Um dos aspectos mais
discutidos e debatidos na área de Sistemas de Informação é o que diz respeito à
integração. Um dos objetivos mais perseguidos durante muito tempo, o sistema de
informação global, foi sendo descartado à medida que sua implementação mostrava-se
praticamente impossível. Apesar dos avanços da tecnologia computacional, principalmente
no que diz respeito a banco de dados, as tentativas de um sistema central têm
decepcionado seus patrocinadores. Nosso artigo propõe uma organização para os sistemas
de informação, que apesar de não ser centralizadora procura atentar para as
necessidades de globalização necessárias. Esta organização mantém a autonomia dos
sistemas integrados e é baseada no princípio da federação.
1 Introdução
Nosso artigo explora o problema da integração de sistemas de informação. Qualquer
executivo ou profissional de sistemas de informação certamente já teve uma experiência
envolvendo este problema. Muitas vezes encarada como um problema técnico, a integração
é causa do profundo desgaste na equipe de sistemas e, na maioria das vezes, fonte de
grande decepção. A idéia de
integrar sistemas como uma federação não é nova. Davis em seu livro [3] diz
explicitamente:
"Integrated processing is
accomplished by an overall system plan. The system is usually designed as a federation of
subsystems rather than a single system... "
Apesar disso, Davis não detalha como esta
federação funcionaria. Segundo Davis, ainda assim seria necessário um plano de sistemas
geral. É justamente nesse ponto que nossa proposta é diferente. No nosso conceito de
federação, não existe um plano inicial, nem regras definidas para cada subsistema, que
para nós são na verdade sistemas. A organização federativa, por nós proposta,
objetiva principalmente manter a autonomia dos sistemas a serem integrados.
Buscamos a analogia de federação,
principalmente no direito [8]. Este princípio organizacional tem funcionado não só como
forma de governo, mas em outras situações, desde a organização de cooperativas até a
organização de times de futebol. O princípio fundamental desse conceito é o da
independência dos órgãos federados, que concordam com um objetivo comum e de interesse
de todos.
Nas seções seguintes discorreremos sobre
o papel da informática na organização, a dificuldade da visualização de um sistema de
informações e a organização federativa de sistemas de informação. Concluiremos,
discorrendo sobre o efetivo emprego desse conceito em grandes organizações.
2 A Informática e a Organização
Sistemas computacionais de apoio a organizações podem tanto servir de apoio às
atividades fins de uma empresa como às atividades meios. Os sistemas de maior
complexidade são aqueles que além de operacionalizarem essas atividades, também
fornecem apoio gerencial. Portanto, estes sistemas computacionais são subsistemas de um
sistema maior que envolve pessoas, grupos organizados formalmente ou informalmente,
procedimentos, políticas, máquinas e meios de comunicação.
O entendimento de que sistemas
computacionais de apoio à organização são elementos de um conjunto maior,
constantemente afetados pelas mudanças nesse meio, é de fundamental importância. Estes
sistemas computacionais são parte do que chamamos sistemas de informação. Portanto, estes sistemas devem tratar, entre outros, de aspectos
ligados à própria organização, suas necessidades, sua organização, atores
envolvidos, fluxo de informações, cultura organizacional, satisfação no trabalho,
padronização, métodos e procedimentos, infra-estrutura.
Portanto, a função da informática, na grande maioria das empresas, lida com duas partes
distintas. Uma é a referente às arquiteturas de sistemas de informação, e outra
referente às arquiteturas de sistemas computacionais de apoio a sistemas de informação
[5]. Assim sendo, a função da informática numa organização passa a ter uma amplitude
muito maior, envolvendo não só aspectos técnicos e organizacionais, como aspectos
políticos no que se refere à decisão sobre emprego de tecnologias a serviço de
sistemas de informação.
Neste quadro, é importante salientar a diferença, que julgamos essencial [5], entre
sistemas de informação e engenharia de software. Enquanto sistemas de informação têm
uma preocupação global, a engenharia de software tem uma preocupação centrada para o
software que será um dos componentes de um sistema de informação. Esta distinção não
é clara na literatura, o que leva a tratar a parte como o todo. As diferenças se
manifestam tanto nas técnicas a serem utilizadas, como na formação do pessoal
especializado.
Fundamentalmente, deve-se entender que o âmago da questão do desenvolvimento e
operação de sistemas computacionais de apoio a organizações está na complexidade de
tal tarefa. A década de 60 e princípio da década de 70 mostraram a inviabilidade da
idéia do sistema de informação global para toda uma organização.
