Gestão do conhecimento empresarial
Autora: Luciane
Neves Beppler
Alguns
Pontos a Considerar
Resumo
Mesmo não sendo uma novidade, a gestão do conhecimento tem
merecido crescente atenção, especialmente em seu aspecto
de relacionamento com a estratégia organizacional. Visto como competência
essencial e vantagem sustentável da organização,
o conhecimento empresarial e sua gestão têm alterado os paradigmas
gerenciais e demandado uma postura gerencial mais preocupada com este
ativo intangível.
Este artigo considerará os principais aspectos da gestão
do conhecimento empresarial e descreverá alguns pontos levantados
durante um debate sobre este modelo de gestão, visando traçar
uma visão crítica que auxilie aos gestores.
Palavras-chave: Modelos de gestão, gestão do conhecimento,
conhecimento empresarial
Introdução
A gestão do conhecimento não é, como conceito, uma
idéia nova nas organizações. Para sobreviver qualquer
organização precisa saber qual conhecimento tem disponível
e quem são as pessoas de referência para cada uma das áreas
de conhecimento em que atua. (HANSEN, NOHRIA e TIERNEY, 1999).
Segundo DAVENPORT e PRUSAK (1998) e PRAHALAD e HAMEL (1998), o que uma
empresa coletivamente sabe, a eficiência com que ela usa este conhecimento
e a prontidão com que ela adquire e usa novos conhecimentos, caracterizam
a única vantagem sustentável que a empresa possui.
Mesmo fazendo parte do que, tacitamente1 a empresa sabe ser
necessário, só recentemente a Gestão do Conhecimento
ganhou o status de disciplina e passou a ser estudada mais detidamente,
e não como apenas um dos componentes do estudo da estratégia
organizacional. Ou seja, o destaque dado à Gestão do Conhecimento
tem se intensificado.
Obs: 1 Conhecimento tácito foi definido
por POLANYI (1966) a partir da frase we can know more than we can tell.
Com isto ele quer dizer que muito do que sabemos não pode ser verbalizado
ou escrito.
Tendo sido alvo de um debate conduzido durante uma das aulas da disciplina
de Modelos de Gestão, a Gestão do Conhecimento Empresarial
será abordada no presente artigo, com destaque para as questões
gerenciais e às críticas ao modelo que foram formadas durante
o debate. Para tal, pretende-se relatar um breve resumo dos principais
conceitos da Gestão do Conhecimento conforme abordado pelos relatores,
e na seqüência descrever as críticas trazidas pelos
debatedores. Com esta abordagem pretende-se reforçar o entendimento
sobre o assunto, com ênfase na postura do gestor frente ao modelo
apresentado, traçando uma visão crítica que auxilie
aos gestores e desenvolvendo um quadro teórico que possa ser útil
em pesquisas futuras.
Gestão
do Conhecimento Empresarial
O processo histórico tem levado ao surgimento de uma classe de
trabalhadores conceituadas por Drucker como sendo os trabalhadores do
conhecimento (DRUCKER, 1994). Segundo Drucker, estes trabalhadores se
diferenciam pelas seguintes características:
-
Educação formal - É requerida educação
formal deste trabalhador, como um fator da complexidade das tarefas que
irá desempenhar;
-
Aplicação de conhecimento teórico e analítico
- Além do conhecimento teórico, demanda-se deste trabalhador
a capacidade de análise e decisão;
-
Aprendizado contínuo - O trabalhador do conhecimento precisa acompanhar
a velocidade das mudanças e da produção de conhecimento
da sociedade atual, estando em processo de contínuo aprendizado;
-
Especialista - O trabalhador do conhecimento é perito no domínio
em que atua;
-
Trabalho em equipe - A capacidade de trabalhar em equipe é necessária
à transferência e aproveitamento do conhecimento do grupo.
A idéia sistêmica, em que o todo é maior do que a
soma das partes está presente neste modelo (Mintzberg, 2001);
Para entender o que vem a ser a gestão do conhecimento empresarial,
serão apresentados os diversos conceitos envolvidos. Inicialmente
serão apresentados os conceitos relacionados com o conhecimento,
conforme pesquisa bibliográfica realizada.
Dado
é definido como sendo o "conjunto de fatos distintos e objetivos,
relativos a eventos" (DAVENPORT e PRUSAK: 1998). Segundo Drucker,
informação "é o dado revestido de relevância
e propósito" (Peter Drucker: 1999). O Conhecimento, segundo
DRUCKER (1999) é o requisito necessário para a transformação
de dados em informação.
