Composta de 117 obras, assinadas por 61 artistas, a mostra apresenta um extenso panorama da arte cubana no século 20. Este é o mais significativo conjunto de obras cubanas já exibido no Brasil, proveniente de coleções dos próprios artistas e do acervo do Museu Nacional de Bellas Artes de Cuba, instituição que administra a maior parte do patrimônio artístico da ilha.
As obras abrangem desde o surgimento das vanguardas – quando a produção artística de Cuba ganhou de fato uma identidade própria –, até as manifestações mais contemporâneas. De acordo com a curadora Ania Rodríguez, a
exposição apresenta diversas possibilidades de se entender a arte do século 20 em Cuba. Portanto, para facilitar a compreensão a curadora optou por organizar a disposição das obras de forma cronológica.
Entre as várias possibilidades, a primeira leitura segue a lógica temporal e destaca o surgimento e a consolidação da arte moderna nas primeiras décadas do século, os movimentos abstratos, a pluralidade estética que acompanha as mudanças da revolução nos anos 60 e 70, e a renovação e experimentação características dos 80 até hoje.
Além dessa interpretação mais linear, no entanto, há vários outros caminhos que se perfilam ao longo dessa produção, propondo uma segunda leitura, temática, que agrupa artistas de diversas gerações por meio de preocupações comuns ao longo do século:

- A arte como espaço de reflexão sobre as raízes da cultura cubana. As indagações iniciais de Carlos Enriquez com seu Romancero Criollo, ou de Eduardo Abela com as suas representações de cenas camponesas e rituais tradicionais têm uma sutil relação com a posterior criação da pessoal iconografia de Wifredo Lam, baseada na apropriação dos códigos visuais da cultura afro-cubana. Do mesmo modo, hoje, artistas como René Peña ou Roberto Diago, encaram o componente africano da cultura cubana, questionando os estereótipos do negro e seu lugar na sociedade atual.

- O compromisso social do artista. Expressa-se desde a militância explícita de artistas como Marcelo Pogolotti, que nos anos 20 destaca em suas obras uma visão marxista da sociedade, até a dramaticidade impressa nos trabalhos de Fidelio Ponde de León. Há ainda uma produção marcada pela efervescência da Revolução Cubana, com obras afirmativas ou críticas, mas em que a posição do artista não fica indiferente à realidade social vivida. A “II Declaración de La Habana”, de Mariano Rodríguez, ou a representação de heróis feita na linguagem pop de Raúl Martinez, refletem isso. Do mesmo modo, peças mais recentes, de artistas como Tania Bruguera ou José Toirac, exploram a memória pessoal.

- Experimentação com linguagens artísticas e poéticas pessoais. À margem de qualquer temática imposta, os artistas manifestam também sua vontade de experimentação com novas linguagens. Os artistas dos anos 50 voltaram-se para a abstração, fugindo das figurações locais, que já viravam estereótipos do “cubano”. Do mesmo modo, uma parte da produção artística hoje tende a escapar das referências explícitas a Cuba, para realizar uma obra de referências políticas mais sutis e abrangentes, válidas para promover uma reflexão além do contexto local.

     
     
