Crônicas
de um Celepariano em NY (3ª PARTE)
Autor:
Pedro Luiz Kantek G Navarro
As
pessoas continuam dizendo que estão acompanhando minhas peripécias
em terras estrangeiras. Então enquanto houver leitores, segue a
história,Eepisódios pitorescos é que não faltam.
Hoje
vai-se começar pelo embarque. Sabe como é, marinheiro de primeira
viagem, não deixei nada ao acaso. Dois meses antes, já tinha o passaporte,
o visto, a passagem, os dólares, a matrícula na escola, certidão
de vacinação, só faltou mesmo uma recomendação do Papai Noel dizendo
que eu era um bom menino.
Tudo
visto, olhado, verificado e conferido, três vezes. A única coisa
que lamentavelmente deixei de olhar foi a data da passagem. Na minha
cabeça, sabe-se porque cargas d'água, eu embarcaria dia 20 de maio,
sábado. Só que na passagem estava escrito (há mais de 1 mês), dia
19 de maio, sexta-feira, às 17:00.
Pois
chegou a sexta-feira, e eu tranquilamente aqui na CELEPAR, achando
que viajaria no dia seguinte. Estava tão tranquilo, que mais para
o fim do expediente, dei um pulo na agência da mulher do nosso colega
Azevedo, para buscar um guia turístico de Washington. Tudo na maior
calma, pois afinal eu só viajaria no dia seguinte.
Cheguei
na agência às 16, e notei que todo mundo tava me olhando de um jeito
meio esquisito. Claro, a Cristina (mulher do Azevedo) e os funcionários
se perguntavam: "o que esse maluco tá fazendo aqui? Devia estar
no aeroporto". Mas o caso é que ninguém me dirigiu a pergunta
fatal e eu saí tão tranquilo como tinha entrado. A Cristina, já
um bocado preocupada, ligou para minha casa, querendo saber se eu
já tinha ido para o aeroporto, e a minha secretária doméstica não
entendendo nada, disse: "não, ele só vai amanhã".
A
Cristina sabia que o avião saía em meia hora e criando coragem me
ligou para a CELEPAR. "Você não vai viajar ?". E eu, na
maior pachorra: "vou, amanhã". "Não é amanhã é
hoje, e daqui a 20 minutos..."
Levei
um susto e por uns momentos dei adeus a minha viagem tão olhada,
verificada e conferida (menos o dia da passagem como se viu). Que
sufoco.Foi um tal de ligar para a Escola em NY, para a companhia
aérea, pro taxi, para todo mundo.
No
fim, tudo se ajeitou, e no sábado fui trocar a minha passagem. A
companhia, com todo o direito, queria saber qual o motivo da mudança
da data da passagem. A Cristina pensou, pensou e lascou um "motivo
de força maior", o qual graças a Deus foi aceito pela transportadora.
Fica a lição. Na próxima viagem, vou conferir o passaporte, o visto,
a passagem, os dólares, a matrícula na escola, certidão de vacinação
e A DATA DA PASSAGEM.
No
vôo de Curitiba a São Paulo, embarca junto o baixinho daquela marca
de cerveja, rodeado por meia dúzia de mulatas de parar o trânsito.
Chega o serviço de bebidas e todo mundo olhando para o baixinho
para ver o que ele ia pedir. Não deu outra, ele pediu a tal da cerveja.
A comissária sorridente, retrucou com desculpas mas afirmou só ter
a outra, a concorrente. O baixinho soltou um grito como se lhe tivessem
oferecido cicuta. Fechou a cara e lascou um furioso "então
me dê água", sob aplausos da mulatada e apupos do resto do
avião. E eu cá comigo "essa viagem promete...".
Algumas
horas depois, estamos uns 400 passageiros no saguão de Cumbica.
Sai um avião aqui, outro alí, e finalmente ficam 2 aviões apenas,
da mesma empresa. O primeiro, no portão 11, ia para Seul, e o segundo
era o meu, para NY, no portão 13. Chega a hora do embarque e nada.
