Administração
de Informática - O que é Importante ?
Autores: João Pedro
Albino e Maria Alexandra V. C. da Cunha
Ao se falar na administração
de informática dentro de uma organização, quais são os pontos importantes?
Quais aquelas questões que merecem uma abordagem planejada, na busca
de respostas implementáveis?
Tentando responder a
essas perguntas, este artigo foi elaborado durante o curso de "Administração
de Informática", no curso de doutorado em Administração da
Faculdade de Economia e Administração da USP, Universidade de São
Paulo, do prof. Dr Nicolau Reinhard. É um resumo/adaptação dos capítulos
1 e 2 do livro Corporate Information Systems Management - Text
and Cases, de James I. Cash Jr, F. Warren Mc Farlan, James L.
McKenney, e Lynda M. Applegate.
O Desafio
da Tecnologia de Informação
Durante os últimos trinta
anos, um conjunto de desafios gerenciais tem sido criado pela rápida
evolução da Tecnologia da Informação (TI). Para enfrentar tais desafios,
novos departamentos foram criados nas empresas, ocorreu recrutamento
em massa de novos tipos de staff, grandes investimentos em
hardware e software foram feitos e foram instalados sistemas de
informação que afetaram profundamente como as empresas operam e
competem. O impacto da TI não se restringe a grandes corporações.
Influencia, também, médias e pequenas empresas e, em todas, torna-se
um problema mais complexo que no passado. O livro Corporate Information
Systems Management - Text and Cases, do qual este artigo resume/adapta
os dois primeiros capítulos, pretende dar suporte à avaliação das
atividades de TI, define políticas a serem executadas e mostra detalhes
de desafios específicos da sua execução. O texto pode ajudar na
integração da TI e sua administração às demais atividades da empresa
e fornece uma visão global dos requisitos gerenciais para a sua
administração nos anos 90.
Para que uma empresa
possa ter o seu negócio efetivamente suportado pela Tecnologia de
Informação a longo prazo, alguns autores acham interessante olhar
a administração da função informática como um "negócio dentro
de um negócio". Quatro conceitos permeiam então a apresentação
deste texto, no sentido do "negócio" de TI poder ser melhor
administrado: a relevância estratégica, a cultura organizacional,
a contingência e a transferência de tecnologia.
Sobre relevância
estratégica , é importante a observação de que o impacto
da TI varia entre ramos de negócios, entre empresas do mesmo ramo
e até entre departamentos e unidades da mesma empresa. Este conceito
é crítico para se entender a diversidade de práticas que podem ser
usadas para gerenciá-la.
Na cultura organizacional
, os valores do corpo executivo, a forma de planejamento da corporação,
sua filosofia e controle, e a velocidade de mudança tecnológica
nos produtos "carro-chefe" da empresa são variáveis que
influenciam e devem ser consideradas na forma como a TI deve ser
gerenciada. Combinar ferramentas genéricas (como bancos de dados
e sistemas operacionais) com valores, cultura e processos de uma
empresa é a arte de gerenciamento.
São também importantes
abordagens e ferramentas de gerenciamento que capacitem a empresa
a enfrentar um ambiente complexo e em mudança (contingência). O
que foi adequado e deu bons resultados no passado hoje é, muitas
vezes, insuficiente.
Quanto à transferência
de tecnologia, a difusão de TI pode e deve ser gerenciada. O
sucesso só vem quando as pessoas são capazes de alterar seus velhos
hábitos e formas de pensar.
- Outros fatores fazem
da assimilação da TI uma tarefa particularmente desafiadora:
- É uma tecnologia nova,
os quarenta anos em que é estudada são pouco tempo para o desenvolvimento
de conhecimento.
- Tem havido melhorias
dramáticas na relação custo/performance da tecnologia e, para
complicar, algumas tecnologias chave têm se alterado explosivamente
(tamanho e velocidade de CPU por exemplo) enquanto outras têm
se alterado muito mais devagar (ferramentas de desenvolvimento
de software). Esta explosão técnica continuamente viabiliza novas
famílias de aplicações e permite que as velhas possam vir a ser
feitas de outra forma (com mais recursos e/ou mais baratas).
- À medida em que a
tecnologia muda, o conhecimento dos profissionais se torna obsoleto,
e há necessidade de contínua atualização.