Movimentos Cubanos
A Exposición de Arte Nuevo (1927) é tomada como ponto de partida do movimento moderno cubano. Arte de Cuba exibe alguns dos artistas emblemáticos desse período como Victor Manuel (sua obra “Dos Mujeres y un Paisaje” é usada na identidade visual da exposição), Eduardo Abela, Marcelo Pogolotti, entre outros. Os artistas rompem com as regras acadêmicas e debruçam-se sobre um jogo intrincado de tendências, estilos e interesses variados, na sua busca de uma expressão artística nacional.
A consolidação do modernismo traz à luz importantes artistas como Wifredo Lam, que é hoje talvez o nome cubano mais reconhecido internacionalmente, Roberto Diago, Amelia Peláez, René Portocarrero, etc. Trata-se de um momento bastante rico no cenário cultural cubano, frequentemente comparado às manifestações vigorosas que aconteciam simultaneamente no México e no Brasil.
Entre o final dos anos 40 e início dos 50, os grupos “Los Once e 10 Pintores Concretos” reúnem artistas em sintonia com as correntes européias da abstração. Paralelamente, nomes como Sandú Daríe e Luis Martínez Pedro destacam-se com obras geométricas, combinando rigor e imaginação, na interpretação da curadora.
Os anos 60 dão lugar a uma produção interessada na história de Cuba, desde seus grandes acontecimentos políticos, sociais e econômicos até as perspectivas mais cotidianas. A Revolução Cubana leva a uma pluralidade de opções artísticas: o pop e a nova figuração encontram seus principais representantes em Raúl Martinez e Antonia Eiriz, respectivamente.
A nova geração, formada com a revolução recupera algumas das preocupações que ocupavam a produção moderna, como Nelson Dominguez ou Zaida del Rio na busca por uma temática mais nacional nas tradições camponesas e Manuel Mendive na exploração de mitos afro-cubanos. Vale também mencionar Roberto Fabelo e Pedro Pablo Oliva, todos identificados por uma similar sensibilidade para o onírico e o lírico.
A partir da década de 80, Cuba experimenta uma ebulição criativa não só entre os artistas, mas também entre os críticos, curadores e especialistas, que estruturam um pensamento teórico com novos enfoques e pontos de vista. Nomes como José Bedia, Humberto Castro, Leandro Soto e Arturo Cuenca formam parte da chamada “Geração dos Oitenta”, que desestrutura a simbologia tradicional do imaginário cubano, e assumem posturas críticas e transgressoras na forma de expor a sua arte. Para a curadora da mostra, Ania Rodríguez, “os artistas adotam diversas estratégias, do humor à ironia e à crítica mais radical. Tudo é indagado, desde a memória pessoal até as estratégias do poder, em obras que se caracterizam por uma acentuada densidade conceitual”, diz ela.
Cuba entrega-se a um movimento de renovação e experimentação nas artes, em que os artistas se assumem como testemunhas de um contexto político e social muito particular, tornando quase obrigatória sua presença nas mais prestigiadas coleções do mundo. Neste cenário, a Bienal de Havana, cuja nona edição aconteceu em março de 2006, também assume um papel fundamental, funcionando como porta de entrada para marchands e instituições internacionais em um mercado até pouco tempo mais fechado.
Alguns dos artistas que hoje encontram um espaço de reconhecimento internacional, como Carlos Garaicoa, Tânia Bruguera, Los Carpinteros e Kcho, pensam seu entorno por uma perspectiva mais abrangente e geral, fugindo de referências locais para dialogar em torno aos dilemas do homem contemporâneo no mundo atual.
A idéia inicial de Ania Rodríguez era privilegiar a produção contemporânea, mas o envolvimento do museu permitiu a ampliação de seu objetivo, chegando a um painel que abrange também a arte moderna e suas origens. Segundo a curadora, a exposição traz ainda a oportunidade de se notar os pontos de confluência entre a arte cubana e a brasileira: “Os dois países adotaram posturas parecidas na apreensão das linguagens vindas da Europa e sua combinação à identidade nacional de cada um”, afirma ela.
     
     
A criação do museu cubano

Inaugurado oficialmente em 28 de abril de 1913, o Museu Nacional de Bellas Artes de Cuba nasceu de um projeto estruturado em 1910, quando um comunicado público convidou artistas, colecionadores privados e instituições a doarem obras para o que era ainda só uma idéia bastante informal de museu.
O grande impulso à iniciativa deve-se a Antonio Rodríguez Morey, nomeado diretor em 1918 e que, por quase 50 anos, trabalhou empenhado na estruturação, documentação e preservação da arte cubana. Com um acervo composto basicamente por meio de doações, pouco se pôde fazer para definir, em um primeiro momento, um perfil para a coleção.
A vitória da Revolução Cubana em 1959, no entanto, é um marco na história do museu. O êxodo de grande parte da burguesia do país permitiu à instituição o acesso a um conjunto precioso de obras, tornando públicas peças fundamentais para uma reflexão mais profunda dos vários períodos e movimentos artísticos que se sucederam ao longo dos anos, da produção colonial à pintura acadêmica, passando pelos nomes modernos e estendendo-se aos destaques contemporâneos.
A arte atual, aliás, é uma das prioridades do museu, que investe para manter o acervo atualizado e, assim, capacitado para servir como uma espécie de vitrine dos jovens artistas cubanos, tão festejados no exterior.
 