A despeito dos grandes avanços tecnológicos, várias organizações passaram pela
desagradável experiência de terem altíssimos gastos em processamento de dados e,
contrariamente ao esperado, terem acumulado grandes insucessos na implantação de
ambiciosos sistemas de informação, os quais englobariam toda a organização.
Um sistema de informação não é como muitos acreditavam e, infelizmente, alguns ainda
acreditam, um sistema puramente técnico. A visão tecnicista, oriunda, principalmente, do
enfoque racional tecnológico da maioria dos gerentes responsáveis pela função de
processamento de dados, detecta um sistema de informação como meramente uma obra de
engenharia. Nada mais longe da realidade.
Um sistema de informação é um sistema onde aspectos técnicos são de fundamental
importância, mas para que o sistema tenha sucesso deve ser socialmente aceito pela
organização onde ele irá atuar. Ser socialmente aceito implica que a organização
trabalhe com aquele sistema como parte do seu dia-a-dia. Portanto, é imprescindível que
o arquiteto de um sistema de informação esteja atento a aspectos sociais da
organização [4].
Apesar da idéia, de que sistemas de informação são sistemas que devem levar em conta
aspectos sociais não ser nova [7] [6] [1], poucas organizações de informática praticam
seus princípios. Acreditamos que grande parte dos problemas de integração são
justamente oriundos dessa dificuldade dos profissionais de sistemas lidarem com problemas
que permeiam e desafiam sua formação eminentemente técnica.
A seguir, discutiremos o problema de integração em sistemas de informação.
Descreveremos alguns aspectos técnicos, mas realçaremos o aspecto social como fator
preponderante em qualquer arquitetura de integração.
3 Problemas na Integração de Sistemas de Informação
Certamente executivos de informática ou profissionais mais experientes, já se
encontraram numa situação em que diferentes setores de uma organização utilizavam
diferentes sistemas com grande redundância de dados e operações. Esta situação é
muito mais comum do que se pode imaginar e proliferou rapidamente quando do surgimento de
plataformas de hardware de custo mais acessível. Não é raro encontrar organizações em
que o sistema de orçamento do marketing é totalmente desacoplado do sistema de
orçamento da empresa, ou em que a contabilidade de custos não se utiliza dos dados da
contabilidade geral.
Na maioria das vezes, casos como esses são vistos como problemas. Uma abordagem puramente
técnica acreditará que houve um mau planejamento por parte dos arquitetos dos sistema ,
que deveriam ter feito um estudo mais aprofundado da situação, ou deveriam ter utilizado
padrões. Em algumas circunstâncias, é verdade que por falha técnica, sistemas
apresentam redundâncias desnecessárias. É preciso, no entanto, que fique claro que
muitas vezes esses problemas ocorrem não por falta de planejamento, mas sim por
características inerentes ao contexto social em que esses sistemas estão envolvidos.
Não obstante esta visão social, o objetivo de integração deve ser sempre perseguido
por arquitetos de sistemas de informação. Um dos grandes desenvolvimentos na área de
informática, os sistemas gerenciadores de banco de dados, tem sido uma das ferramentas
mais poderosas para que se procure integrar sistemas. No rastro desse desenvolvimento,
modelos conceituais de grande expressividade têm sido propostos para modelar os dados de
uma organização [2].
Apesar dos gerenciadores de banco de dados serem um avanço considerável, ainda assim o
maior problema técnico na integração de sistemas é o que diz respeito a dados.
Diferentes padrões de armazenamento dificultam a integração de sistemas desenvolvidos
em distintas plataformas de software. Hoje, muitos dos grandes bancos de dados já
oferecem a facilidade de importar dados com formatos de outros fabricantes. Além do
problema de dados, outro grande freio à integração diz respeito a protocolos de
comunicação entre computadores distintos.
No que se refere à tecnologia organizacional, os maiores problemas de integração de
sistemas de informação têm suas raízes na falta de padronização das informações e
na falta de padronização de processos. As soluções administrativas para implementar
integrações através de retreinamento e recodificação são geralmente de alto custo.
Os aspectos técnicos descritos acima são para integração a posteriori, isto é,
integração de sistemas já existentes. A integração planejada, conforme advogam
vários autores de sistemas de informação, seria a integração ideal, isto é, aquela
em que aspectos de interfaceamento entre sistemas podem ser pensados antes que estes
sistemas sejam implementados. Cabe ressaltar, no entanto, que o planejamento não altera
nossas observações quanto ao aspecto social. Em muitos casos, mesmo podendo-se planejar
com antecedência, ainda assim motivos sócio-políticos podem fazer com que uma suposta
perfeita integração não se concretize.
