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Este mês,
como parte do meu doutorado, fui fazer um curso de inglês no exterior. Como eu já
conseguia ler os manuais da Microsoft, fui botando banca, achando que era só dar uma
lustrada no meu idioma, de Shakespeare. Era a primeira vez que saia do País, e o destino
não poderia ser melhor: NY, a capital do mundo. Na chegada a primeira decepção: parecia
que eu falava paquistanês e os nativos falavam javanês. Em resumo, eu não consegui
entender patavina, e eles nem isso. Recebida a primeira lição de humildade, chegou o
momento de encarar 6 horas de aula/dia, dadas, obviamente, em inglês.
Fui achando que ia encontrar
terminais Internet
em cada esquina da cidade. Segunda decepção: lá (fora do ambiente universitário)
ninguém conhece a Internet.
Ou seja, lá como cá. Todo mundo fala e quer saber o que é, mas usar que
é bom, necas de pitibiribas. Restou-me o recurso ao velho (mas confiável)
correio tradicional. Para não mentir, na Biblioteca Pública de NY (um
dos prédios mais maravilhosos da cidade - talvez, o mais), tinha 2 terminais
Internet,
instalados há 15 dias, em regime experimental, e do qual os bibliotecários
tinham o maior ciúme. Os americanos, coitados, quase não conseguiam chegar
perto. O que dizer de um estrangeiro. Mas, sempre dá-se um jeito. Quando
chegou a minha vez, só estava disponível o serviço WWW, que de nada me
adiantava para receber e mandar mensagens para os amigos aqui do Patropi.
Quando perguntei sobre o e-mail (nessa altura o meu inglês já dava para
ser entendido - acho), foi como se eu tivesse perguntado qual a capital
de Burkina Faso. No fim, desisti... deixa prá lá.
Fazer um curso desses, é uma
experiência de vida enriquecedora e divertida, principalmente com os encontros e
desencontros que as culturas e os idiomas produzem. Por exemplo, lá pelas tantas,
sentindo que a comida americana começava a fazer efeito sobre a largura da minha
cintura, resolvi perguntar para o professor "Where can I weight me, after classes
?" (onde eu posso me pesar depois da aula ?). O professor entendeu
"wait" (esperar) em vez de "weight" (pesar), e pela cara dele deu pra
ver que ele achou que eu estava perguntando, aonde eu podia esperar ele, depois da aula...
Sabe-se lá o que o pobre homem entendeu.
Todas as pessoas com quem falava,
perguntavam de onde eu era, e eu dizia: Curitiba, Brazil. Quanto ao Brasil, todos falavam
em Ayrton Senna (os japoneses e italianos, principalmente) e em caipirinha de caxaxa (é
assim que eles falam cachaça). Me deu uma baita raiva de saber que nossa bela cidade era
tão desconhecida. Fui na Biblioteca da cidade e pesquisei no computador sobre Curitiba, e
surgiram inúmeros artigos de jornais novaiorquinos, todos elogiando a cidade e sua
administração. Isso tudo ocorreu lá na época da experiência com o ligeirinho em
NY[1]. Mas quanto aos alunos, ninguém sabia mesmo.
Aí eu mandei uma carta urgente para a
Elaine (nossa diligente auxiliar na GPT) pedindo para ela me remeter algum material em
inglês sobre nossa cidade. E esqueci do caso.
Uma semana e meia depois, ocorreu a maior das coincidências. O professor estava ensinando
à construir frases comparando coisas e ele mandou todos os alunos irem no quadro escrever
uma frase comparando o metrô de suas cidades com o metrô de NY. E agora?, pensei eu.
Ainda mais que a maioria dos alunos, ia lá na frente e se derramava em elogios ao metrô
novaiorquino (que por sinal é bem velho, mas funciona direitinho). Não tive dúvida: fui
lá na frente e escrevi 'The transportation system of Curitiba is more rational than NY'
Tá certo que foi um pouco de patriotada, mas vá lá. Fora do nosso País, somos todos
embaixadores. O professor me olhou como se eu tivesse escrito uma blasfêmia. Mas por
educação, nada disse. Nessa hora (vejam a coincidência), o diretor do curso entrou na
sala para dar uns avisos, e de passagem me disse: "Pedro, you have a package from
your country in our office". Eu pensei, "bendita Elaine" (e soube depois
que um monte de gente tinha colaborado obrigado a todos). Pedi licença e fui buscar o
pacote. Estavam lá 1,280 Kg de material promocional da melhor qualidade sobre Curitiba.