 
 
 
     
ALGUNS DESTAQUES DA MOSTRA

Victor Manuel García
(La Habana, 1897 - 1969)

Sua primeira individual aconteceu em 1924, em Las Galerías, em Havana. No ano seguinte, o artista fez a primeira viagem à Europa. Em Paris, conheceu e estudou a pintura clássica, fez contato com os pós-impressionistas e os modernos e, assim, abandonou aos poucos a formação mais acadêmica. De volta a Cuba, em 1927, realizou duas importantes exposições, uma individual e outra coletiva, que acabaram por marcar o início da produção da pintura moderna na ilha. É considerado um dos mais importantes renovadores da arte cubana, não só por sua obra como também pelo trabalho com jovens artistas. Durante uma viagem a Paris, em 1929, pintou “La Gitana Tropical”, considerada o ponto mais alto de sua carreira artística, quando alcançou um estilo próprio e inconfundível. A partir de 1964, dedicou-se a litogravura.


Wifredo Lam

(Sagua la Grande, 1902 - Paris, 1982)

Estudou na Academia San Alejandro de La Habana na década de 20 e já em 1923 apresentou sua primeira exposição individual, na cidade natal de Sagua la Grande. Neste mesmo ano, seguiu para Madri, onde conviveu com o pintor e então diretor do Museu do Prado, Fernando Alvarez de Sotomayor, além de trabalhar na Academia Libre del Pasaje de la Alhambra. Sua primeira individual na Espanha aconteceu em 1928, na Galería Vilches de Madrid. Entrou em contato com o Cubismo pela primeira vez em 1936, devido a uma mostra itinerante de Pablo Picasso. Em Barcelona, deu início a uma intensa e produtiva pesquisa dentro das linguagens modernas. Mudou-se para Paris dois anos depois e, em 1939, Lam expôs junto com Picasso, na Galeria Perls, de Nova York. Logo na seqüência, o artista envolveu-se ainda com os surrealistas.
A volta a Cuba aconteceu em 1941, quando a escritora Lydia Cabrera apresentou-lhe a cultura afro-cubana, fazendo com que Wifredo Lam se empenhasse em combinar elementos cubistas e surrealistas à influência africana no cotidiano cubano. A obra “La Jungla”, produzida entre 1942 e 1943, é a peça mais representativa deste período. Sua exposição na Galeria Pierre Matisse, de Nova York, teve texto de apresentação assinado por André Breton. Em 1952, decidiu viver em Paris, onde participou de muitas edições do Salão de Maio, entre 1954 e 1982. Em 1959 surgiram suas obras de grandes formatos, como “Amanecer”, “Cerca de las Islas Vírgenes” e “La Sierra Maestra”, conjunto que indica uma grande virada em sua trajetória artística. Também em 1959, recebeu o convite para a segunda Documenta de Kassel, na Alemanha.
A partir dos anos 60, a gravura passou a receber especial relevância. São desta época as séries “Images” (1962) e “Apostroph' Apocalypse” (1967), feitas com a técnica da água-forte. Entre 1964 e 1965, ganhou o prêmio internacional do Guggenheim de Nova York. Em 1966, terminou “El Tercer Mundo”, obra que homenageia a Revolução Cubana.


Marcelo Pogolotti

(La Habana, 1902 - 1988)

Com mãe norte-americana e pai italiano, o artista foi criado entre Cuba e Europa, principalmente na Itália. Em 1919, começou os estudos de engenharia na Rensselaer Polytechnic Institute de Troy, mas logo abandonou as aulas para se dedicar exclusivamente à arte. Em 1923, se matricula na The Art Students League, de Nova York. A partir de 1925, começou a conviver com jovens artistas cubanos e dois anos depois participou da Exposición de Arte Nuevo. Ansioso por conhecer de perto os movimentos artísticos que dominavam a Europa, instalou-se em Paris em 1928 e, de início, sentiu-se atraído pelas propostas do Surrealismo. Mas no ano seguinte filiou-se ao Futurismo: Marinetti cita sua obra em um dos manifestos, e ele realizou diversas exposições em cidades italianas. Entre 1934 e 1935, exibiu suas obras em Paris, ao lado de Léger, Pignon, Lipchitz, Masereel, Jean Lurçat, Ozenfant, Delaunay, Lhote, entre outros. Em 1938, perdeu completamente a visão e passou a trabalhar como ensaísta.