Em seguida, propomos um meta-modelo em que procuramos levar em consideração o contexto
social no aspecto de integração de sistemas. Este meta-modelo é baseado na idéia de
federação.
4 A Organização Federativa de Sistemas de Informação
Deixamos claro, na seção anterior, a necessidade de integração de sistemas de
informação com os argumentos já conhecidos, referentes à redundância, custo associado
e qualidade das informações. No entanto, observamos que o enfoque tradicional, aquele
que procura resolver os problemas sob a ótica técnica, muitas vezes não consegue
auferir seus objetivos. Nossa proposta procura mesclar aspectos técnicos com aspectos de
análise do contexto social.
4.1 Definição Geral
Entendemos federação de sistemas de informação como um acoplamento fraco entre
sistemas de informação dentro de uma organização. São quatro as características
desse acoplamento:
- os sistemas de informação federados são independentes;
- os sistemas de informação federados são autônomos;
- os sistemas de informação federados são governados por um
conselho no qual cada sistema de informação federado tem um representante;
- ao conselho da federação cabe o governo das relações de
interdependência entre os sistemas e sua relação com sistemas de informação externos
à empresa.
O ponto-chave deste tipo de organização é justamente o
que diz respeito à independência e autonomia dos sistemas. Muitas vezes uma autonomia de
um sistema pode, em termos gerais, acarretar uma necessidade de duplicação de dados e de
tarefas que a princípio seriam alvo certo de uma integração. No entanto, deve-se levar
em consideração se uma mudança com vistas à integração não levaria a custos muito
maiores do que o custo de duplicação.
Na maioria das vezes quando uma proposta de integração é sugerida, não se leva em
consideração custos escondidos. Vejamos um exemplo. A empresa X2 opera dois sistemas de
informação bastante semelhantes. Um controla a parte financeira de projetos e outro a
parte física desses projetos. Um desses sistemas está implementado em um mainframe,
enquanto o outro roda numa rede de micros. Um desses sistemas é operado por gerentes de
projetos enquanto o outro é operado pelos executores dos projetos. Os dois sistemas
praticamente não se falam, apesar da fonte geradora dos dados ser basicamente a mesma.
Uma solução técnica óbvia seria a de fazer uma entrada comum, por exemplo. No
entanto, ao se observar com detalhe a organização do trabalho, se verificará que toda a
rotina dos executores é feita com base em contratos com prestadores de serviço, e é o
contrato o centro das atenções, apesar de que um contrato está ligado a um projeto. Por
outro lado, o gerente de projeto trabalha com a noção de projeto e suas metas, inclusive
financeiras, e portanto olha o contrato como um dos componentes do projeto. A solução de
uma entrada comum nesse caso, apesar de óbvia, teria grandes problemas de funcionamento,
principalmente em função da cultura sedimentada dos executores.
Este caso é um exemplo típico da necessidade de uma integração onde a autonomia dos
sistemas seja mantida, apesar da duplicidade, visto que o custo para se fazer uma
integração técnica seria muito maior que a de manter os sistemas autônomos3. Com base
nessa constatação, a integração deve procurar soluções negociadas levando-se em
conta esses custos escondidos.
4.2 Frentes de Atuação
O princípio básico da integração federativa é obter ganhos globais e, portanto, deve
atuar em quatro frentes:
No que diz respeito
à qualidade da informação, a integração federativa deve, principalmente,
utilizar a redundância de dados existentes como o fator primordial para
detectar problemas de coerência4. Sistemas autônomos podem apresentar
dados, que apesar de formato diverso, representam um mesmo fato da realidade.
Esta oportunidade deve ser explorada como um mecanismo para validação
das informações armazenadas nesses sistemas. Cabe à federação a definição
de procedimentos para que este mecanismo de comparação seja usado de maneira
eficaz.
No que diz respeito à troca de informações, a federação deve incentivar
o escambo entre seus federados, isto é, incentivar a troca de informações
com base no benefício mútuo. Pode parecer estranho que dentro de uma mesma
organização haja setores que não queiram ceder suas informações. Uma atitude
técnica decretaria que este era simplesmente um problema de acatar ordens,
isto é, a informação tem que ser compartilhada. No entanto, profissionais
mais experientes sabem que estes problemas não se resolvem por decreto,
mas sim por um processo de negociação. A troca de informações, portanto,
envolveria aspectos técnicos, principalmente no que diz respeito à formatação
de dados. Software de tradução de formato são de especial importância
nesses casos.