- Há um jargão próprio
da área que afasta o usuário do pessoal de informática. O relacionamento
entre a equipe de TI e o nível executivo, principalmente, tem
que ser coordenado.
- O avanço tecnológico
criou um sem-número de especializações (várias linguagens, sistemas
de gerenciamento de bancos de dados, telecomunicações, suporte
a sistemas operacionais, etc.) que configuram um ambiente de coordenação
complexa dentro da organização.
Ao se olhar a atividade
em TI das organizações (pesquisa e experiência dos autores), seis
questões críticas aparecem como preocupações fundamentais para os
executivos seniores, às quais a administração de TI deve ser capaz
de responder adequadamente:
- A minha empresa está
sendo afetada competitivamente pela não-execução de um trabalho
na área de TI, ou pela sua execução não adequada? Se fosse executado
adequadamente ele me daria vantagem competitiva ? Eu posso não
estar executando TI muito bem, mas não tenho que o fazer no meu
ramo de negócios. Falhar em uma área competitiva importante é
um problema significante.
- O meu portfólio de
desenvolvimento de aplicações é efetivo ? Estou gastando o montante
adequado, e está esse montante aplicado no desenvolvimento das
aplicações adequadas ?
- A minha empresa está
gastando eficientemente ? Talvez esteja no nível adequado, mas
estamos obtendo a produtividade dos recursos de hardware e de
suporte que poderíamos obter ?
- A atividade de TI
está suficientemente preparada contra os riscos de um grande desastre
operacional ?
- O líder de TI está
apto a exercer o seu papel na organização, para atender os desafios
especiais que ela enfrenta ?
- Os recursos de TI
estão adequadamente distribuídos na empresa ? Onde recursos de
hardware e software devem ser colocados, em quais atividades,
e se algumas dentre estas atividades devem ser desenvolvidas por
terceiros, são exemplos de tópicos de intenso interesse dos executivos.
O papel desempenhado
pela TI nos anos 90 é muito diferente do uso que a ela se dava nos
anos 70.
Uma das formas de descrever
este novo papel, pode ser visualizado na tabela abaixo.
| |
Escopo administrativo |
Foco principal |
Justificativa/propósito |
| Era I |
Monopólio Regulado |
Organizacional |
Produtividade/eficiência |
| Era II |
Mercado Livre |
Individual |
Efetividade |
| Era III |
Mercado Livre Regulado |
Processo Negócio Interorganizacional |
Estratégico/Competitividade |
- Era I - Dos anos 50
ao início dos anos 70, o gerente de processamento de dados era
a única fonte de conhecimento em tecnologia. Para usar uma figura
da indústria, a TI operava como um "monopólio regulado".
Se alguém precisava deste conhecimento deveria se dirigir ao gerente
de processamento de dados, sem alternativa. As aplicações eram
de cunho organizacional (folha de pagamento, contabilidade, pedidos,
programação da produção...). As novas aplicações eram justificadas
ou por redução de custos ou deslocamento da base de custos.
- Era II - Começou com
a introdução de microcomputadores e time-sharing no começo
dos anos 70. Rapidamente foram criados muitos canais para que
os usuários desenvolvessem seu conhecimento em tecnologia e software.
Isto introduziu um "mercado livre" (por oposição ao
anterior "monopólio regulado"). Neste ambiente da Era
II, os rígidos controles top-down desenvolvidos e implementados
na Era I já não tinham mais validade. Para muitas aplicações,
o indivíduo era o tomador de decisão e tinha recursos suficientes
para reforçar esta independência, e não tinha nenhum contato com
a função central de TI, a menos que o quisesse. A justificativa
chave para o estabelecimento de projetos passou a ser a obtenção
de efetividade individual e corporativa.
- Era III - Esta Era
é melhor caracterizada ao se olhar a coluna justificativa/propósito
na figura 1.1. Muitas empresas usaram TI para conseguir saltos
significativos em parcelas de mercado, posição competitiva e reestruturação
organizacional. As empresas optaram por criar um "mercado-livre-regulado",
onde o principal objetivo é explorar o conhecimento gerado durante
a Era II para inovar e criar abordagens alternativas para conduzir
o negócio baseado nas possibilidades abertas pela TI.
