Mais
uma do tempo do rascunho da Bíblia. Há muitos e muitos anos a CELEPAR
adquiriu a sua linha de terminais 3270. Hoje eles podem ser (e são) desdenhados.
Até chamados de terminais burros. Pode haver jeito mais ofensivo de se
referir a alguma coisa ligada à informática?
Mas em 76/77, eles eram a última maravilha tecnológica. Afinal, iam substituir
as perfuradoras de cartões 029, o barulho, o peso, os picotes, as aranhas,
a poeira e sujeira, e tudo mais que aquelas montanhas de cartões acumulavam.
O impacto da chegada dos terminais foi muito, mas muito maior do que a
entrada dos micros neste final dos anos 80.
Pois voltando à nossa história, para usar o moderníssimo hardware, a CELEPAR
comprou um software chamado ROSCOE. Não sei se ainda hoje é usado, afinal
os mainframes estão meio fora de moda, mas na época também era o must
em matéria de programas produto.
Com ele vieram conceitos como privacidade das bibliotecas, sigilo de acesso,
controle (logging) de entradas e saídas, e assim por diante,
coisas desconhecidas e até meio misteriosas. Elas vieram substituir o
ambiente onde, só para vocês terem idéia, a Rose (uma magnífica perfuradora
- o antigo nome para digitadora - onde andará a Rose?),de tanto perfurar
programas COBOL já conhecia enciclopedicamente a sintaxe da linguagem
e não tinha nenhuma vergonha em consertar comandos errados que os programadores
inadvertidamente escreviam. Era conhecida como "Rose, a pré-compiladora!".
Pois voltando de novo à nossa história, tão logo o ROSCOE foi instalado,
todos foram avisados pelo suporte, (sempre eles, o suporte!) em um tom
formal, respeitoso e até meio gongórico que deveriam arrumar uma chave
de acesso. Foi um tal de um olhar para o outro se perguntando "que
raio de chave é essa?" mas nem pensar em dar a torcer o braço para
aqueles metidos a besta do suporte, perguntando do que se tratava a tal
da chave.
Aí, o mais corajoso foi lá pedir a dita cuja. As figuras que trabalhavam
no suporte, vendo que o ilustre freguês não sabia o que era a tal da chave,
em vez de cadastrar a pessoa e a sua senha (o que é de fato a tal da chave),
resolveram aprontar uma.
Os terminais 3270 tinham uma chave (chave comum, de metal, dessas que
a gente usa no chaveiro para abrir a porta de casa), que no caso da CELEPAR
não iria servir para nada, já que a segurança de acesso ao prédio sempre
foi feita na portaria. Pois o analista de suporte entregou essa chave
de metal para o corajoso (hoje diríamos "boi de piranha!") que
tinha ido lá, com a recomendação de que tivesse cuidado com a chave, se
a perdesse, precisariam pedir outra para os Estados Unidos. Daí o suporte
todo foi atrás do pioneiro, que voltou para o "pool" de programação
onde trabalhávamos, mais de 25 programadores, todo contente e feliz mostrando
a chave de ROSCOE que ele acabava de receber. Festa, gozação e algum tempo
depois a vítima foi avisada do logro. Sua resposta, esquentado que era,
foi atirar a tal da chave nas fuças do metido a engraçadinho do suporte.
Pois a chave era pesada e acabou raspando o cidadão alvo e pingando uma
ou duas gotinhas de sangue.
Na história da humanidade, deve ter sido até hoje o único caso de alguém
que se feriu com uma chave de ROSCOE.
kantek@celepar.gov.br

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