| Café do Brasil, mas... e o
ícone de Java?
Autor: Vanderlei Vilhanova Ortêncio
Se Brasil tem mais café, porque uma xícara
de café como ícone de Java?
Desde que tomei conhecimento da tecnologia Java, fico intrigado
quanto ao ícone escolhido para associação: uma xícara
de café. Afinal, Java para mim sempre significou algo como uma
ilha próxima à linha do equador, ao norte do continente
Australiano, ao sul da Malásia, e de que havia ouvido falar meramente
nas aulas de arqueologia sobre o “homem de Java”, um dos “recentes”
ancestrais do homem cuja arcada foi encontrada numa caverna daquela ilha.
Depois fiquei sabendo que Java é a ilha mais rica da Indonésia,
com cerca de 1000 km de extensão (leste-oeste) e 200 km (norte-sul).
Neste território acidentado, onde ainda existem vulcões
ativos com 3000 metros de altitude vivem cerca de 90 milhões de
pessoas, a maioria em áreas rurais, onde 80% da produção
é agricultura de subsistência.
Mas afinal, temos mais o que fazer e estas pequenas inquietações
são então ignoradas, mas não deixam de ficar em algum
lugar da memória processando em BG (back ground). Esta semana,
num interlóquio matinal pela Internet com minha amiga Judy, uma
filipina que mora em Toronto, li o seguinte trecho da mensagem: “...
agora vou tomar meu Java”. Não pude evitar inquiri-la sobre
qual seria a correlação, ou melhor, o porquê da conotação
entre café e a ilha de Java ou se havia algum outro fato cuja sensação
de ignorância já me causa desconforto. Afinal já havia
olhado em duas enciclopédias e nenhuma menção foi
encontrada que pudesse evidenciar o café como parte de sua economia,
cultura, religião ou qualquer outro indício que justifique
tal correlação.
Minha inquietação aumentou ao lembrar que
cresci ouvindo que o café era o famoso “ouro verde”
da economia brasileira e o Paraná era o principal produtor e exportador
de café em grão. Nos tempos de menino, a rima com palavras
café e Pelé estavam em frases e poemas ufanistas e tinham
lugar no quadro que formava o mote do orgulho nacional. Minha mais remota
lembrança (para deleite dos “freudianos”) aos 3 ou
4 anos de idade é de minha indignação porque minha
mãe (que trabalhou em colheita de café) insistia em me deixar
sob pés de café já sem frutas, pois eu adorava comer
a fruta madura de café. A restrição era porque o
excesso era inevitável com conseqüências que eram óbvias
ao saber dela, mas não para meus interesses imediatos. E agora
o café, um produto que faz parte de nossa história, de nossos
hábitos, associado com um outro lugar, tão distante... Onde
poderia estar a lógica pra dar conta desta associação
tão estranha? Chega a parecer ciúmes, e acho que é
mesmo.
A amiga Judy, a quem cabe os créditos deste artigo,
é inteligente, curiosa, culta e muito prestativa. Percebendo minha
inquietação me esclareceu (ampliando ainda mais minha inquietação)
que Java pra eles (no hemisfério norte) culturalmente é
sinônimo de café. Entendi que é como ouvirmos aqui
no Brasil alguém dizer que vai tomar um “Scotch”. Mais
ainda: me enviou informações sobre a história do
café e sua difusão pelo mundo, para que eu pudesse entender
a “lógica”. O resumo desta história me permitiu
superar parcialmente minha indignação quanto à lógica
da associação café com Java, mas o melhor de tudo
é que trouxe informações muito interessantes. Em
adição ao que aprendemos na escola ou em alguma literatura
por alguns considerada “inútil”, o relato pode inspirar
até mesmo um roteiro para novela brasileira. Mais que isto, entender
melhor nossa cultura e pensar na razão pela qual nossas novelas
são mais “picantes” do que as que se fazem no resto
do mundo. Vamos aos fatos relevantes da história do café
através desta primeira versão que poderá ser incrementada
por aqueles que gostem de entender as causas e efeitos da história,
não apenas datas e eventos.
Historiadores como o britânico Sir Henry Blount alegam
que os antigos espartanos já bebiam café, mas não
há provas claras sobre isto. Portanto, toda história do
café começa na Etiópia no século VI de nossa
era, quando a fruta era comida in natura. Na escola, quando menino, ouvi
a lenda de que um pastor de cabras observou que os animais ficavam agitados
e alegres quando comiam aquela fruta parecida com cereja e então
passou a experimentá-la... O livro “The Complete Book of
Coffee” corrobora esta lenda, dando nomes aos personagens e explicando
como surgiu o processo de torrefação e infusão do
café para ser bebido. Mas este detalhe e muitos outros não
são tratados neste artigo, ficando para uma outra ocasião.
Por volta do ano 900 o valor medicinal do café era proclamado conforme
registrado na antiga enciclopédia “Arab Scholar Avicenna”.