Tendências
Administráveis
Acredita-se que os temas
apresentados a seguir, são a melhor forma de compreender as forças
que estão guiando a transição entre o uso e a administração da TI
nos anos 90. Se até esta década as empresas "usavam" informática,
devem agora se preparar para "administrar" informática.
Tema 1: Impacto
Estratégico
Está cada vez mais claro
que diferentes empresas são afetadas de diferentes formas pela TI.
Em muitas indústrias,
a TI permitiu uma transformação em massa dos vários aspectos operacionais
da cadeia de valor. A Figura 1-1 demonstra como os líderes
em muitas indústrias tem usado competitivamente a TI nos diversos
setores.

Figura 1.1 -
Impactos da TI: Posição atual das indútrias lideres, extraído de
(Cash,1992)
Assim, pode-se observar
que a TI desempenha papéis muito diferentes em vários setores da
indústria. Em alguns setores tem um papel predominantemente operacional,
enquanto que em outros seu impacto tem sido maior em marketing.
Entender a posição que
uma organização ocupa nestes dois aspectos é importante para se
desenvolver uma estratégia apropriada de administração da TI. A
Figura 1-2 sumariza estes pontos identificando quatro ambientes
de TI.

Figura 1.2 -
Categorias de Relevância Estratégica e do Impacto, extraído de (Cash,1992)
Tais pontos são resumidos
a seguir:
Estratégico. Para
algumas empresas o funcionamento correto das atividades de TI é
crítico para suas operações diárias e as aplicações em desenvolvimento
são críticas para o seu futuro sucesso competitivo.
Turnaround. As
companhias não são dependentes absolutas do funcionamento ininterrupto
da TI para seus objetivos de curto/longo prazo. Porém, as aplicações
em desenvolvimento são vitais para atingir objetivos estratégicos.
Factory (fábrica).
Algumas empresas são extremamente dependentes do suporte operacional
confiável e custo-efetivo da TI, por outro lado, seus aplicativos
em desenvolvimento não são fundamentais para a empresa competir.
Suporte. Empresas
que não são operacionalmente dependentes do funcionamento da atividade
de TI nem seu port-fólio de operações são críticos para atingir
suas metas de lucro.
Portanto, buscar diagnosticara
onde a empresa ou unidade de negócio deve estar na dimensão do impacto
estratégico do port-fólio de desenvolvimento de aplicações, além
de uma cuidadosa análise do impacto da TI em cada parte da cadeia
de valor, torna-se essencial. Além disso, o uso que os competidores
fazem da TI deve ser analisado periodicamente para assegurar que
as principais oportunidades não foram perdidas.
Tema 2: Tecnologia
em Mutação
A TI é uma tecnologia
em constante evolução. Isto significa que uma aplicação não possível
em 1985 poderá ser estado-da-arte em 1990 e inimaginável e obsoleta
em 1996. Tudo isto tem contribuído para a complexidade da administração
neste campo.
Portanto, a computação,
as telecomunicações e o suporte a escritórios devem ser vistos
como um grupo integrado ao redor do qual o foco das políticas e
da administração devem ser desenvolvidos. Quando se fala em departamentos
ou políticas de TI, todas as três tecnologias devem estar incluídas.
Tema 3: Aprendizado
Organizacional
Implementar um port-fólio
de sistemas de TI construídos ao redor de tecnologias em constante
evolução, é um esforço extraordinariamente complexo. O principal
requisito para que o projeto e a adoção destas tecnologias sejam
bem sucedidas é a participação dos usuários, envolvidos desde o
início.
Uma implementação bem
sucedida da TI exige que os indivíduos aprendam novas maneiras de
executar tarefas intelectuais. Este processo de aprendizado pode
ser resumido utilizando-se como base vários modelos, como por exemplo
o dos quatro estágios de Nolan & Gibson. Esta abordagem
enfatiza a tensão contínua entre eficiência e eficácia no uso da
TI. As fases estão resumidas a seguir:
- Fase 1. Identificação
e Investimento. Esta fase envolve identificar uma tecnologia
de interesse potencial para uma companhia e então financiar um
projeto piloto.
- Fase 2. Aprendizado
e Adaptação. O objetivo nesta fase é tomar a tecnologia identificada
de interesse e encorajar o teste e o uso pelo usuário, através
de uma série de projetos pilotos.
