Desprestígio e ressurgimento
“Dos anos 1960 em diante, as novas linguagens da vanguarda, a partir da arte conceitual – que se propôs abolir o objeto –, e, logo, com as instalações, performances, happenings, vídeo art, etc., decretaram que a pintura estava superada.” Indiferente ao desprestígio dos pintores, especialmente nos anos 1970 e com maior força na Europa e nos Estados Unidos, o artista continuou a pintar. Tendência que também chegou ao Brasil, mas com menor intensidade. A partir do final da década de 1980, a pintura ressuscitou com redobrado vigor e recuperou o prestígio crítico e de mercado com a mesma intensidade e sucesso que as outras linguagens de vanguarda. Bracher persistiu no tempo, por isso é Um resistente da pintura.
Com esta retrospectiva é possível confirmar, com a “festa de cores” de Carlos Bracher, o que disse Olívio Tavares: A observação retrospectiva da produção pictórica de Bracher é um dos argumentos, uma das provas conclusivas de que todas as técnicas e linguagens, quando sabiamente usadas, estão destinadas à permanência.
Festa de cores
O mineiro recebeu as noções básicas de pintura com o tio, Frederico Bracher Júnior, “que era um competentíssimo pintor acadêmico”. Mas foi o temperamento determinado e autodidata do sobrinho que fez com que o artista amadurecesse e se dedicasse integralmente à pintura. “Bracher entende a arte como uma missão a cumprir e jamais pensaria em se dedicar à outra coisa”, analisa o curador.
Para Tavares, o que primeiro chama a atenção na produção do artista é a voluntária expressividade de sua linguagem dramática, enfática e barroca. “Não é sem motivo que ele escolheu morar na cidade barroca de Ouro Preto. Pode-se dizer que, no fundo, Carlos Bracher é um artista inteiramente romântico, o romântico possível, em pleno século 21.”
Entretanto, por mais que seja ligado aos temas clássicos – há notória predominância em sua obra da paisagem, inclusive a marinha –, Bracher provou certo distanciamento da pintura acadêmica, ao buscar mais do que a simples semelhança com a realidade. Nas obras intituladas Museu da Inconfidência, uma pintada em 1985 e outra em 1987, percebe-se que a segunda abandona os detalhes figurativos da primeira, e transforma os elementos narrativos e descritivos em “puras massas de cor”. “Quase podemos dizer que a figuração de Bracher – como toda boa pintura – se enamora da e aspira à autonomia da linguagem abstrata.”
O curador observa que “disso resulta o fato de que os detalhes de seus quadros nos fornecem verdadeiras festas de cores, pinceladas e matérias, como as que se encontram na pintura abstrata”. “Bracher é um excelente pintor ‘à moda antiga’ (...) daqueles que trabalham com a tela espichada em chassis e colocada sobre o cavalete, usam tinta, pincel e/ou espátula, se servem muito frequentemente de modelos ou pintam do natural, e se bastam com a pintura, sem a necessidade de sair inventando novidades. Bracher acredita na força e na eterna validade da pintura. Na verdade, o fato de ele ser um pintor-pintor, e nada mais que um excelente pintor, é seu primeiro mérito.”