| Cultura e Ética Organizacional
Autora: Sara Fichman Raskin
O tema “As Organizações e A Teoria Organizacional”
foi tratado em algumas edições anteriores do BateByte em
2002. Os primeiros artigos divulgados abordaram as questões básicas
sobre o que são as organizações e por que elas existem,
a finalidade da teoria organizacional e sua relação com
o desenho organizacional, como os gerentes podem usar a teoria e o desenho
organizacional para tornarem as empresas mais eficientes. Na seqüência,
foram tratados com mais detalhes os aspectos do desenho da estrutura organizacional
com relação as dimensões vertical e horizontal da
estrutura: Hierarquia de Autoridade, e Especialização e
Coordenação, respectivamente. Os desafios de desenhar a
estrutura organizacional de forma a atingir os objetivos dos
stakeholders, como controlar os recursos humanos, financeiros e
físicos, como coordenar as atividades para motivar as pessoas e
maximizar a habilidade da organização para criar valor foram
questões discutidas.
Retomando, este artigo discute a cultura organizacional, seu conceito,
seus valores e normas, como as pessoas aprendem a cultura e os fatores
que influem nas diferenças culturais entre as organizações.
Assim como a estrutura, a cultura organizacional também pode ser
desenhada e gerenciada.
Ressalta-se que esses textos são baseados no livro Organizational
theory: text and cases, do autor Jones Gareth e foram produzidos como
forma de estudo e aprendizagem da disciplina Teoria das Organizações,
do Mestrado em Administração da PUC.
A Cultura Organizacional é um conjunto de valores
e normas que controlam as interações dos membros da organização
entre si e com as pessoas externas, como fornecedores e clientes. Pode
ser usada para alcançar vantagem competitiva e para promover os
interesses dos stakeholders , uma vez que
controla como as pessoas se comportam, tomam decisões e gerenciam
o ambiente organizacional.
Valores são critérios gerais, padrões
ou princípios que as pessoas utilizam para determinar quais comportamentos,
eventos e situações são desejáveis ou indesejáveis.
Valor terminal é uma situação final
que as pessoas desejam alcançar e pode estar refletido na missão
e objetivos oficiais da empresa. Excelência, confiabilidade, lucratividade,
inovação, economia, qualidade e moralidade são exemplos
que devem ser adotados como princípios de orientação.
Valor instrumental é um modo de comportamento
desejável, por exemplo, trabalhar pesado, respeitar tradições
e autoridade, ser conservador e cuidadoso, ser criativo, corajoso e honesto,
aceitar riscos e manter os padrões altos. A cultura organizacional
consiste em uma combinação de seus valores terminais e instrumentais,
podendo tender para ser mais conservadora ou empreendedora.
Muitos valores importantes não estão escritos, existindo
apenas na forma de pensar, agir e no jeito de enfrentar os problemas que
as pessoas aprendem umas com as outras e que são consistentes com
os valores aceitáveis pela empresa.
Valores e normas influenciam fortemente o comportamento das pessoas.
A cultura organizacional, baseada nos valores incorporados em suas normas,
regras, procedimentos operacionais e objetivos orientam as pessoas em
suas ações, decisões e comportamentos e são
também facilitadores para o ajuste mútuo, pois fornecem
um ponto de referência comum auxiliando a interação
entre os membros da organização.
A Cultura Organizacional é transmitida à medida que as
pessoas aprendem os valores com as práticas formais de socialização
e com as estórias, cerimônias e linguagem organizacional
que se desenvolvem informalmente com o amadurecimento de sua cultura.

Socialização e Táticas de Socialização
Os novos empregados, para serem aceitos, devem aprender os valores e
normas que orientam o comportamento de seus membros e agir de acordo com
essas normas. Eles podem obter informações sobre esses valores
indiretamente, através da observação do comportamento
dos membros atuais inferindo o que é apropriado ou não.
Para a organização, a socialização
(processo de aprendizagem e internalização de normas da
cultura organizacional) é a forma mais efetiva de aprendizagem.
Orientação por papel é a maneira
que os novatos respondem a uma situação ou buscam soluções.
Existem algumas táticas de socialização que influenciam
a orientação por papel, que poderá ser institucionalizada
ou individualizada. A orientação institucionalizada é
quando os indivíduos aprendem a responder a um novo contexto da
mesma forma que os membros atuais o fazem; ela incentiva a obediência
e a conformidade com regras e padrões. A orientação
individualizada é quando os indivíduos são incentivados
a serem criativos e a experimentarem mudanças nas normas e valores.
Algumas táticas usadas para socialização de novatos,
contrastando a orientação institucionalizada com a individualizada,
são: coletiva ou individual; formal ou informal; seqüencial
ou randômica; fixa ou variável; serial ou disjuntiva. A escolha
entre uma socialização mais institucionalizada ou mais individualizada
depende da missão da organização. Uma empresa que
queira padronizar a maneira que seus empregados desempenham suas atividades
precisa de um programa de socialização forte que reforce
seus valores culturais. Já uma organização cuja missão
é produzir produtos inovadores deve incentivar as experiências
informais e randômicas nas quais seus membros vão obtendo
as informações necessárias realizando seu trabalho.
