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Desafios
Básicos do Desenho Organizacional
A
edição anterior do BateByte traz um artigo sobre a Organização
e a Teoria Organizacional, que aborda questões sobre o que
são as organizações e por que existem, a finalidade
da teoria organizacional e sua relação com o desenho
organizacional, como os gerentes podem usar a teoria e o desenho organizacional
para tornarem as empresas mais eficientes, entre outras. Dando continuidade
ao assunto, trataremos agora, com mais detalhes, do Desenho Organizacional:
os desafios de desenhar a estrutura organizacional de forma a atingir
os objetivos dos stakeholders, como controlar os recursos humanos,
financeiros e físicos, como coordenar as atividades para motivar
as pessoas e maximizar a habilidade da organização para
criar valor. Assim como o artigo anterior, o texto é totalmente
baseado no livro Organizational theory: text and cases, do autor Jones
Gareth (especificamente no segundo capítulo) e foi produzido
como forma de estudo e aprendizagem da disciplina Teoria das Organizações,
do Mestrado em Administração da PUC, ênfase em
Gestão Estratégica da Informação e do
Conhecimento.
Diferenciação
Desafio
1 - À medida em que as necessidades aparecem, as pessoas
assumem novas tarefas e não fica claro quem é responsável
por o que e a quem deveriam se reportar. Assim, fica difícil
coordenar as atividades das pessoas de forma a trabalharem como uma
equipe.
O
principal desafio do desenho organizacional é como gerenciar
a diferenciação para que os objetivos sejam atingidos.
Diferenciação é o processo através
do qual uma organização aloca as pessoas e recursos
nas atividades e estabelece as relações de autoridade
que permitem à empresa alcançar seus objetivos. Ou seja,
é o processo de estabelecer e controlar a divisão do
trabalho. Numa organização simples, a diferenciação
é baixa porque a divisão do trabalho é pequena
e uma ou poucas pessoas fazem todo o trabalho, existindo poucos problemas
de coordenação. Já numa organização
complexa, tanto a divisão do trabalho como a diferenciação,
são altas.
Papéis
Organizacionais é o conjunto de comportamentos relacionados
às tarefas, requeridos de uma pessoa pela sua posição
na organização. À medida em que cresce a divisão
do trabalho, os gerentes se especializam em alguns papéis e
contratam outras pessoas para as demais atividades. A especialização
permite que as pessoas desenvolvam suas habilidades individuais e
conhecimentos, que são a fonte das principais competências
organizacionais.
A
estrutura organizacional é baseada no sistema de relacionamentos
entre seus papéis e alguns papéis requerem pessoas para
supervisionar o comportamento de outras. Uma pessoa responsável
por supervisionar o desempenho de outra possui autoridade sobre essa
outra pessoa. Autoridade é o poder para ter responsabilidade
sobre as ações de outras pessoas e para tomar decisões
relacionadas ao uso de recursos da organização. Quando
um indivíduo entende claramente as responsabilidades de seu
papel como supervisor, o resultado é o controle, ou a habilidade
para coordenar e motivar as pessoas a trabalharem para o interesse
da organização.
Na
maioria das organizações, as pessoas que possuem papéis
similares são agrupadas em subunidades, sendo funções
e divisões as subunidades principais. Uma função
é composta por um grupo de pessoas trabalhando juntas, com
habilidades parecidas ou que usam o mesmo tipo de conhecimento, ferramentas
ou técnicas na realização do trabalho. Uma divisão
consiste num conjunto de funções ou departamentos que
dividem responsabilidades na produção de algum bem ou
serviço.
A
quantidade de funções e divisões diferentes é
uma medida da complexidade da organização. A diferenciação
em funções e divisões aumenta o controle sobre
as atividades e permite que a empresa as desempenhe de forma mais
eficiente.
