes ao acervo histórico
do Arquivo Público do Paraná, destacamos a denominada
Correspondências do Governo, assim classificada justamente
por reunir em ordem cronológica, em volumes encadernados,
documentos - ofícios, requerimentos, cartas - produzidos
e recebidos pelos órgãos da administração
pública do governo provincial e republicano do Paraná
entre os anos de 1853 e 1931.
Pela grande demanda dos pesquisadores que freqüentam o Setor
de Acesso à Informação do Arquivo Público
do Paraná na busca dos documentos que compõem a Coleção
Correspondências do Governo, a Divisão de Documentação
Permanente, responsável pela gestão do acervo histórico-permanente,
iniciou atividades técnicas de descrição, em
nível de item documental, a fim de elaborar instrumentos
de pesquisa para facilitar o acesso ao público pesquisador.
(1) Unidade constituída pelo conjunto de documentos acumulados
por uma entidade que, no arquivo permanente, passa a conviver com
arquivos de outras. Dicionário de terminologia arquivística.
São Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros
– Núcleo Regional de São Paulo, 1996.
Tais trabalhos seguem as orientações
da Norma Geral Internacional de Descrição Arquivística
– ISAD (G) - conjunto de regras cujos objetivos são:
assegurar a criação de descrições consistentes,
apropriadas e auto-explicativas; facilitar a recuperação
e a troca de informação sobre documentos arquivísticos;
possibilitar o compartilhamento de dados de autoridade; e tornar
possível a integração de descrições
de diferentes arquivos um sistema unificado de informação(2).
Os procedimentos indicados pela ISAD(G) permitem implementar controles
intelectuais necessários para tornar confiáveis, autênticas,
significativas e acessíveis as descrições que
serão mantidas ao longo do tempo.
(2)ISAD(G): Norma geral internacional de descrição
arquivística: segunda edição, adotada pelo
Comitê de Normas de Descrição, Estocolmo, Suécia,
19-22 de setembro de 1999, versão final aprovada pelo Conselho
Internacional de Arquivos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.
Para a descrição do item documental foi elaborada
uma planilha, a partir da qual iniciou-se o plano de classificação,
definindo-se o arranjo intelectual que determinou, por sua vez,
um novo arranjo físico. O objetivo é que este novo
tratamento arquivístico com o processamento da informação
e a criação das unidades documentais substitua, aos
poucos, a Coleção Correspondências do Governo,
recuperando a relação orgânica dos documentos,
arranjados agora conforme sua proveniência(3).
(3) Princípio segundo o qual os arquivos
originários de uma instituição ou de uma pessoa
devem manter sua individualidade, não sendo misturados aos
de origem diversa. (Dicionário de terminologia arquivística.
São Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros
– Núcleo Regional de São Paulo, 1996.)
O preenchimento das planilhas de descrição começou
no primeiro semestre de 2004 e ganhou grande impulso com a aprovação,
em julho de 2005, de um projeto junto ao Programa ADAI intitulado
“Arranjo e digitalização das correspondências
do governo da província do Paraná, 1853 – 1855”.
O grande volume da documentação, cerca de 300 unidades
documentais por volume encadernado, justifica o longo período
de trabalho e explica o entusiasmo da equipe quando da aprovação
desse apoio financeiro que possibilitou a contratação
de colaboradores, sendo um (01) arquivista, um (01) historiador
e dois auxiliares de pesquisa.
O projeto em andamento terá como resultado principal, já
nos primeiros meses de 2006, o arranjo em séries e subséries
das funções administrativas provinciais, onde serão
então classificados os documentos desse período (1853
– 1889), facilitando a descrição dos mesmos
referentes às gestões provinciais seguintes à
do primeiro presidente Zacarias de Góes e Vasconcellos. E,
para fins de facilitar e agilizar o acesso, os documentos descritos
e classificados, referentes ao período da gestão do
primeiro presidente provincial, estarão disponíveis
no meio digital.
Determinou-se um segundo corte cronológico, que contempla
o período de 1855 a 1871, e um terceiro e final, até
o início da república, 1889, cujos documentos receberão,
na seqüência, o mesmo tratamento segundo a metodologia
então consolidada.
2. Metodologia
Tratamento Historiográfico
Compreender a estrutura e o funcionamento da administração
pública provincial do Paraná significa, necessariamente,
buscar entender a organização político-administrativa
do Brasil Império, pois as províncias possuíam
pouca autonomia e dependiam, em maior ou menor grau, nessa conjuntura,
das configurações políticas articuladas na
corte.
