O artista plástico Bené Fonteles apresenta em 82 fotos parte de sua visão poética sobre Gameleira do Assuruá, cidade do semi-árido baiano. As imagens, a serem expostas a partir do próximo dia 30, às 11 horas, compõem o livro Ausência e Presença em Gameleira do Assuruá. O artista fará no dia 01 de maio, às 16h, uma visita guiada pela exposição. A visita é aberta ao público interessado, com entrada gratuíta. A mostra poderá ser visitada até 26 de junho.

Integralmente produzido pelo artista, o livro, com cerca de 600 fotos, foi lançado em São Paulo durante o Fórum Mundial de Cultura, no Sesc Pompéia. As fotos e o material usado na produção da publicação, as provas, os textos e o projeto gráfico, constituem a exposição que acompanha o lançamento do livro nas principais capitais do País.

"Levei dois anos para fazer o trabalho, que conta com mais de 1,5 mil fotos. O livro é uma obra completa pois o artista plástico, o gráfico e o escritor se encontram para utilizar a fotografia como linguagem. É o artista apaixonado pela textura, pelas formas, pela ação do tempo sobre as coisas."

Com o desejo de mostrar sua ausência e presença do lugar que conheceu e com as pessoas que conviveu, o artista utiliza como metáfora um pequeno banco de madeira e couro curtido, presente na maioria das fotos.

Toda a verba arrecadada com o livro, vendido ao preço simbólico de R$ 60,00, é revertida para ações sócio-ambientais de Gameleira do Assuruá, promovidas pelo Centro de Assessoria do Assuruá (CAA), uma organização não-governamental. O livro poderá ser adquirido no dia da abertura e depois na Loja do Museu. A comunidade que serviu de inspiração para a edição do livro também ganhou uma exposição inteira para circular pelas cidades do agreste baiano.

O artista

Bené Fonteles, de 52 anos, nasceu em Bragança (PA), e desde os 6 anos de idade já morou em sete estados brasileiros, experiência que considera fundamental para o desenvolvimento de seu trabalho artístico. Ele iniciou a carreira no início da década de 70, em Fortaleza (CE), onde se tornou também jornalista e editor de arte. Em 72, iniciou seu trabalho de animação cultural, curadoria e montagem de mostras por quase todo o País.

Da década de 70 até 2000 participou de inúmeras exposições no Museu de Arte Contemporânea da USP, Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Galerias da Funarte no Rio, Museu de Arte de Brasília, Instituto Itaú Cultural e Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

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Objeto comum nas casas, o banco, chamado de tamborete, é também usado como tambor nas festas populares de cururu e siriri. "O banco como metáfora poética serve também para partilhar minha ausência e presença implícita nele e no exterior de cada ambiente. Deixo a imaginação penetrar e pertencer ao interior das casas e comungar, com o olhar atento, a deslumbrante paisagem agreste que domina a Serra do Assuruá."

Fio condutor do livro e da exposição, o tamborete compõe, com fotos de três metros por dois metros, as duas instalações apresentadas na mostra. "Era impossível não ficar tocado por sua forma sintética e útil (...) Do encanto veio o desejo de fotografá-lo frente às casas, becos e cercados, dialogando com a cidade de Gameleira, como forma de me inteirar e pertencer também ao seu espaço cênico." O resultado é um trabalho intimista, carregado de poesia.

São Paulo em 73, 75, 77 e 81.

Entre 1983 e 86 dirigiu o Museu de Arte da Universidade Federal de Mato Grosso, desenvolvendo trabalho ligado à multimídia e a ecologia. A partir dessa atuação, criou e participou de várias associações e movimentos em defesa do meio ambiente. O mais importante, e ao qual se dedica até hoje, é o Movimento Artistas pela Natureza.