Passa meia hora e mais nada ainda. Uma hora e duplamente nada. Nisso,
o painel sobre o portão 13, que brilhava lindamente "Nova Iorque",
se apaga. Idem, idem o painel para Seul. Percebe-se um rumor de
mal estar entre a turba. Mais um instante, e o painel 13 se ilumina:
Seul. Mas o 11 continua apagado. Agora, surge uma gentil funcionária
da empresa e avisa: "o avião que ia para Seul está com um pequeno
defeito. ("pequeno, porque não é você que vai viajar nele..."),
e o avião que ia para NY agora vai para Seul. Gritos, apupos, vaias,
e antes que a turba novaiorquina chegasse perto da moça, ela desapareceu
como por encanto. Cria-se o maior tumulto, embarca aqui, desembarca
lá, ninguém mais sabe pra onde vai cada um, e só me ocorreu pensar
"só falta eu pegar o avião errado e desembarcar em Seul".
Tudo esclarecido, começa o embarque no avião que ia para NY e agora
vai para a Coréia. Cada passageiro que passava perto de mim, levava
um olhar de "ladrão de avião alheio..."
Mais 40 minutos, e vem o aviso: "O avião de NY está pronto.
Não valem mais os lugares marcados no balcão" (pois os lugares
haviam sido reservados no maldito voo que já tinha saído. Aliás
pela demora, nessas alturas do campeonato já devia estar perto do
mar da China), e "boa viagem..."
Tinha
um casal com 3 filhos pequenos aprontando a maior algazarra. O Pai
muito educadamente, já tinha dado uns quantos ralhos nas crianças.
Britanicamente, ele mandava elas ficarem quietas. Pois não é que
quando o bom homem ouviu que os lugares marcados já não valiam,
saiu urrando, pulando, gritando num pique só, atropelando todo mundo,
na certa para pegar uma janelinha. Só me ocorreu pensar: "ué,
cadê a fleuma britânica ?"
Embarcamos,
voamos e pela manhã, NY. Desembarco e obviamente caio na fila do
3º mundo. No desembarque, tem a fila dos americanos, que aliás não
tem fila, pois é super rápido, a dos cidadãos da Comunidade Européia
e Japão (leia-se cidadãos ricos) e o resto. Nesse resto, infelizmente
estamos nós, junto com nossos irmãos colombianos, nicaraguenses,
paraguaios, zimbawenses, costaverdeanos e por aí vai.
Mais
meia hora de fila e chega um momento emocionante: o primeiro pedido
de informações em terras estrangeiras. Treino bem a pergunta (quase
cheguei a escrever ela em um papel), estufo o peito e largo "Where
can I take the downtown bus ?". Que alegria, a gentil senhorita
me entendeu. O passo seguinte foi ela me responder, e aí a alegria
murchou: eu não entendi absolutamente nada do que ela me disse.
E foi um belo discurso... era um tal de turn left, turn right, go
ahead, upstairs e eu só chacoalhando a cabeça pra cima e pra baixo.
Por sorte tinha uns viajantes com cara de quem iam pegar ônibus.
Fui atrás. Ainda bem que eles não estavam indo pra algum lugar exótico.
No
ponto do ônibus, espera, espera e nada. Nisso surge uma van, caindo
aos pedaços - obviamente clandestina - e me oferece transporte.
Dentro da van, tinha um som tipo 3 em um completo (com a música
na maior altura), um espelho com produtos de toucador, remédios
em geral, umas guirlandas penduradas, um imenso ventilador (ligado)
e um forro nos assentos feito de retalhos multicoloridos. Lembrava
o táxi do filme mulheres à beira de um ataque de nervos. Não sei
não, algo na esculhambação da van me deixou mais à vontade. Digamos
assim, que era um pouco do terceiro mundo me acompanhando no primeiro.
"let's go" pensei e fiz a pergunta óbvia "how much?".
O motorista respondeu fifteeeyy, e eu não consegui entender se era
fifty (50) ou fifteen (15). E eu, hã?, e ele: fifteeeyy. E eu, hã?,
e ele já ríspido: fifteeeyy. Continuei sem entender. "E agora,
José ?" Peço para ele escrever num papel, ou embarco
assim mesmo? Relaxo, meu anjo da guarda vai me ajudar, embarco com
a cara e a coragem. Mais meia hora e... Manhattan, cá estamos. Cheguei.
A propósito, eram 15.
navarro@lcmi.ufsc.br

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