Raúl Martínez
(Ciego de Ávila, 1927 - La Habana, 1995)

O pintor, desenhista, gravador, fotógrafo e designer gráfico estudou na
Escuela Elemental de Artes Plásticas, anexa à Escuela Nacional de Bellas Artes San Alejandro, entre 1941 e 1943. Em 1952, ganhou uma bolsa de estudos para o Institute of Design de Chicago, nos Estados Unidos, fundado por Moholy Nagy. Em 1963, participou da célebre mostra Expresionismo Abstracto, na Galería Habana. No ano seguinte, exibiu “Homenajes”, anúncio de que começava a se distanciar do Expressionismo Abstrato, iniciando a incursão pelo pop, por meio da colagem. Integrou o Salón 70 com uma tela a óleo, de grandes dimensões, intitulada “Isla 70”. O Museo Nacional de Bellas Artes organizou em 1988 sua primeira grande retrospectiva, Nosotros.


José Bedia
(La Habana, 1959)

Formado pelo Instituto Superior de Arte de La Habana, participou no início da década de 80 da festejada exposição “Volumen Uno”, ao lado de nomes como Torres Lorca, Flavio Garciandía e Soto. Destaque nas quatro primeiras edição da Bienal de Havana, recebe um prêmio pela instalação “El Golpe del Tiempo”, em 1986. Desde 1993, está radicado nos Estados Unidos, onde já expôs individualmente em Nova York, San Diego e na Flórida. Bedia é presença certa nas mais significativas mostras de arte contemporânea do mundo e sua obra exerce influência tanto no cenário artístico cubano como no internacional.


Carlos Garaicoa
(La Habana, 1967)

Cursou o Instituto Superior de Arte, de Havana, entre 1989 e 1994. Sua primeira exposição foi “Días de Infancia”, em 1989, mas é com “Las Metáforas del Templo”, organizada junto com o escultor Esterio Segura, no Centro de Desarrollo de las Artes Visuales, em 1993, que o artista inseriu-se por definitivo no circuito de arte cubano. Sua obra estende-se pela fotografia, desenho, gravura, vídeos, intervenções e performances em locais públicos. Entre as mostras mais recentes que participou e que têm lhe garantido destaque estão a quarta e a quinta edição da Bienal de Havana, a coletiva “Más Allá del Documento”, no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madri, em 2000, e a Documenta de Kassel de 2002, na Alemanha.


Los Carpinteros
(Dagoberto Rodríguez, Caibarién, 1969)
(Marcos Castillo, Camagüey, 1971)
(Alexandre Arrechea, Trinidad, 1970)

Dagoberto Rodríguez e Alexandre Arrechea conheceram-se durante um projeto de reforma e restauração de La Habana Vieja, nos anos 90, trabalho acompanhado de perto por Marcos Castillo, que registrou em fotografias todo o processo de produção das peças de madeira, mais tarde levadas para pintura. A produção artística cubana da época passava por um momento de revisão de linguagens e posturas estéticas, e a formação do grupo Los Carpinteros deriva da intenção dos três artistas de investigar melhor as transformações culturais do período, sempre com uma visão mais artesanal do assunto e reforçando a importância histórica das manifestações populares. Sua participação na 5ª Bienal de Havana projetou-os no circuito nacional e internacional. Os objetos criados pelos artistas combinam marcenaria, desenho, pintura e escultura, sempre com a intenção de reforçar os costumes mais tradicionais do país. Em 1994, suas obras passaram a integrar a coleção do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía.


Tania Bruguera Fernández
(La Habana, 1968)

De 1983 a 1987, estudou na Escuela Provincial de Artes Plásticas San Alejandro, onde passou pelo Taller Experimental de Gráfica. No início dos anos 90, entrou em contato com a fotografia e a escultura. Sua obra inclui instalações, desenhos e performances. Tem uma projeção tanto nacional como internacional.

 
 




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