Voltei, triunfante, e preguei na parede da sala um poster enorme que descreve o sistema de
transporte coletivo de Curitiba. Chamei o professor lá e expliquei pra ele porque havia
escrito aquilo. Ele não entendeu o que eram aqueles tubos e eu expliquei que era um
mini-metrô, que a gente pagava o bilhete no tubo e o embarque era super rápido. Funciona
como um metrô e a 1/20 do custo do dito cujo. No fim o professor deu a mão à
palmatória.
Num fim de semana, chegou a hora do passeio. Uma ida a Washington, cidade belíssima
(Lembra um pouco Brasília, só que mais rica, é claro). O certo é fazer a viagem em 2
dias, e pernoitar lá, mas o hotel mais barato custava 100 dólares, e como 100 dólares
não dão em árvores (nem lá), resolvi ir e voltar no mesmo dia. Que odisséia! Na
chegada, arrumei um mapinha do centro, e como estava completamente desorientado, chamei um
guarda e perguntei "Please, sir. Where is the north?" O gajo, fez cara de quem
não tinha entendido a pergunta, mas ele tinha entendido sim. O que ele não sabia era
onde era o norte. Repeti a pergunta, e aí, não teve jeito, ele foi obrigado a pensar
(bastante) e dizer "lá" apontando com o dedo. Virei o norte do mapa na mesma
direção e saí caminhando. Andei perdido por mais de uma hora. O danado do guarda era
ignorante em geografia. Ele tinha me apontado o sul!
Primeira parada, Biblioteca do Congresso. Eles têm um acervo de simplesmente 30.000.000
de livros. Só que não queriam deixar entrar na sala de pesquisa computadorizada do
acervo. Tive que afirmar peremptoriamente que eu era um "foreign rescarcher"
(pesquisador estrangeiro). Quanto ao fato de eu ser pesquisador, não tenho certeza se
eles acreditaram, mas quanto ao fato de eu ser estrangeiro, nenhuma dúvida.
Depois, capitólio, obelisco, memorial a Lincoln, cemitério de Arlington (mais de 100.000
mortos em defesa da pátria, e cá prá nós, de maneira bem estúpida, em guerras, como
são estúpidas todas as guerras). Mais que um cemitério, o lugar é uma lição de
bravura, heroísmo e de como o bicho homem é um completo idiota em
certos momentos. Os túmulos mais visitados eram o de JFK e o da professorinha de jardim
de infância que explodiu junto com a Challenger. Me perdoem a falta de respeito, mas só
me ocorreu pensar "o que essa mulher estava fazendo dentro de um foguete em vez de
estar dentro de uma sala de aula ?"
Já no fim da tarde, visitei o memorial aos mortos do Vietnã. 55.000 nomes de americanos
que morreram lá. A cena que mais me impressionou, foi a de uma menininha (devia ter uns
9, 10 anos), com uma folha de papel e um giz de cera tirando um decalque do nome de uma
pessoa (tio?, primo?, irmão? - sabe-se lá).
Bom, já eram 6 horas da tarde, e me dei conta que a última coisa que havia comido era
uma diet coke a bordo do trem. Desesperado, procurei um lugar de comer, e olhando para a
esquerda, achei a salvação: uma barraquinha de cachorro quente. Corri lá, e pedi um
refrigerante e um cachorro quente (já pensando no segundo cachorro). Enquanto a senhora
me servia a bebida, ela estava almoçando arroz (de um prato imundo) e conversando com sua
colega de trabalho. Pois a desgraça foi que, a cada sílaba que a mulher soltava, saiam
da sua boca uns 4 ou 5 grãos de arroz, que iam cair direto sobre os pães e as
vinas.Posso ser esfomeado, mas louco não sou.
A sede conseguiu ser acalmada, mas a fome teve que esperar mais um pouco.
Nessa hora desabou o maior temporal (como se diz lá, " was raining cats and
dogs"). Como não havia levado muda de roupa, tratei de me abrigar, que me faltava
encarar uma viagem de 4 horas de trem de volta ao lar. Corre, pula, se protege, e
finalmente cheguei à estação de trem, e a primeira coisa que vejo foi uma imensa
lanchonete. Ah-ah!, pensei, vou me refestelar. Pedi tudo o que tinha direito, e para beber
uma dose média de refrigerante (o refrigerante pequeno deles, é do tamanho do nosso
grande). O médio, é maior, parece quase um balde. Não quero nem pensar como é o
"the biggest" que estava anunciado. Deve ser uma banheira cheia de líquido.