NONAKA e TAKEUSHI (1997) defendem que o conhecimento refere-se a crenças
e informações, podendo ser explícito, o transmitido
facilmente de forma formal, ou tácito, o conhecimento dinâmico
e armazenado nas cabeças das pessoas que é difícil
de ser articulado.
Os autores apresentam a espiral do conhecimento, que representa as formas
de compartilhamento de conhecimento de acordo com o tipo a que ele pertence.
fonte:
Nonaka e Takeushi (1997)
Segundo pesquisadores sociais (Bell, 1973; Toffler, 1990; Drucker, 1993;
Quinn, 1992; dentre outros) o conhecimento desempenhará um papel
cada vez mais relevante nos próximos anos nas organizações
e na sociedade em geral.
A Gestão do Conhecimento é definida como sendo o "processo
coorporativo focado na estratégia empresarial e que envolve a gestão
de competências, do capital intelectual, a aprendizagem organizacional,
a inteligência empresarial e a educação corporativa".
(SANTOS, PACHECO, PEREIRA e BASTOS Jr: 2001).
SVEIBY (1999) posiciona a gestão do conhecimento de duas formas.
A primeira trata conhecimento como objetos que podem ser identificados
e tratados através de sistemas de informação. A segunda
vertente identifica gestão do conhecimento com gestão de
pessoas, sendo o conhecimento entendido como processo que levam ao aprendizado
organizacional e criação de competências.
Para
DAVENPORT e PRUSAK (1998) a gestão do conhecimento empresarial
envolve a geração, a codificação e coordenação
e a transferência do conhecimento que está disponível
tanto de forma explícita, quanto de forma tácita na organização.
Para MORAN (1994), a gestão do conhecimento empresarial é
um conjunto de processos que governa a criação, a disseminação
e a utilização de conhecimento no âmbito das organizações.
As empresas investem hoje na criação de um ambiente onde
o empregado é tratado como cliente preferencial, de modo a estimular
um sentimento de cumplicidade. Neste sentido algumas práticas são
identificadas, modificando posturas gerenciais e objetivos empresariais:
-
Alta direção voltada para trabalho orientado ao cliente
e valorização dos empregados;
-
Gerência comprometida com esta visão e com capacidade de
liderança, transmitindo responsabilidade, vontade de participação
e capacidade de iniciativa;
-
Conhecimento disseminado por todos os setores da empresa a fim de integrá-los
e estimular o potencial do indivíduo;
-
Empregados conhecem suas tarefas, sentem-se motivados e envolvidos em
um trabalho de equipe que dá margem à iniciativa pessoal;
-
Treinamentos realizados constantemente, tanto em relação
a aspectos teóricos quanto ao reforço dos valores e atitudes;
-
Empregados conhecem os objetivos da empresa e conhecem suas responsabilidades
dentro desta linha de atuação;
-
Processos de avaliação transparentes;
-
Permanente processo de informação e comunicação;
-
Processo de comunicação em modelo mão dupla, empregados
passam a revelar necessidades e expectativas;
-
Atendimento a estas necessidades e expectativas dentro dos objetivos claros
da empresa, gera confiança mútua e eficiência.
Questionamentos
ao Modelo
Teorias da empresa são conceitualizações e modelos
de negócios que explicam e buscam prever sua estrutura e comportamento.
Cada teoria é uma abstração do mundo real que busca
determinar um conjunto particular de características e comportamentos
possíveis para a empresa (GRANT, 1996).
As críticas e comentários que se seguem não são
dirigidas, portanto, ao modelo de gestão baseada em conhecimento,
mas a disfunções gerenciais que podem ocorrer em decorrência
do modelo. Também são comentados assuntos correlacionados
com a Gestão do Conhecimento que não haviam sido explorados
pelos relatores, como por exemplo, o perigo de se enxergar o conhecimento
como um fim, a pragmática da gestão do conhecimento e a
questão de como reter o conhecimento. As críticas e os comentários
foram separados de acordo com o item a que se referem para facilitar o
entendimento.