- Fase 3. Racionalização/Controle
Administrativo. O principal desafio nesta fase é desenvolver
sistemas de suporte e controles adequados para garantir que as
tecnologias sejam utilizadas eficientemente, à medida em que elas
se difundem pela organização.
- Fase 4. Maturidade/Difusão
e Transferência de Tecnologia. Nesta fase a preocupação é
gerenciar a ansiedade das pessoas que querem logo utilizar as
novas tecnologias e aquelas que querem gastar pouca energia na
transferência de sua especialidade, o que pode reduzir o processo
de adoção da nova tecnologia.
Esta estrutura representa
uma base útil através da qual pode se desenvolver uma visão estratégica
da difusão da tecnologia dentro da empresa. As principais decisões
dizem respeito a quanto alocar para explorar as tecnologias de cada
fase. A arte do gerenciamento nos anos 90 é trazer as perspectivas
apropriadas para lidar com cada fase simultaneamente.
Tema 4: Políticas
de Sourcing para a Cadeia de Valor da TI
Um fonte de grande tensão
nos anos 80 foi a constante pressão para se decidir fazer ou comprar
software. Algumas das questões básicas deste dilema estão resumidas
a seguir:
- Fazer. Os fatores
chaves para tomar a decisão de fazer incluem: (a) de-senvolver
produtos customizados para necessidades específicas, além de permitir
rápida adaptação às mudanças; (b) confidencialidade de dados;
(c)evitar vulnerabilidade; (d) facilidade de desenvolvimento através
das novas ferramentas de programação e desenvolvimento de software;
e (d) desenvolver competência interna de forma a pressionar competidores.
- Comprar. Fatores
chaves: (a) obter rápido acesso em especialidades não disponíveis
internamente; (b) custo e racionalização na utilização de pessoal
interno; (c)compromisso de curto prazo; (d) acesso imediato a
padrões de controle e segurança; (e) proliferação de serviços
de informação que podem ser adquiridos (programadores, bureaus,
bancos de dados, etc.).
A mudança na balança
em favor das pressões para a alternativa comprar tem impactado
a prática de administração da TI na mesma medida em que o fornecimento
de serviços internos perde espaço.
Tema 5: Processo
de Desenvolvimento de Aplicativos
Tradicionalmente, as
atividades utilizadas para se desenvolver e implementar um serviço
específico de informação passa por cinco passos: Projeto (design),
Construção, Implementação, Operação e Manutenção. Projetos tradicionais
exigem um seqüenciamento rígido dos passos. Projetos grandes como
escalonamento de produção, sistemas de reserva de companhias aéreas,
etc., são complexos e envolvem projetos específicos de estruturas
de dados e procedimentos de processamento. Por outro lado, existem
projetos que envolvem a construção de sistemas de apoio a decisão
(DSS - Decision Support Systems) utilizando microcomputadores
pessoais, abordagem heurística, prototipagem e outras ferramentas.
Neste tipo de projeto, o ciclo de desenvolvimento tradicional não
é apropriado.
Tema 6: Parceria
entre Três Poderes
Muito da complexidade
em gerenciar os problemas de TI se baseia em administrar as conflitantes
pressões de três poderes diferentes: administração de TI, administração
do usuário e a administração geral da organização.
Administração da TI
O departamento de TI
é responsável por conduzir o conhecimento da existência de uma tecnologia,
e de como usá-la, visando agrupar apropriadamente usuários potenciais.
Por causa desta localização central, a TI pode ajudar a identificar
onde interconexões entre as necessidades dos diferentes grupos de
usuários existem e facilitar o desenvolvimento desta interconexão.
Administração do usuário
A transferência de algumas
tarefas operacionais detalhadas dos usuários ao departamento de
TI não aliviou os usuários da responsabilidade destas tarefas. Obviamente
esta é uma fonte de atrito
Administração Geral
A tarefa da administração
geral é garantir que a estrutura e o processo gerencial são adequados
para monitorar o equilíbrio entre o usuário e a TI para preencher
as necessidades totais da organização.
Referências
Bibliográficas
CASH JR., James et al.
Corporate information systems management : text and cases.
Irwin. USA, 1992.
jpalbino@usp.br
xana@lepus.celepar.br

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