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exposição do escultor cerâmico Francisco
Brennand, de 77 anos , é a maior mostra do artista
já realizada no Sul do País. Entre esculturas,
desenhos e estudos de óleos sobre telas são
apresentadas 396 peças, que traçam um
panorama da produção de Brennand. Elas
marcam um percurso de mais de 30 anos de criação
artística, desde os anos 70 até os dias
atuais.
Para
enriquecer a mostra, o curador Emanoel Araújo
selecionou 60 peças inéditas, com as quais
o artista pretende representar as Culturas Assassinadas.
As peças da série, ainda em execução,
posteriormente irão compor o cenário do
Templo do Sacrifício, em Recife (PE). O Templo
é um dos ambientes que está sendo construído
por Brennand nas antigas instalações da
Cerâmica São João da Várzea
(localizada na várzea do Rio Capibaribe), onde
ele mantém o seu ateliê.
Mistério da criação
inspira Brennand
O próprio artista admite que realiza uma obra
com grande carga sexual. Brennand acredita que por isso,
muitos dos que se deparam com as obras carregadas de
símbolos fálicos, podem pressupor tratar-se
de fascínio ao erotismo. Porém, ele defende-se
e afirma que esse é apenas o "rótulo"
de uma leitura equivocada. "Rotularam minha arte
como arte sexual, quando minhas intenções
são outras bem mais complexas."
Brennand respalda sua conceituação na
análise do historiador Arnold Toynbee, o qual
teria concluído que "o sexo, mais do que
a morte, deixa o homem diante de uma perplexidade insanável".
"Na realidade eu me ocupo da reprodução,
do enigma da existência. Por que todas as coisas
são duplas? Por que as coisas têm necessidade
de se multiplicar? Para mim, a reprodução
é o ponto de partida do grande mistério
da criação, do universo, do homem e de
tudo que há entre o céu e a terra",
afirma.
Para
o curador Emanoel Araújo, Brennand, ao esculpir,
"aproxima-se da criação divina do
Gênesis". "No século XX, talvez
com exceção de Picasso, ninguém
realizou uma obra tão numerosa, variada e, ao
mesmo tempo, harmoniosa." Segundo ele, as esculturas
do artista, criadas em barro, são um exemplo
clássico de como se transforma essa matéria-prima
em um material nobre, como a terracota. "Suas obras,
queimadas a uma temperatura altíssima, criam
uma veladura com a cor, transformando o glaiser (camada
de pigmento) que as cobre e fazendo surgir tons e semitons
irisados e originais."
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Por
sua natureza de grande conhecimento intelectual, Brennand
também exercita constantemente a busca de uma
definição para a arte que constrói,
na antiga fábrica de cerâmica fundada pelo
pai, em 1917. Ele lembra uma idéia expressa por
um taxista, que "não teve a coragem de entrar
nas ruínas". "Isso parece o Egito,
me disse ele. Eu senti que ele estava à procura
de uma analogia para o mistério."
Um
mistério que Brennand, ao decidir, em 1971, instalar
ali seu ateliê e fazer dele seu próprio
anteprojeto, esforça-se por manter. O artista
enfatiza que a "reforma" do lugar já
dura 33 anos. "As ruínas me motivaram. Era
a minha memória. Um lugar imensamente misterioso.
Mistério que temia que desaparecesse."
Na atmosfera da várzea
Já
povoada pelos seres e objetos que parecem saídos
do onirismo, a área coberta sob interferência
de Brennand é de 10 mil metros quadrados, que
se somam ao restante dos 10 hectares de área
total da propriedade. O amigo e curador, Emanoel Araújo,
diz que é um cenário raro de integração
entre a natureza, a arquitetura e a arte. Portanto,
ao decidir realizar a exposição no MON,
o curador considerou que a mostra teria que ter a mesma
"intensidade criativa e a mesma atmosfera que ronda
os espaços de Brennand na Várzea do Recife".
De
acordo com o ele, a mostra fundamenta-se nos princípios
plásticos que são fundamentais para a
construção de uma escultura. "Sem
tirar delas o significado de algumas obras reunidas
em vários segmentos", como por exemplo A
Metamorfose do Grito, O Corpo em Mutação
Interior, Vítimas Históricas, Teatro das
Representações Mitológicas, Os
Frutos da Terra e A Natureza Prestes a Atacar.
"Esses
segmentos permitem criar uma leitura ampla e generosa
da grande obra escultórica de Brennand. Uma obra
de extrema originalidade que já lhe coloca em
um lugar distinto na arte brasileira e internacional."
Na avaliação do próprio Brennand,
ele se coloca como "um expressionista", no
conjunto da Arte Moderna, e, às vezes, no conjunto
da obra, acredita que pode classificá-la como
surrealista. |