Um dos nomes mais consagrados da arte contemporânea no Brasil, Amélia Toledo, de 82 anos, expõe pela primeira vez em Curitiba. Com curadoria do filho e artista Mo Toledo, com quem trabalha há 10 anos, a exposição faz uma retrospectiva das obras produzidas ao longo de 60 anos. As 57 peças em exibição –colagens, pinturas, esculturas, objetos, instalações e projeções de obras públicas– integram séries que para Amélia estão em contínua construção.

"Bolas-Bolhas” (1968), “Labirinto Azul” (1993), “Fatias de Horizonte” (1996) e “Pedra-Luz” (1999) são algumas das obras presentes. Os próprios títulos denunciam a profunda ligação de Amélia Toledo com a natureza, traço marcante de sua obra. “Na arte, na comunicação, prepondera uma visão negativa. É um momento em que é preciso falar da vida, não do horror da morte. A gente tem que propor a positividade, fazer ecoar as idéias em um sentido da urgência que temos diante do que está acontecendo, da destruição da terra, do homem”, enfatiza a artista.

E é a partir dessa profunda ligação que Mo Toledo definiu os dois núcleos da exposição: o trabalho com a cor e com os fenômenos, apresentados em salas distintas. “É uma obra independente de quaisquer modismos, mas relacionada à essência dos fenômenos e dos processos, ligando a arte à ciência, à observação do tempo”, define o curador.

 
 

 

Lúdica e interativa

De grande apelo lúdico, as obras aguçam os sentidos, são interativas e muitas podem ser tateadas. No núcleo dos fenômenos, por exemplo, onde estão as obras construídas por diversos elementos naturais como areia, pedra, madeira e conchas do mar, chama a atenção “Gambiarra”, também chamada pela artista de “ostras sonoras”. A peça é semelhante a um varal de fio de nylon, no qual estão penduradas as partes abertas das ostras. Como um “sino do vento”, ao toque do espectador produz um agradável som. Da mesma forma “Os dragões cantores”, obra inédita formada por um conjunto de rochas perfuradas, que ao serem tocadas com outras pedras menores se obtém sons graves e agudos.

Já o núcleo que trabalha a cor exibe a instalação “Caminho das Cores”, composta por aproximadamente 300 telas de jutas coloridas a formar um grande labirinto pela sala expositiva. Em outra, “Pedra-Luz” (1999), a projeção de imagens manipuladas de conjuntos de pedras, propicia a sensação de que o espectador –deitado em um colchão sob um grande espelho –é “envolvido” pela obra. Assim, a montagem em Curitiba faz um jogo de luzes e cores, claros e escuros. Para as cores abundância de luz, para os fenômenos o escuro.

Por meio desses dois núcleos Mo Toledo revela o desdobramento da obra de Amélia, apresenta quase que um retrato da trajetória de seis décadas de produção artística. Além das obras citadas, uma das séries mais conhecidas sob o conceito da interatividade foi criada nos anos 60. São tubos, discos e bolas em PVC, que associam recursos industriais e artesanais. Da série fazem parte “Medusa” (1969), “Discos Táteis” (1970), “Glu-Glu” (1968) e “Bolas-Bolhas”. Outra série bastante conhecida demonstra que Amélia é uma pesquisadora assídua e sempre está a testar materiais. Suas experiências com cor sobre suporte duro originaram obras como “Labirinto Azul”, um conjunto de chapas –curvadas e pintadas –de aço inoxidável.

 
 

Jóias

Paulistana de nascimento, Amélia Toledo freqüentou o ateliê de Anita Malfatti no fim da década de 30. Estudou desenho, pintura e modelagem com Yoshiya Takaoka e Waldemar da Costa nos anos 40. Nos anos 50, iniciou o trabalho com pedras. Suas escolhas foram dirigidas às jóias feitas com fios de cobre e estanho. As jóias artesanais, de risco moderno, inseriram a artista no movimento de renovação dos objetos. As criações seguem a geometria de formas regulares, de vocação abstrata, com a criação de elegantes arabescos. As criações, que complementam e adornam, mereceram o reconhecimento da Bienal de São Paulo de 1963 e da Bienal de Arte Aplicada de Punta Del Este de 1964. Devido a importância que as jóias têm na carreira de Amélia, alguns exemplares também estão presentes na mostra.

 




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