A segurança das informações deve ter atenção especial da federação. Sistemas
federados têm dados que são confidenciais e que devem manter esse status.
Normas de integração devem respeitar essa confidencialidade. A integração
também deve-se precaver no que diz respeito ao acesso às bases de dados
e à segurança física dos dados. Caso não haja uma política de segurança
em sistemas federados, a federação deve cuidar para que essa prática se
modifique.
Em termos de custo de processamento, a federação deve desenvolver estudos
comparativos para que aponte para seus federados melhores alternativas
de processarnento. Uma vez dispondo-se de experiências diversas, há oportunidade
para que comparações ocorram, principalmente no que diz respeito a custos
de processamento. Técnicas que são sucesso em alguns sistemas podem ser
testadas em outros. Também com o convívio da federação, os sistemas, através
de seus representantes, podem identificar processos de integração que
reduzam os custos de cada federado.
4.3 Aspectos Gerenciais
Conforme exposto acima, a federação deve ser governada por um conselho,
mas deve ter um pessoal próprio para ajudar a operar a federação. A integração
desse conceito junto ao órgão responsável pela informática numa empresa
deve ser feito de uma maneira cuidadosa. É importante ressaltar que a
federação não tem atribuições de mando na estrutura da empresa. A alocação
de pessoal técnico a este conselho tem por objetivo facilitar as tarefas
técnicas de integração.
Entendendo-se a federação como um conselho, no que diz respeito à organização
da função informática, leva a comparações com outras propostas, como por
exemplo a do comitê de usuários [4]. No caso da federação, a organização
de informática deve ter participação ativa, mas os representantes dos
federados devem ser usuários, preferivelmente aqueles que têm forte ligação
com o sistema. A presidência da federação seria por votação, cabendo ao
pessoal de informática assento na federação, isto é, sem representar um
sistema federado em particular.
É claro que a implementação de tal organização não é tarefa simples. Nosso
objetivo nesse artigo é o de divulgar a idéia. A implementação de um esquema
como o proposto dependerá de um estudo de cada organização em particular.
5 Conclusão
Neste artigo apresentamos uma visão diferente para o problema de integração
de sistemas. Levamos em consideração, principalmente, o acervo de sistemas
já desenvolvidos nas organizações e a dificuldade de se traçar um plano
global para sistemas de informação.
Nossa visão federativa procura conciliar sistemas de informação autônomos
sem forçar soluções técnicas para sua interligação. Nossa proposta baseia-se
fundamentalmente no processo de negociação entre os federados.
A implementação de uma visão federativa numa organização não é tarefa
simples. Cada empresa é um caso, sendo que existem também casos de empresas,
que, por terem um caráter mais burocrático, conseguem integrações mais
acopladas. Nossa proposta é útil para aquelas empresas em que o dinamismo
de suas várias partes leva a uma independência maior entre os sistemas.
Na nossa visão, a solução da integração não está num grande plano, mas
sim na evolução dos sistemas.
Notas:
1. A idéia de um governo federativo é base da constituição do Estados
Unidos e teve em Madison o seu principal idealizador. A confederação Helvécia
(Suíça) é também um excelente exemplo de um estado federativo.
2. O presente exemplo é extraído de um caso real numa grande empresa.
3. No caso da empresa X haveria necessidade de mudar uma cultura existente
em centenas de profissionais. lsto demandaria um investimento vultoso
de treinamento e negociação.
4. Coerência é a propriedade que observa se os dados armazenados espelham
a realidade.
Referências Bibliográficas:
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São Paulo: Atlas, 1987.
2. BRODIE, M.; MYLOPOULOS, J.; SCHMIDT, J. On conceptual modelling:
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1984.
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4. LEITE, J. C. S. P. O enfoque social na análise de sistemas.
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5. LEITE, J.C.S.P. Sistemas de informação e engenharia de software:
o elo gerencial. In: CONGRESSO NACIONAL DE INFORMÁTICA, 24, 1991, São
Paulo. Anais ... São Paulo: SUCESU, 1991. p. 98-105.
6. KLING, R.; SCACHI, W. Recurrent dilemmas of computer use in
complex organizations. AFIPS Conference, 48, 1979. Proceedings.
/S. n. t./ p. 107-115.
7. MARKUS, M. L. Systems in organizations: bugs + features.
/S. I./ Pitman, 1984.
8. NAÚFEL, J. Dicionário jurídico brasileiro. /S. I./
Ed. Naúfel, 1984.
bb@celepar.gov.br

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