Assim, as práticas de socialização não só
influem no aprendizado dos valores culturais como também suportam
a missão organizacional.
Histórias, Ritos e Linguagem Organizacional
Os valores culturais estão sempre evidenciados em histórias
e na linguagem da organização e podem ser comunicados através
de diversos tipos de ritos: rito de passagem, usado quando um indivíduo
entrada ou sai da empresa; ritos de integração, usados para
construir vínculos comuns entre os membros da empresa; ritos de
intensificação, para motivar o comprometimento com as normas
e valores.
A linguagem e as histórias são importantes meios para
a comunicação da cultura, fornecendo pistas sobre valores
e normas. O estudo das histórias e linguagem pode revelar os valores
que orientam o comportamento. O conceito de linguagem organizacional engloba
também a maneira das pessoas se vestirem, os escritórios
que ocupam, como elas se tratam formalmente. Os símbolos organizacionais
transmitem os valores culturais para seus membros e também para
pessoas externas à empresa.
A Cultura Organizacional se desenvolve pela interação
de quatro fatores que produzem diferentes culturas em organizações
diferentes: as características pessoais e profissionais das pessoas;
a ética organizacional; os direitos que a organização
dá a seus empregados; e a estrutura da organização.
Características das Pessoas Internas a Organização
As pessoas são a principal fonte da cultura organizacional. Para
saber por que as culturas diferem, basta olhar para os seus membros. As
empresas selecionam as pessoas que compartilham os seus valores, por isso
as pessoas internas se tornam cada vez mais parecidas. Os fundadores de
uma organização têm uma influência importante
na cultura inicial por causa de seus valores e crenças pessoais,
que ao longo do tempo serão perpetuados pelas pessoas contratadas.

Muitos valores culturais derivam da personalidade e das crenças
dos fundadores e dos gerentes de alto escalão e estão fora
de controle da organização. Entretanto, as organizações
podem conscientemente desenvolver valores éticos para controlar
o comportamento de seus membros. Ética organizacional são
os valores morais, crenças e regras que estabelecem um jeito para
os stakeholders lidarem uns com os outros
e com o ambiente da empresa. A alta gerência, para escolher constantemente
as coisas certas a serem feitas, se baseia nos valores éticos da
cultura organizacional. Os valores éticos, assim como as regras
e normas incorporadas, são parte inseparável da cultura
organizacional, porque eles ajudam a formatar os valores que as pessoas
usam para gerenciar situações e tomar decisões.
Ética organizacional envolve negociação, compromisso
e barganha entre os stakeholders . Regras
éticas envolvem conflitos e competições nas quais
a habilidade de um grupo de stakeholder para impor sua solução
decide a regra ética a ser seguida. A ética organizacional
é o produto das éticas individual, profissional e social.
A ética social é a ética da sociedade na qual a organização
está inserida, são valores morais formalizados pelo sistema
legal da sociedade, seus costumes e práticas e as normas não
escritas que as pessoas seguem no seu dia-a-dia. A ética profissional
são os valores morais que um grupo de pessoas desenvolvem para
controlar seu desempenho ou uso de recursos. A ética individual
são os valores morais pessoais que os indivíduos usam para
estruturar suas interações com outras pessoas. Como a ética
pessoal influi na forma de agir, a cultura organizacional é fortemente
afetada pelas pessoas em posição de estabelecer valores
éticos.
Direitos de Propriedade
Na cultura organizacional, os valores refletem a ética dos indivíduos,
dos grupos profissionais, da sociedade e também a forma de distribuição
dos direitos de propriedade (direitos que as pessoas têm para usar
os recursos da empresa). Esses direitos definem os direitos e responsabilidades
de cada grupo de stakeholder e influem
no desenvolvimento das normas, valores e atitudes. Os acionistas são
o grupo que possui o maior direito de propriedade. Os altos gerentes possuem
grande direito de propriedade, pois recebem uma grande quantidade dos
recursos organizacionais, refletidos em sua autoridade para tomar decisões
e controlar os recursos. Eles têm poder para estabelecer os termos
de seus empregos e ainda para determinar os direitos de propriedade que
serão recebidos pelos outros. Alterar o sistema de direito de propriedade
afeta a cultura organizacional, pois afeta os valores instrumentais que
motivam e coordenam os empregados. Por exemplo, supervisão e regras
rígidas que controlam comportamentos podem ser substituídas
por times que cooperam e são motivados pelo compartilhamento do
valor criado no novo sistema.
Os direitos dos trabalhadores para utilizarem os recursos estão
refletidos na sua responsabilidade e nível de controle de suas
próprias tarefas. Algumas empresas conservadoras protegem tanto
os seus empregados que eles não tem motivação para
desempenhar e aceitar riscos.
A distribuição dos direitos de propriedade afeta os valores
instrumentais que formatam o comportamento e motivam os membros da organização
e determina a cultura organizacional. Por isso, os gerentes devem estar
sempre avaliando esse sistema, privilegiando um que crie uma cultura empreendedora,
baseando-se no desempenho para distribuição de prêmios.