Mas a verdadeira propagação se deu no ano de 1258 quando
o café viajou de lá para a Arábia, via porto de Mocha
que ficava no Mar Vermelho. Em poucos anos se espalhou juntamente com
a cultura do Islam pelo oriente médio. No século XVI se
espalhou pela Europa onde era consumido exclusivamente por homens muito
ricos, pois os árabes mantinham consigo total controle sobre o
cultivo desta planta. Havia algumas poucas árvores na Índia
cultivadas por um peregrino muçulmano, mas o único lugar
através do qual a planta era exportada ainda era o porto de Mocha.
Após o fim do domínio muçulmano na Europa e no oriente,
os franceses perceberam que podiam obter café da Índia e
tentaram plantar no sul da França, mas todas as mudas foram destruídas
pelas geadas.
No século XVII os exploradores holandeses levaram
(também da Índia) mudas da planta para o Ceilão e
região a leste da Índia onde o solo de origem vulcânica
de Java se mostrou perfeito para o florescimento do café. Naquela
época, franceses e holandeses competiam por estabelecer colônias
em terras não ocupadas e que não oferecessem resistência
imediata. Basta lembrarmos as invasões holandesas e também
francesas na costa brasileira que vimos nos livros de história
do Brasil. Na tentativa de uma “política da boa vizinhança”,
os holandeses presentearam em 1715 o rei Luiz XIV (grande apreciador desta
bebida) com uma muda que foi plantada e cultivada nos jardins do palácio.
Esta muda de café foi contrabandeada do porto de Mocha para Java,
depois à Holanda e então para Paris. Apesar dos cuidados
a árvore acabou morrendo, mas ainda produziu algumas sementes.
Um soldado da infantaria seduziu uma dama da corte que deu a ele três
mudas produzidas a partir daquelas sementes, as quais foram levadas até
Martinica (no Caribe). Apenas uma planta sobreviveu à viagem e
quatro anos depois produziu uma colheita com algumas sementes. Estas sementes
foram presenteadas ao fazendeiro mais próspero daquelas ilhas (o
que não é novidade devido ao alto valor da especiaria).
Cinqüenta anos mais tarde um levantamento oficial constatou a existência
de dezenove milhões de pés de café espalhados pela
ilha de Martinica.
Neste período (cerca de 1720) se acentuaram os problemas
de fronteiras existentes nas terras colonizadas por franceses e holandeses,
principalmente na região das Índias e nas Guianas da América
do Sul. O soberano do Brasil (que ainda era colônia de Portugal),
aceitou ser o mediador do conflito e nomeou como árbitro seu amigo
tenente coronel Francisco de Melo Palheta. Como nos demais casos de sucesso
da diplomacia brasileira, Palheta conseguiu resolver o impasse, para satisfação
de ambas as partes. No período em que esteve hospedado pelo governador
da Guiana Francesa, Palheta teve um (por assim dizer) “affair”
com a primeira dama. Ao retornar recebeu dela, como manifestação
de estima, um “bouquet” de flores onde havia (adivinha só
o que?) um ramo de café com belos frutos vermelhos a ornamentar.
Assim o café entrou no Brasil em 1727, tendo sido
as primeiras mudas plantadas no Rio de Janeiro onde se deram muito bem
e sua plantação se espalhou para Bahia, depois o Espírito
Santo, São Paulo e o resto do Brasil. Para ter uma idéia
desta evolução, em 1810 a Bahia produziu quase mil sacas
de café (cerca de 937) e cinqüenta anos mais tarde, sua produção
era de cem mil sacas ao ano. Com este crescimento de produção
a popularização do café ganhou um rumo irreversível.
Aprendi na escola que o motivo da cultura do café ter prosperado
no norte do Estado do Paraná se deve ao solo chamado de terra roxa
ou “barro de massapé”, ou seja, solo de origem vulcânica
como o solo da ilha de Java.
Não podemos deixar de observar a conotação
romântica que trouxe o café da Europa para o oeste, até
Martinica e, principalmente, depois ao Brasil, pelas mãos do amoroso
conterrâneo tenente coronel Chico Palheta. Um detalhe encoberto
tanto pela omissão quanto pela prioritária preferência
a outros relatos mais obtusos como a exploração dos escravos
no plantio e depois, dos imigrantes (como meus avós espanhóis
e outras nacionalidades) nas colheitas. Mas é fascinante saber
que podem até associar o café com Java ou outro lugar, porém
apenas o café brasileiro pode alegar ter sido oriundo de uma história
de amor, além de se somar a um dos muitos sucessos diplomáticos
em que o nome do Brasil esteve associado. Na medida em que tomamos conhecimento
de nossa história mais percebemos que motivos não nos faltam
para desfrutarmos de um sentimento nativista autêntico e fundamentado.
Não o nacionalismo com viés xenófobo e arrogante,
mas um sentimento de auto-estima e consciência de valor positivo.
Então, ao sabermos desta história ficam menos importantes
as implicações da associação que pode nos
parecer inapropriada de Java com o café, pois sabemos que sempre
estaremos com os melhores trechos da história, a despeito da “mineirice”
do Chico Palheta que chega a nosso conhecimento quase três séculos
depois. Como diz nosso hino: “... Nossos campos tem mais flores,
nossa vida em teu seio mais amores...”
vilanova@pr.gov.br

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