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Não é novidade para
ninguém a necessidade de controles rigorosos no processo de compras
por parte dos órgãos de governo. O antigo DL 2300 e o novo decreto
que o substituiu são esforços no sentido de tornar transparente tais
atividades. O escândalo dos anões do orçamento está aí para nos mostrar
que transparência (assim como cautela e caldo de galinha) nunca é
em excesso, nem faz mal seja em que circunstância for.
Certamente este texto não sugere, nem de leve, que as coisas não devam
ser assim. O que pretendemos descrever é quão caro custa ao Governo
este procedimento. Não se fala aqui de custos financeiros (já que
pela lei, o Govemo sempre compra o mais barato), mas sim nos entraves
ao funcionamento deste mesmo Governo que este estado de coisas traz.
Esta análise parte das premissas de administração moderna, baseando-se
nos paradigmas que estão revolucionando o mundo dos negócios neste
finzinho de século XX (OPT=optimizer, JIT=just-in-time, TQM=Gerenciamento
pela Qualidade Total e outros conceitos associados) e de como tais
premissas têm dificuldade de conviver com a empresa pública. Um resumo
dessas idéias poderia ser "sua empresa não termina mais nos portões
da sua fábrica".
É ponto consensual que não adianta otimizar uma empresa, se nada for
feito sobre os insumos que entram nela.
A outra ponta, a dos clientes, está se educando de per si (como algumas
empresas estão dolorosamente descobrindo), mas qualquer programa de
melhoria de qualidade (por exemplo) precisa compreender também seus
fornecedores.
Por exemplo, vamos ver o que prega a filosofia JUST IN TIME, que está
revolucionando empresas em todo o mundo:
-
Não negocie de tal maneira
que seus fornecedores não tenham lucro (serão incapazes de investir
em melhoramentos).
-
Não retenha informações
sobre planos de capacidade, produção, demanda (talvez o fornecedor
projete, compre, monte ou envie cedo ou tarde demais).
-
Especifique claramente
suas exigências (possibilite a seu fornecedor garantir a qualidade
na fonte).
-
Compartilhe seu conhecimento
sobre as melhores práticas de negócio (repetindo: seu fornecedor
é aliado e não inimigo).
-
Não procure incessantemente
novos fornecedores (e muito menos um diferente a cada compra:
isto gera um eterno começo, sem progresso no aprendizado).
-
Não tenha relutância
nem falta de interesse em manter contatos próximos (você não é
adversário dos seus fornecedores).
A compra através de
concorrência é inadequada, nesta ótica, pois gera clima de desconfiança
e obriga a manter diversos fornecedores para um mesmo item. Além disso,
se clientes e fornecedores ficam se avaliando mutuamente, os custos
internos de ambos tendem a subir, bem como os estoques tanto num quanto
noutro.
Quando se diminui a base de fornecedores (idealmente chegando a apenas
1) os seguintes resultados podem ser alcançados:
-
Os volumes vendidos
serão muito maiores (diminuição de custos internos).
-
Contratos de longo prazo
substituem ordens de compra de curto prazo (aumenta a segurança).
-
O fornecedor é treinado,
recebe informações de planejamento e pode otimizar seu próprio
processo.
-
Fretes podem ser compartilhados
entre fornecedores e entre clientes.
-
E, finalmente, otimizações
interempresas (as que tem maiores potenciais de benefício) podem
ser empreendidas com sucesso.
Terminaremos citando o professor
Hammer, que em seu livro "Reengenharia" mostra a seguinte
história real:
"No início dos anos 80 a FMC (Ford Motor Company) buscava
formas de reduzir seus custos. Uma das áreas atacadas era o departamento
de contas a pagar que empregava mais de 500 pessoas. Usando o computador,
os executivos esperavam baixar este número em 20% o que parecia bastante
adequado. Nesse ponto a FMC comprou 25% da MAZDA, e para surpresa
dos executivos da FORD na empresa japonesa apenas 5 pessoas trabalhavam
nas contas a pagar. Diante disto, as idéias de redução em 20% foram
abandonadas e se iniciou um profundo processo de reengenheirar as
compras da FORD.
O antigo processo era convencional: o departamento de compras emitia
uma ordem de compra ao fornecedor e enviava uma cópia ao departamento
de contas a pagar. Quando os produtos chegavam na FORD, um empregado
preenchia um documento descrevendo o produto que chegou e o remetia
ao departamento de contas a pagar. O fornecedor enviava ao mesmo departamento
uma fatura. Chegavam 3 documentos (pedido, recebimento e fatura) referentes
ao mesmo negócio: quando eles combinavam, o pagamento era feito. Mas,
muitas vezes, eles não combinavam, e aí começavam as dores de cabeça.
O novo processo é diferente: quando o pedido é emitido ao fornecedor
ele vai para um banco de dados (BD) também. Quando a remessa chega,
o recebedor consulta o BD para saber se existe este pedido pendente.
Se existir recebe-se e paga-se. Se não existir, o próprio recebedor
recusa a remessa e a devolve ao fornecedor.
A melhora? Hoje o departamento tem 125 pessoas, e em algumas divisões
da FORD, onde estes conceitos estão mais adiantados, o efetivo de
compras é apenas 5% do que era. A mudança veio após uma pequena modificação
conceitual: em vez de "pagamento após receber a fatura"
agora é "pagamento após receber a mercadoria".
Nas fábricas de caminhões, a FORD implementou nova mudança. Em vez
de "pagamento após receber a mercadoria" ela disse "pagamento
após usar a mercadoria". Por exemplo, a empresa chamou o fornecedor
de freios e disse: "Gostamos de seus freios e continuaremos instalando-os
nos nossos caminhões, mas até que o façamos os freios são seus e não
nossos. Cada vez que um caminhão sair da linha de montagem, remeteremos
o cheque correspondente". Esta mudança simplificou mais ainda
os processos de compras, reduziu estoques e melhorou o fluxo de caixa.
Só que para isso, outra regra de ouro teve que ser rompida: a que
mandava ter múltiplos fornecedores de freio. Agora ele é um só. E
o que o fornecedor de freios ganhou?
Ele agora recebe todos os pedidos de freios, em vez de apenas alguns
e tem acesso à programação computadorizada da FORD. Não precisa confiar
nas previsões da sua própria equipe de vendas (que por sinal também
pode ser bem reduzida)."
Voltando a nossas famílias Montecchio
e Cappuleto. Será que precisa ser assim? Será que os benefícios e as vantagens
de trabalhar desta maneira otimizada estão definitivamente afastados das
empresas
públicas?
Bem, não há como negar o problema: a transparência é uma necessidade nos
negócios públicos. A necessidade de transparência obriga a ritos de compras
demorados e custosos. Cabe à sociedade tomar ciência deste fato e buscar
mecanismos que sem diminuir a transparência permitam que as empresas públicas
possam auferir algum benefício de cadeias cliente-fornecedor mais ricas
e rígidas.
Cabe às empresas também não esmorecer em sua busca de qualidade, a despeito
das restrições que elas sofrem. Tais restrições precisam ser encaradas
não como maldições insuperáveis, mas como mecanismos legítimos da sociedade
e dificuldades que precisam ser estudadas, trabalhadas e finalmente superadas.
kantek@celepar.gov.br
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