À
medida em que as organizações crescem, elas se diferenciam
em cinco tipos diferentes de funções. As funções
de suporte facilitam o controle da empresa sobre sua relação
com o ambiente e com os stakeholders. As funções de
produção gerenciam a eficiência dos processos
de conversão de forma a criar mais valor. As funções
de manutenção permitem à organização
manter seus departamentos em operação. As funções
adaptativas permitem à organização se ajustar
às mudanças de ambiente. As funções gerenciais
facilitam o controle e a coordenação das atividades
nos departamentos. Gerentes de diferentes níveis dirigem a
aquisição e controle de recursos para aumentar a habilidade
da empresa em criar valor.
Diferenciação
Vertical e Horizontal
O
diagrama organizacional diferencia verticalmente seus papéis
em termos de autoridade. Hierarquia é a classificação
das pessoas de acordo com autoridade. Papéis no topo da hierarquia
organizacional possuem mais autoridade e responsabilidade que os papéis
inferiores.
Diferenciação
vertical é a maneira que a organização desenha
sua hierarquia de autoridade e cria relacionamentos entre papéis
e subunidades. Essa distribuição de autoridade dá
à organização maior controle sobre suas atividades
e aumenta sua habilidade para criar valor.
O
diagrama organizacional diferencia horizontalmente seus papéis
de acordo com as principais tarefas e responsabilidades. Diferenciação
horizontal é como as tarefas são agrupadas em papéis
e os papéis em subunidades, e estabelece a divisão do
trabalho permitindo maior especialização e produtividade
das pessoas.
Além
da escolha do nível de diferenciação vertical
e horizontal, existem outros desafios do desenho organizacional na
criação da estrutura que irá maximizar a eficiência
da organização: a coordenação das atividades
da organização; determinar quem toma as decisões;
decidir com que rigor a organização vai controlar as
atividades dos empregados; e a influência nos relacionamentos
informais desenvolvidos entre os empregados.
Balanceando
Diferenciação e Integração
Desafio
2 - A especificação de tarefas e papéis deveria
ajudar na coordenação do processo de trabalho, mas pode
também construir barreiras entre as pessoas e funções.
A
diferenciação horizontal deve permitir maior especialização
e produtividade, mas também pode limitar a comunicação
entre as subunidades e impedir que uns aprendam com os outros. Às
vezes, essa diferenciação faz com que pessoas de diferentes
funções ou divisões desenvolvam uma orientação
a subunidade, ou seja, a tendência para ver apenas seu próprio
papel sob a perspectiva restrita de tempo, objetivos, e orientações
interpessoais. Como resultado, a comunicação e a coordenação
ficam quase impossíveis. Para evitar problemas de comunicação,
as organizações tentam encontrar novas formas de integrar
as funções para promover cooperação, coordenação
e comunicação entre as subunidades.
Integração
e Mecanismos de Integração
A
comunicação e coordenação entre as subunidades
são um grande desafio para os gerentes, que muitas vezes falham
no uso de mecanismos apropriados para integrar as subunidades. Integração
é o processo de coordenar várias tarefas, funções
e divisões de forma a trabalharem em conjunto. Existem alguns
mecanismos de integração que podem ser utilizados, sendo
a hierarquia de autoridade o mais simples, e a criação
de um departamento específico para coordenar as atividades
das divisões, o mais complexo.
Outros
mecanismos de integração podem ser, o contato direto
dos gerentes para coordenar as atividades; o papel de coordenação
para um gerente específico ser responsável, junto com
outros gerentes, pela coordenação de sua subunidade;
a força tarefa, quando pessoas de várias funções
se reúnem para resolver um problema; o time, quando a força
tarefa se torna permanente na coordenação de atividades;
e papel de integração, quando um novo papel é
criado especificamente para coordenar as atividades de várias
funções ou divisões, melhorando a comunicação
entre elas.
Os
gerentes devem estabelecer um nível de integração
que venha ao encontro do nível de diferenciação
da organização, de forma a atingir um balanço
entre diferenciação e integração. Aqueles
que enfrentam esse desafio - decidir como e quanto diferenciar e integrar
- devem guiar cuidadosamente os processos de diferenciação
para desenvolver as competências que dêem vantagem competitiva
à organização; e integrar a organização
através da escolha apropriada de mecanismos que permitam as
subunidades a cooperarem na construção das principais
competências.