Por onde começar? Em 2000, o Arquivo Público do Paraná
publicou o primeiro volume da Coleção História
Administrativa do Paraná: 1853 – ano da emancipação
política da 5ª Comarca da província de São
Paulo – a 1947. A Coleção apresenta um levantamento
da legislação provincial e estadual quanto à
criação, transformação, alteração
e extinção dos órgãos públicos,
bem como suas respectivas competências e organogramas.
Ao analisarmos as informações pertinentes ao início
da província do Paraná, instalada em 19 de dezembro
de 1853, percebemos a pouca consistência das leis, decretos
e regulamentos quanto ao funcionamento dos órgãos
próprios dessa província. E isso muito se deve a já
citada dependência das províncias em relação
ao poder central, representado pelo imperador, o que fazia com que
essas não possuíssem constituições próprias
e, portanto, baseavam-se nas Leis do Brasil. Assim, as legislações
regionais são bastante sintéticas quanto à
criação e competência dos órgãos,
uma vez que se espelhavam em legislação superior.
Além disso, muitos órgãos da administração
pública provincial não padronizavam suas nomenclaturas
de acordo com a legislação em vigor, mas sim em atos
anteriores já caducados, e isso talvez em decorrência
das dificuldades de comunicação de então, já
que, muitas vezes, por exemplo, uma correspondência era endereçada
a um presidente de província já desprovido do cargo.
Portanto, as fontes legislativas não são suficientes
ao historiador que queira desvendar a estrutura administrativa pública
desse período. Por outro lado, e também em decorrência
dessas dificuldades, a produção historiográfica
sobre a administração pública no Brasil é
bastante precária e, quando existente, acaba debruçando-se
sobre o viés político e não propriamente sobre
a materialização do Estado em estruturas organizacionais.
Juntamente com a utilização das fontes legislativas
devemos acessar textos de época e textos historiográficos
mais gerais sobre a História do Brasil, além da leitura
atenta dos próprios documentos que estão sendo tratados,
como os atos de nomeação para cargos públicos,
registros funcionais e relatórios de presidentes de províncias
e das demais autoridades provinciais. Assim, o panorama do cotidiano
administrativo do Estado provincial é, aos poucos, desvendado,
exigindo um trabalho de atenção para juntar as informações
e encaixar os nomes aos cargos, os cargos às funções
e estas aos órgãos existentes.
O desenvolvimento da história administrativa é, dessa
maneira, fundamental em uma instituição arquivística
pública, uma vez que é imprescindível para
a organização dos seus acervos e, consequentemente,
o acesso aos mesmos, afim de que entendamos a produção
de um determinado documento em seu contexto próprio. Diante
disso, dos anos 1980 para cá, justamente quando as metodologias
arquivísticas modernizaram-se e se difundiram nos arquivos
públicos brasileiros, muitos deles vêm desenvolvendo
projetos de história administrativa. Podemos citar o MAPA
– Memória da Administração Pública
Federal -, desenvolvido pelo Arquivo Nacional nessa década,
e projetos no mesmo sentido e período dos arquivos públicos
mineiro e paulista.
O projeto ora em andamento no Arquivo Público do Paraná
está desenvolvendo, ao mesmo tempo em que aplica e para o
tratamento arquivístico no conjunto documental acumulado
na gestão de Zacarias de Góes e Vasconcellos, a história
administrativa provincial de maneira instrumental, isto é,
com a preocupação específica no auxílio
à organização e acesso a esse acervo, mas,
por outro lado, espera contribuir para a produção
historiográfica dessa área.
Para tanto, estamos elaborando, em planilhas modelo ISAAR(CPF)(4)
, a história administrativa dos órgãos representados
na documentação relativa ao fundo “Administração
Provincial” e também quadros com nomes, órgãos
e cargos/funções ocupados pelas autoridades provinciais.
(4)Norma internacional de registro de autoridade
arquivística para entidades coletivas, pessoas e famílias.
2. Ed., Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2004.
Os vínculos entre arquivística e pesquisa histórica
são bastante estreitos e explícitos no momento do
preenchimento dos campos da Área de Identificação
e de Descrição da planilha ISAAR(CPF), quando se pede
o(s) nome(s) do órgão produtor descrito, bem como
as datas de existência do mesmo, sua história, funções,
ocupações e atividades, além dos mandatos e
fontes de autoridade. E isso porque o objetivo primordial dessa
Norma é fornecer regras gerais para a descrição
arquivística de produtores de documentos e do contexto da
produção dos mesmos, fornecendo, o que parece fundamental,
aos usuários, possibilidade de compreensão do contexto
subjacente à produção documental.