-
O Especialista: Tanto DRUCKER(1994) quanto PORTER (1986) criticam
a idéia de generalização. Porter alerta para o perigo
de acabar ficando sem estratégia ao tentar englobar mais de uma
estratégia genérica. Drucker mostra a necessidade de especialização
por parte do trabalhador do conhecimento para desempenhar satisfatoriamente
suas tarefas. No entanto, parece-nos que, ao tornar-se especialista em
um único assunto, a pessoa torna-se dependente daquele conhecimento,
o que pode ser estrategicamente ruim. Por exemplo, na área de software
um especialista em uma linguagem, pode tornar-se obsoleto em menos de
2 anos. Portanto, é necessário ter critério ao escolher
qual será a especialidade. Deve-se buscar a competência essencial,
aquela que diferencia a qualidade do trabalho desenvolvido por alguém
de forma inimitável. No exemplo do programador, ele não
deve ser especialista na linguagem X, mas sim em lógica de programação.
Ou seja, seja especialista em competências e não em técnicas;
-
Responsabilidade sobre o conhecimento: de todos ou de alguns? Enquanto
DAVENPORT e PRUSAK (1998) defendem a criação de um setor
e de novos cargos relacionados à gestão do conhecimento,
NONAKA e TAKEUSHI (1997) apontam para o estilo oriental de gestão
do conhecimento. Para estes autores, a gestão do conhecimento deve
estar presente na cultura da organização, sendo responsabilidade
de todos e deve ser estimulada através de processos que gerem redundância
como rodízio de pessoal e fóruns. Preocupados com os custos
destes procedimentos e também com perfis que não se adaptem
ao do compartilhador do conhecimento, DAVENPORT e PRUSAK optam pela solução
de criação de uma estrutura paralela;
-
Racionalidade e intuição: O enfoque da tomada de
decisão, iniciado por Herbert SIMON (1968) afirma que as organizações
nunca podem ser perfeitamente racionais, porque os seus membros têm
habilidades limitadas de processamento de informações. Segundo
Simon as pessoas só conseguem chegar a formas limitadas de racionalidade
porque têm de agir com base em informações incompletas,
explorando um número limitado de alternativas e são incapazes
de dar valores acurados aos resultados. Ou seja, indivíduos e organizações
resolvem por uma "racionalidade limitada" e por decisões
"satisfatórias", baseadas em simples regras empíricas,
bem como em pesquisas e informações limitadas. Também
as preferências pessoais e experiências anteriores dos envolvidos
no processo de tomada de decisão influem no resultado. (JONES,
2001). O planejamento parece, portanto, assumir o papel de mapa, conforme
descrito por Mintzberg, servindo mais como um suporte para iniciar a ação,
do que como um objetivo que deve ser buscado, como no exemplo dos soldados
que perdidos nos Alpes, conseguiram voltar ao acampamento baseados em
um mapa dos Pirineus. O mapa foi o catalisador da ação,
proporcionando a noção de segurança e rotina, tão
necessárias aos seres humanos. Ou seja, se planejar não
garante a previsão e resolução de todos os problemas,
pelo menos ajuda a se iniciar a ação (MINTZBERG, 2000).
Esta visão parece vir ao encontro com a idéia de conhecimento
tácito, ou seja, nem todas as decisões se baseiam em informação
e análise, algumas são fruto da intuição e
do conhecimento armazenado dos decisores;
-
Conhecimento como fim: É importante ressaltar que, apesar
de necessitar de conhecimento para sobreviver, a finalidade da empresa
não é acumular conhecimento, mas sim, gerar lucro através
da otimização da eficácia e da eficiência na
produção. A gestão do conhecimento representa a atenção
deslocada ao foco interno da organização, a gerência
de seus recursos internos. Deve-se estar atento para que não se
perca de vista o foco externo, concorrentes, inovações tecnológicas,
políticas de restrição, entre outros. O conhecimento
deve ser um meio para alcance dos objetivos organizacionais, e não
o contrário;
-
Pragmática da Gestão do Conhecimento: Este é
um dos capítulos do livro de DAVENPORT e PRUSAK, no qual os autores
abordam questões de ordem prática com respeito à
implantação da Gestão do Conhecimento. O principal
requisito para o sucesso da implantação, segundo os autores,
é a aplicação do bom senso. Definição
de responsabilidades, comprometimento da gerência, projetos piloto
e feiras de conhecimento são outros requisitos/mecanismos citados
pelos autores;
-
Arquitetura do conhecimento: PRAHALAD e HAMEL (1998) propõem
a criação de uma arquitetura estratégica, na qual
as competências essenciais e seus possuidores sejam identificados
e suas habilidades aplicadas em projetos do interesse da empresa, sem
que as fronteiras de departamentos e setores sejam barreiras ao compartilhamento
de recursos. Para tal, eles sugerem mecanismos que favoreçam o
compartilhamento de recursos e recompensem as iniciativas neste sentido;
-
Como reter o conhecimento? Através da discussão,
e tendo como base o modelo japonês de gestão, a estrutura
organizacional foi apontada como uma possível forma de se reter
conhecimento, uma vez que motivação, política de
recompensa e outros mecanismos não parecem ser eficientes. Uma
estrutura matricial e multidisciplinar incentivaria o compartilhamento
e a disseminação do conhecimento organizacional. Um problema
com esta estrutura é o custo, e portanto sua aplicação
deve levar em conta as verdadeiras necessidades da organização
e sua necessidade por inovação e compartilhamento de conhecimento.
