Há
pouco, um velho companheiro nosso se foi. Sem dúvida, estamos todos ficando
velhos. Eu não poderia deixar passar essa ocasião sem uma lembrança já
que não estava em Curitiba quando do seu falecimento.
Voltemos 17 anos no tempo. Eu, analista recém promovido, no frescor dos
meu 21 anos - achando que sabia tudo e tudo podia. De um dia para o outro,
vi-me na condição de analista responsável pelo sistema da Chamada Escolar
1977. Em um sistema one-way, só seria rodado nesse ano, já que haveria
uma pesquisa censitária domiciliar, e nós pegaríamos carona para fazer
a chamada escolar também nas casas dos cidadãos paranaenses (foi o único
ano em que isto foi feito).
O sistema era simples, 4 programas, uma consistência, uma atualização
e dois relatórios. Coisa à toa. Mas para mim, foi a glória. Não diz a
propaganda que as mocinhas nunca esquecem o seu primeiro sutiã? Pois eu
acho que um analista também nunca esquece o seu primeiro sistema.
Pois, voltando a 77, o sistema foi projetado, preparado, codificado e
testado - tudo como manda o figurino.
A única coisa que eu não sabia direito (e que era o mais importante no
caso - um sistema batch) é como o sistema ia ser rodado lá na produção,
afinal os livros quase nunca falavam sobre isso.
A saída para os meus problemas (que eu ainda sequer sabia que existiam)
estava numa frase que meu chefe à época (o Gobbo) me disse: se tiver alguma
dúvida, vai lá no fundo e fala com o Lima.
Pois eu não tinha algumas dúvidas: tinha TODAS as dúvidas. Lá fui eu à
procura do Lima. Para quem não teve o prazer de trabalhar com ele, vou
descrevê-lo: baixinho, magrinho, dono de um fusca azul, sempre (mas sempre
mesmo) bem-humorado, gozador (como todo bom celepariano). Para ele tudo
era nota 10, tudo estava ótimo. Ele me explicou (na verdade, me ensinou)
como as tratativas da produção deveriam ser cumpridas. Me apoiou durante
toda a execução do sistema, não só como profissional correto, mas como
irmão mais velho que já passou por tudo isso, e sabe que as tragédias
se resolvem logo ali adiante.
Ele era capaz de apanhar uma tremenda burrada do analista, coçar a cabeça,
e perguntar sério: será que esta máquina ficou doida? fingindo acreditar
que a culpada era a máquina. Sabia análise de sistemas, sabia programação
e sabia preparar os seus sistemas como ninguém. Se fosse um músico, diríamos
que ele sabia tocar violino de ouvido. Pois, podemos dizer que sabia preparar
sistemas também de ouvido. Tinha sensibilidade para a coisa.
Para minha sorte, o Lima acabou sendo responsável pelos quatro ou cinco
sistemas que desenvolvi nesta Casa.
Depois, já no início dos anos 80, acabei deixando a análise e com isso
a convivência com o Lima. É uma pena, mas muitas vezes não percebemos
o valor de uma pessoa, no convívio do dia-a-dia. Só um evento sério e
irreversível como a morte, é que nos faz pensar e recordar e avaliar.
É esse sentimento que me faz escrever estas linhas.
Seguramente a CELEPAR perdeu não apenas um funcionário capaz. Perdeu,
também, um pouco da substância que fez e faz deste local de trabalho uma
extensão de nossas casas e de nossas vidas. Enfim, se não pude me despedir
do Lima, deixo-lhe este recado: vá com Deus, Lima, e que a terra lhe seja
leve.
kantek@celepar.gov.br

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