Tudo colocado na bandeja, procurei uma mesa, me sentei confortavelmente e simplesmente
derramei toda a coca-cola sobre mim. Do sovaco ao tornozelo, fiquei empapado. Não sei o
que houve. Num momento a coca estava todinha lá, quietinha no copo, e no momento seguinte
estava toda grudada em mim, e pelo lado de fora. Mas quem viaja, tem que se sujeitar a
essas coisas. Arrumei uma camiseta por ali, e quanto à calça, o negócio foi vestir a
máscara "quem foi que botou essa coca em mim ?". A maior vergonha foi voltar à
fila da lanchonete pra comprar outra. Ainda bem que ninguém me perguntou: "Se você
queria mesmo tanto a coca, porque derramou ela toda ?" Não ia ter o que responder.
Ainda bem que ninguém perguntou. A viagem terminou bem.
Já no fim do curso, bateu a saudade, da família, do Brasil, de Curitiba, da Celepar, dos
amigos, e por incrível que pareça, do café da Celepar. Os americanos não bebem café,
bebem chafé.
Tinha comprado um monte de livros (mais de 2OKg) e estava indo ao correio despachar (há
uma tarifa bem baratinha para livros), quando um colega brasileiro me alertou que demorava
muito. No ano passado ele tinha remetido alguns, e depois de 6 meses de demora ele
escreveu para o correio, mais ou menos nos seguintes termos: "Em 1500, a carta de
Pero Vaz de Caminha levou 90 dias para chegar da América até a Europa. Era de se esperar
que depois de 4 séculos, a coisa andasse mais ligeiro" , Bom, diante dessa história
resolvi trazer os livros comigo. O máximo que me aconteceu foi arrebentar a alça da mala
diante de tanto peso.
Para liquidar a crônica, fica o convite aos colegas e amigos. Está certo que o curso é
meio caro, mas quantas coisas caras a gente compra na vida? Posso afiançar a todos que a
experiência que eu vivi, não tem preço. Conviver durante 1 mês inteirinho com pessoas
de diversos países (na minha turma havia israelenses, italianos, japoneses, coreanos,
argentinos, venezuelanos, austríacos, além dos professores americanos) é uma
experiência que - quem puder - deve ter. O principal saldo que ficou para mim, é que
japoneses e americanos, embora ricos, têm 2 braços, 2 pernas, 1 cabeça e são
iguaizinhos à gente. Não precisamos ter nenhum sentimento de inferioridade ou de inveja.
Nosso País, está aí pronto para ser construído. Com nosso trabalho e esforço, logo
estaremos próximos deles. Mais do que uma esperança, essa é uma certeza que esta viagem
me ajudou a consolidar.
_________________________________
[1] Algumas referências encontradas na Biblioteca de Artes Cênicas, Cinematográficas e
Musicais do LincoIn Center, em NY:
The maestro of Curitiba. (mayor of
Curitiba, Brazil, Jaime Lerner) Mac Margolis. Los Angeles Times, April 27, 1993
v112 pH8 col 1 (31 col in).
The secret of a livable city? It´s simplicity itself (Curitiba, Brazil showcases
advances as it hosts World Urban Forum) (International Pages) (The Road to Rio) James
Brooke. The New York Times, May 28, 1992 v141 pA4(N) pA4(L) 18 col in.
Test runs for futuristic bus-tube system; from Brazil to New York, a computerized approach
to transportations (New York City Transit Authority uses plastic tubes to speed
connections between buses) Dennis Hevesi. The New York Times, April 21, 1992
v141 pB3 (L) 12 col in.
Civic
solutions: urban problems yield to innovative spirit of a city in Brazil;
Curitiba gets people to use public transit, sort trash, even build
own homes; old buses are mobile schools. (Curitiba, Brazil; innovative
and environmentally progressive solutions to urban problems) Thomas Kamm.
The Wall Sreet Journal, Jan 10, 1992 pA1 ( W) pA1 (E) 35 col
in.
kantek@celepar.gov.br

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