A
Postura do Gestor frente ao Modelo de Gestão do Conhecimento
Neste modelo, o gestor passa a atuar mais como um facilitador, disponibilizando
recursos e resolvendo situações que extrapolarem a autoridade
dos seus subordinados. Demanda-se do gestor uma postura "parentética",
na qual opiniões sejam
suspensas para que seja possível ouvir e entender imparcialmente
outras opiniões.(GUERREIRO RAMOS, 1984)
O gestor tem de considerar a organização como um todo, compartilhando
recursos de todos os tipos e buscando o bem geral e não o do seu
setor ou departamento exclusivamente. Portanto, se um recurso humano congrega
os atributos necessários para um determinado projeto ou tarefa
em outro setor, ele deve ser aproveitado, para o bem da organização.
Identificar competências essenciais da organização
e quem são as pessoas-chave para este processo também passa
a ser atribuição do gestor. Conhecer seus recursos que são,
além de geradores de produtos e serviços, os responsáveis
pela agregação de valor é vital para a política
de recursos humanos da empresa, através do gestor.
Mesmo com toda a ênfase que vem sendo dada à Gestão
do Conhecimento, o gestor não deve perder de vista que o objetivo
principal da empresa é ser eficaz e eficiente, e que a gestão
do conhecimento deve ser um meio para obter os objetivos estratégicos
da organização e não um fim em si mesma.
A resistência ao processo de transferência de conhecimento
pode acontecer, já que envolve perda de poder. O gestor deve levar
isso em conta ao tentar aplicar um modelo ou políticas derivadas
dela. Os fatores cultura, poder e identidade costumam interferir em qualquer
processo de mudança (BLAU, 1977) (BERGER e LUCKMAN, 1989). A estrutura
organizacional pode ser aplicada como ferramenta de retenção
e compartilhamento do conhecimento disponível explicitamente na
empresa e tacitamente na mente dos seus colaboradores.
Conclusão
Mesmo
não sendo novidade, a atenção prestada à Gestão
do Conhecimento Empresarial se justifica, dada a relevância desta
iniciativa. Conforme apontado por DRUCKER (1994), DAVENPORT (1998) e NONAKA(2001),
o conhecimento deverá desempenhar um papel cada vez mais relevante
nos próximos anos nas organizações e na sociedade
em geral. Sua gestão, portanto, deverá interessar cada vez
mais a gerentes preocupados em aplicar o conhecimento disponível
na empresa, quer tácito, quer explícito, na obtenção
dos resultados estratégicos da organização.
Cada organização tem um conjunto de atributos que a tornam
única (ANDREWS, 1991) e portanto, não existe uma receita
pronta para a aplicação da gestão do conhecimento.
O importante é verificar se e quanto este modelo está aderente
aos objetivos estratégicos da organização e como
a cultura, valores, mercado, estágio do ciclo de vida e estrutura
organizacional, entre outros fatores, justificam a implantação
de um modelo de gestão como este.
Os fatores cultura, poder e identidade costumam interferir em qualquer
processo de troca de conhecimento. A estrutura organizacional pode ser
aplicada como ferramenta de retenção e compartilhamento
do conhecimento disponível explicitamente na empresa e tacitamente
na mente dos seus colaboradores.
O gestor passa a desempenhar um papel de apoio, facilitando as situações
e centralizando o conhecimento sobre quem são as pessoas de referência
em cada uma das áreas de atuação chave da empresa.
Cabe ao gestor ainda identificar as competências essenciais da organização
e das pessoas com quem convive, divulgando e compartilhando recursos sempre
que isso se fizer necessário. O foco deve ser desviado de setores
ou pedaços da organização para o todo.
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luciane@celepar.gov.br

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