Balanceando
Centralização e Descentralização
Desafio
3 - Se as pessoas não assumem responsabilidades nem riscos
e estão sempre esperando por orientações de seus
superiores, a tomada de decisão torna-se lenta e muitas oportunidades
de criação de valor são perdidas.
O
estabelecimento de uma hierarquia de responsabilidade deve melhorar
a forma de funcionamento da empresa, mas em função disso,
muitas pessoas esperam sempre por orientações de seus
superiores. Quando alguma situação diferente ocorre,
elas preferem passar adiante que assumir a responsabilidade de lidar
com ela, o que diminui o desempenho da organização por
não aproveitar novas oportunidades de uso de suas competências.
Autoridade
dá a uma pessoa o poder de controle e responsabilidade sobre
outras e o direito de decidir sobre o uso dos recursos da empresa.
Uma organização pode ser desenhada de forma a dar todo
o poder de decisão aos gerentes do topo da hierarquia, ficando
os subordinados sem nenhuma autoridade para iniciar novas ações,
apenas obedecendo a seus superiores. Nesse caso, quando a autoridade
fica concentrada nos gerentes do alto escalão, ela é
chamada de centralizada. Ao contrário, quando a autoridade
é delegada aos gerentes de todos os níveis da hierarquia,
ela é descentralizada. Cada alternativa tem vantagens e desvantagens.
A
vantagem da centralização é que os administradores
principais coordenam todas as atividades da organização
mantendo o foco em seus objetivos, mas pode se tornar um problema
se acumularem uma carga tão grande de decisões diárias
a ponto de não terem tempo para as decisões estratégicas
sobre o futuro da organização.
A
vantagem da descentralização é promover flexibilidade
ao permitir que os gerentes intermediários tomem suas decisões.
Eles ficam responsáveis por suas ações e têm
oportunidades para assumir riscos. Ao tomar decisões importantes
que demonstrem suas habilidades e competências podem se motivar
a um bom desempenho. O cuidado que se deve tomar é que, se
muita autoridade for delegada, o planejamento e a coordenação
ficam dificultados podendo a empresa perder o controle do processo
de tomada de decisão.
O
grande desafio para os gerentes é o balanceamento correto entre
centralização e descentralização do processo
de tomada de decisão. A situação ideal é
aquela em que os gerentes intermediários possam tomar decisões
importantes e os administradores principais fiquem responsáveis
por decisões estratégicas de longo prazo.
Balanceando
padronização e ajuste mútuo
Desafio
4 - Se as pessoas dão muita importância às regras,
quando um cliente quer alguma coisa fora do normal ou precisa de um
serviço mais rápido, é impossível satisfazê-lo,
pois ninguém pode quebrá-las.
Padronização
é a conformidade a modelos específicos, considerados
apropriados para uma situação. Ajuste mútuo
é o processo através do qual as pessoas usam seu julgamento
para solucionar problemas e orientar tomada de decisão.
Regras
escritas, procedimentos operacionais padrão e valores ajudam
a controlar o comportamento nas empresas, mas os empregados tendem
a seguir as orientações muito rigidamente, ao invés
de tentarem se adaptar em situações particulares. Regras
muito detalhadas não deixam espaço para criatividade
e inibem inovação. Como resultado, a tomada de decisão
perde flexibilidade, prejudicando o desempenho da organização.
O desafio das organizações é desenhar uma estrutura
que consiga balancear padronização e ajuste mútuo.
Formalização
é o uso de regras escritas e procedimentos para padronizar
a operação. Em empresas com alto grau de formalização
e padronização, a autoridade é centralizada,
tudo é feito conforme o que está escrito e os empregados
não têm autoridade para quebrar as regras. Quando o nível
de formalização é baixo, a coordenação
é o resultado do ajuste mútuo entre as pessoas e a tomada
de decisão é um processo dinâmico. Nessa situação,
a autoridade é descentralizada porque os empregados podem tomar
decisões.