Criado e coordenado pelo artista, desde 1986, o movimento foi lançado durante a Bienal Internacional de São Paulo de 87. O movimento mantém parcerias com diversas ONG's brasileiras e com órgãos como a Unesco, Ibama-Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Cultura e CNBB.

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A poética Gameleira do Assuruá

Centenária, a cidade de Gameleira do Assuruá, ao pé da Serra de Assuruá, está localizada entre as cidades de Xique-Xique e Barra, às margens do Rio São Francisco. Em tupi-guarani, Gameleira significa serra grande. Para os sertanejos, a gameleira, que dá o primeiro nome à cidade, é uma árvore de boa madeira para a confecção de gamelas. Na cidade, existe apenas um exemplar da espécie, localizado à beira da estrada que dá acesso para alguns roçados e para a serra que domina toda a extensão do pequeno vale.

Com aproximadamente 500 habitantes, o artista relata no livro que são muitas as casas abandonadas, devido a crescente migração para os grandes centros urbanos. Um declínio que teria se acirrado quando deixou de ser sede do município, transferida inicialmente para Santo Inácio e, depois, para Gentio do Ouro. De acordo com Fonteles, na atual sede, encontrava-se à flor da terra e, em profusão, os cristais de quartzo que iriam alimentar os sistemas de radares na Segunda Guerra Mundial.

"O que era ouro em profusão acabou-se e inventaram os cristais sintéticos. Assim, ambas as cidades entraram em declínio econômico, em que a migração se fez uma triste e urgente alternativa." O artista narra ainda que, na década de 80, um pequeno grupo disposto a viver em comunidade e praticando a agricultura orgânica fez de Gameleira "um solo fértil para seus sonhos e suas ações".

"Deste feliz encontro entre uma comunidade portadora da força sertaneja e de profundas raízes, jovens idealistas e inovadores e o trabalho cristão de base nasceram várias ações que vêm mudando a vida na região. Estas ações, viabilizadas pela parceria com ONGs brasileiras e européias, ajudaram a valorizar o trabalho no campo, nas escolas e em outras profissões nativas, dando a oportunidade de auto-estima, e evitando que a migração engrossasse o caldo da violência na periferia das grandes cidades", ressalta o artista.

 


Método Construtivo

Foi o modo simples e prático de viver no semi-árido que tocou o artista e ambientalista Bené Fonteles. Segundo ele, são ricas as soluções dos encaixes e rebocos sobre os paredões nas casas, com grossos tijolos de adobe, cacos de telhas e pedras -"abundantes na serra- para evitar erosões da chuva e do vento".

O artista disse ter se impressionado com a solução encontrada para o desgaste de portas e janelas. A população aproveita madeiras, latas, talos de buriti, pedras e outros materiais, que criam, na visão de Bené, expressivas texturas nos inusitados remendos ou simples e efêmeros encostos. Os mesmos talos de buriti, como placas de metal e pedra, servem ainda para proteger os alicerces e portas das casas contra a evasão da chuva, a invasão de pequenos animais e para segurar as palhas de carnaúba nos telhados.

Tema das imagens captadas pelo autor, Fonteles retrata o caimento dos vários tipos de reboco, em contraste com as paredes sem pintura ou com velhas pinturas desgastadas pelo tempo, que vão gerando um grafismo de descasques, mofos e decalques, junto aos riscos e rabiscos em grafite por pincel, caneta e até mesmo facas nos baixos relevos.

Para o artista, tudo isso cria uma sensação de pintura abstrata permeando o construtivismo das portas, janelas, quinas, calçadas e telhados desenhados pelas sombras, conforme a luz do sol ao transpassar do dia. "Em todas estas construções informais, coexistem ao mesmo tempo, o rústico e a leveza, a elegância e a simplicidade na forma de dispor a variedade de materiais: sejam eles o pau-d'arco, a carnaúba, a imburana, o oití, e outras vezes; os metais e as pedras. Tudo está a brotar do chão com uma impressionante e harmônica organicidade."




 
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