Tratamento Arquivístico
Em um relato publicado no Boletim do Arquivo do Paraná, Ano
IV, n.º 5, de 1979, Franz Moritz, funcionário do Arquivo
então responsável pelo setor de encadernação,
começa assim sua descrição sobre os volumes
encadernados hoje carinhosamente apelidados por “AP,s”,
em virtude da sigla que cada um tem gravada em sua lombada: “Recebido
o pacote com os documentos, eram os mesmos desde logo selecionados
e reparados, ordenando-se os mesmos por dia, mês e por ano,
e ainda, por ordem de assinatura. Depois de bem ajustados –
bem batidos -, procedia-se a encadernação”.
Além dos volumes encadernados, no Fundo Administração
Provincial estão incluídos os códices que registram
leis, portarias e decretos, registros de assentamentos profissionais,
copiadores de cartas, etc., além dos relatórios dos
presidentes da província do Paraná e de outras autoridades
provinciais. Ou seja, a Coleção Correspondência
do Governo, para o período entre 1853 a 1889, passou a integrar
o Fundo Administração Provincial.
Para fins de descrição e arranjo, um primeiro corte
cronológico foi feito para contemplar a primeira gestão
após a criação da província do Paraná
- dezembro de 1853 à maio de 1855. Neste período,
somam-se 15 volumes de correspondências (ofícios e
requerimentos), com cerca de 4.000 itens documentais, além
de 24 códices.
A documentação está em bom estado de conservação,
apresentando necessidade de reparos em alguns volumes, trabalho
que está sendo realizado no setor de Conservação
de Documentos do Arquivo Público.
Os instrumentos de pesquisa atualmente disponíveis e utilizados
são os Índices temáticos, que trazem
uma descrição sumária do conteúdo de
cada volume a partir de temas selecionados, como escravidão,
instrução pública, etc. Esses índices
foram elaborados quando da microfilmagem dos documentos, em 1976.
Nesta data, foi fixado, na parte interna da capa de cada volume,
um Termo de Revisão e Verificação, quando todos
os documentos receberam o carimbo do Arquivo Público do Paraná
e um número seqüencial de página. No entanto,
a microfilmagem foi feita sem um padrão de qualidade, o que
resultou em fotogramas de cor e nitidez irregulares, e que hoje
prejudica o acesso e faz com que se manuseie em demasia os originais.
A tentativa de devolver a organicidade a esta documentação
começou pelo trabalho de recuperar a história administrativa
da província do Paraná. A partir de um organograma
hipotético, estabeleceu-se o arranjo, onde os produtores
dos documentos formam as séries. São ofícios
e requerimentos produzidos pelos titulares dos cargos no exercício
de suas funções, tendo como destinatário, entre
outros, o presidente da província do Paraná. Registre-se,
no entanto, uma particularidade na série que recebeu o nome
de Gabinete da Presidência, constituída de documentos
produzidos e acumulados pelo Gabinete da Presidência, como
atos, leis e decretos, e também correspondências.
No artigo “O respeito aos fundos em arquivística -
princípios teóricos e problemas práticos(5)”
, Michel Duchein refere-se às possibilidades de classificação
de um documento, se tomamos por base o tema correspondente. No entanto,
para situarmos corretamente o documento, é fundamental obtermos
as seguintes respostas: “quem o produziu, em que circunstâncias,
no desenrolar de que ação, com que objetivo, a quem
se destinava, como e quando foi recebido por seu destinatário
e por que meios chegou até nós?”. Estas questões
vêm sendo esclarecidas com a descrição de cada
documento e com a pesquisa histórica.
(5) Arquivo & Administração,
Rio de Janeiro, 10-14(1): 14-33, abr.1982, ago.1986.
Por meio de um índice onomástico recolhido entre os
autores e destinatários das correspondências, será
traçado um quadro dos responsáveis pela administração
provincial nas primeiras cidades do Paraná.
Finalmente, para o restabelecimento da proveniência dos documentos
os mesmos foram desencadernados e ganharam, cada um, capa própria
(em papel alcalino) que recebeu a notação do fundo,
subfundo, série, subsérie e topografia. Apesar da
fama dos “AP´s” do Arquivo Público do Paraná,
a necessidade do desmonte dos tradicionais volumes foi reforçada
pelo fato de que, para o processo de digitalização,
tal ação teria que obrigatoriamente ser realizada.
No entanto, a documentação estará, dessa maneira,
melhor preservada, uma vez que o acesso será prioritariamente
no meio digital. E, para os mais saudosistas, algumas capas foram
selecionadas para guarda e todos os procedimentos estão sendo
registrados em fotografia digital.
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