Regras
são afirmações formais e escritas que especificam
como atingir os objetivos. As pessoas que seguem as regras se comportam
de acordo com certos princípios. Normas são padrões
ou estilos de comportamentos considerados aceitáveis a um grupo
de pessoas. Muitas normas se estabelecem informalmente ao longo do
tempo tornando-se parte do jeito das pessoas responderem a situações
particulares.
As
normas podem ou não promover efetividade. Alguns estudos mostram
que algumas normas que afetam o comportamento podem reduzir o desempenho.
Quando regras formais são modificadas as pessoas não
conseguem acompanhar a mudança porque as novas regras precisam
de um tempo para ser internalizadas. É difícil para
as pessoas alterarem seu comportamento, rompendo uma regra conhecida
para seguir uma nova.
Socialização
é o processo pelo qual os membros de uma organização
aprendem suas normas e internalizam as regras não escritas
de conduta.
O
desafio dos gerentes é encontrar uma forma de usar as normas
e regras, mas ao mesmo tempo permitir o ajuste mútuo, dando
aos empregados a oportunidade de descobrir novas maneiras de alcançar
os objetivos da empresa. O balanço apropriado entre essas duas
variáveis incentiva a criatividade e a responsabilidade dos
empregados e por conseqüência a efetividade da organização.
Estruturas
Organizacionais Mecânicas e Orgânicas
Cada
desafio de desenho tem implicações para a organização
e seus empregados. A maneira como os gerentes respondem aos desafios
influencia em como a organização estrutura seu trabalho.
As
estruturas mecânicas são desenhadas para induzir as pessoas
a terem um comportamento previsível. A autoridade para tomada
de decisão é centralizada, os subordinados são
bem supervisionados e a informação flui verticalmente
de cima para baixo. As tarefas associadas a um papel são claramente
definidas e normalmente a relação de pessoa e tarefa
é de um para um. A especialização é alta
e as pessoas sabem exatamente qual é a sua responsabilidade.
No
nível funcional, cada função é individual
e a comunicação entre funções é
de responsabilidade de alguém do topo da hierarquia. O principal
mecanismo de integração é a hierarquia de autoridade.
As tarefas e papéis são coordenados através de
padronização e regras formais estabelecem as responsabilidades.
As
estruturas orgânicas são o desenho organizacional oposto.
Promove flexibilidade permitindo às pessoas se adaptarem rapidamente
a situações de mudança; são descentralizadas,
pois a autoridade para tomada de decisão é distribuída;
a definição de papéis permite às pessoas
o desempenho de várias tarefas e o desenvolvimento de novas
habilidades; empregados de diferentes funções podem
trabalhar juntos num mesmo problema. Como resultado, as empresas com
essa estrutura necessitam de um alto nível de integração
para permitir troca de informações entre os empregados.
A coordenação é conseguida através de
ajuste mútuo e as normas e regras surgem da interação
entre seus empregados. As normas informais e valores são desenvolvidos
enfatizando competências pessoais e habilidade para assumir
novas atitudes.
As
estruturas mecânicas e orgânicas têm implicações
bem distintas no comportamento das pessoas, mas é difícil
dizer se uma é melhor que outra sem uma análise dos
objetivos da organização. A estrutura orgânica,
por se adaptar mais facilmente às mudanças, é
mais atual, pois incentiva o comportamento criativo e inovador, favorece
o trabalho em grupo e distribui a autoridade para tomada de decisão.
A
escolha entre desenhar uma estrutura mecânica ou orgânica
deve considerar o ambiente da organização, a tecnologia
utilizada, a natureza de suas tarefas e as pessoas que são
empregadas. A abordagem da contingência para o desenho organizacional
diz que a estrutura deve considerar as contingências e fontes
de incertezas, adaptando a organização ao ambiente;
ambas as estruturas podem ser necessárias.
Não
existe a melhor maneira, na prática as empresas são uma
mistura dos dois tipos de estrutura e as mais bem sucedidas conseguem
balancear entre as duas, tendo características de ambas. As empresas
podem tender mais para um tipo, mas devem ser capazes de ter comportamentos
característicos das duas estruturas.
sara@celepar.gov.br

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