A cultura reflete os valores que resultam do sistema de direitos de propriedade
da organização.
Estrutura Organizacional
A estrutura organizacional é a quarta fonte dos valores culturais.
Diferentes estruturas fazem surgir diferentes culturas e as estruturas
orgânicas e mecânicas fazem surgir valores culturais completamente
diferentes. A estrutura mecânica favorece uma cultura na qual previsibilidade
e estabilidade são situações desejáveis. Numa
estrutura orgânica onde as pessoas possuem mais liberdade de ação,
a cultura favorece inovação, criatividade e flexibilidade.
O gerente é apenas um árbitro, provocando debates, confrontos
criativos e incentivando novas idéias.
As organizações com estruturas de times de desenvolvimento
de produtos ou matriciais são mais flexíveis, pois o contato
direto entre os especialistas leva ao desenvolvimento de valores compartilhados
e formas comuns de resolverem problemas. Entretanto, em algumas organizações,
os empregados não devem tomar decisões e a centralização
pode ser usada para criar valores culturais que reforcem a obediência.
Em resumo, a estrutura organizacional afeta os valores culturais que guiam
seus membros no desempenho de suas atividades e a habilidade para desenhar
uma estrutura que combine com a cultura pode ser uma fonte de vantagem
competitiva.
Gerenciando a Cultura Organizacional
Os gerentes interessados em compreender a relação entre
cultura organizacional e efetividade na criação de valor
devem prestar atenção aos fatores que produzem cultura:
as características dos membros da organização (em
especial, seus fundadores), a ética organizacional, o sistema de
direitos de propriedade e a estrutura organizacional. Para mudar sua cultura,
uma organização precisa redesenhar sua estrutura, revisar
seu sistema de direitos de propriedade e até mudar as pessoas,
especialmente seu time de alto escalão.
O comportamento ético possui vantagens. Como a ética forma
uma parte importante dos valores culturais, numa época de grande
competição, a organização não pode
agir de forma a ferir sua reputação nem permitir que seus
empregados tirem vantagem de suas posições para agir de
forma antiética. Uma das principais prioridades dos gerentes deve
ser criar uma cultura ética através de seu comprometimento
pessoal com esses valores e transmiti-los aos seus subordinados. Se o
comportamento da empresa segue uma regra ética aceitável
o efeito de reputação é positivo.
Na teoria, as pessoas aprendem princípios éticos a medida
em que amadurecem: a ética é aprendida com a família,
amigos, escolas e outras instituições. Na prática,
comportamentos antiéticos ocorrem, pois as pessoas passam a acreditar
que qualquer atitude que promova ou proteja a organização
é aceitável. Normalmente nos confrontamos com questões
éticas quando pesamos nossos interesses contra os efeitos que nossas
ações terão em outras pessoas; os que acreditam que
seus interesses são mais importantes são mais propensos
a agirem antieticamente.
Da mesma forma, as empresas com mais dificuldade de sobrevivência
são as que mais provavelmente irão cometer atos antiéticos
ou ilegais. Se o desempenho da empresa não é bom, a alta
gerência sofre pressão dos stakeholders
e pode se comportar antieticamente. Nesse caso, é grande
a tentação para a empresa se engajar coletivamente num comportamento
antiético.
A Responsabilidade Social Corporativa é a responsabilidade
moral para com os grupos de stakeholders
que são afetados pelas ações da organização.
Uma organização de postura estreita acredita
que seu comportamento tem responsabilidade social desde que seus atos
estejam de acordo com a lei e as regras de seu meio ambiente. Elas acham
que é papel da sociedade criar uma referência ética
para as empresas e para decidir as regras de tratamento dos membros da
organização, empregados, fornecedores e clientes. As organizações
seriam responsáveis apenas por seguirem as regras existentes.
Uma organização de postura ampla aceita
a premissa de que as organizações são agentes morais,
e como os indivíduos, devem examinar cada situação
sob uma perspectiva moral. Depois que os valores morais e princípios
são aplicados para analisar ações e comportamentos,
os gerentes podem desenvolver regras morais que especificam comportamentos
apropriados para os membros da organização. A postura ampla
requer muito mais pensamento e julgamento pela organização
e seus membros que a postura estreita. Em resumo, se a ética organizacional
violar a ética social, a empresa estará agindo ilegalmente
e poderá sofrer sanções. Se violar as regras de negócios
genericamente aceitas, poderá perder sua reputação.
Criando uma Organização Ética
A ética influencia a escolha da estrutura e cultura que irão
coordenar os recursos e motivar os empregados. Uma organização
pode incentivar as pessoas a agirem eticamente colocando em prática
incentivos para comportamento ético e punição caso
contrário. A alta gerência é quem estabelece a ética
cultural, pois possui responsabilidade pelo estabelecimento da política
da empresa. Normalmente as empresas utilizam sua missão para orientar
os empregados nas decisões éticas. Valores éticos
fluem na organização de cima para baixo, mas podem ser reforçados
ou enfraquecidos pelo desenho de sua estrutura.
sara@celepar.gov.br

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