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Produzida
pelo Museu , a exposição apresenta
obras
inéditas, nunca antes exibidas no Brasil
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A
exposição, composta de aproximadamente
200 obras, faz uma retrospectiva da obra completa do
pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003).
Esta é seguramente a maior e a mais abrangente
que já se fez do artista com obras selecionadas
nas oito décadas de sua produção,
revelando toda a trajetória da produção
do pintor, que viveu em Paris de 1937 a 2003, quando
faleceu.
Entre as obras exibidas está desde o primeiro
quadro pintado pelo artista aos 14 anos, datado de 1921,
até as últimas produções
da década de 90. A mostra reúne obras
de colecionadores particulares e museus, no Brasil e
no exterior.
“Há uma série de obras de grande
importância, oriundas de coleções
brasileiras e francesas, muitas delas inéditas
no Brasil, como a obra que Cícero Dias trocou
com Picasso, em 1940, chamada “Distante”,
da coleção particular do filho do pintor
espanhol, Claude Picasso”, afirma o curador e
organizador da mostra em Curitiba, Waldir Simões
de Assis Filho.
A mostra foi organizada com o apoio do Comitê
Cícero Dias, criado após a morte do artista,
integrado pela viúva do pintor, a francesa Raymonde
Dias, a filha Sylvia, o colecionador Jean Boghici, um
grande conhecedor da obra de Cícero, e o curador
desta mostra.
Com os esforços somados, além de trabalhos
inéditos, a exposição também
exibe a obra considerada a mais emblemática da
produção de Cícero Dias, o mural
“Eu Vi o Mundo..., ele Começava no Recife”,
de 2m x 12m, pintado no auge do modernismo brasileiro
entre 1926 e 1928.
Destacam-se ainda a apresentação dos painéis
da fase abstrata que compõem as paredes da sala
de jantar da casa do artista, em Paris, removidos e
trazidos para Curitiba, e os dois grandes painéis,
de 6m x 4,5m, que ilustram as revoluções
libertárias pernambucanas e o martírio
de Frei Caneca. |
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As
fases
A exposição é organizada em módulos
representativos de cada um dos períodos, desde
o seu início, na década de 20, até
a década de 90. “Convém lembrar
que, principalmente a partir da década de 50,
as soluções plásticas adotadas
por Cícero Dias em algumas fases não são
estanques e exclusivas delas: expandem-se e prolongam-se
em outras fases”, ressalta o curador.
Parte das obras retrata o período modernista,
entre os anos 20 e 30, e passam pelas fases subseqüentes
dos anos 40, englobando o período de Lisboa,
a série Vegetal e o início da desconstrução
da forma que vai desaguar na abstração,
a partir dos anos 50.
As obras do final da década de 30 até
os anos 40 compreendem o período figurativo de
Cícero Dias. Ele se dedicou ao gênero desde
a sua chegada em Paris, em 1937, depois em Lisboa, entre
1943 e 1945, período em que viveu em Portugal
devido a Segunda Guerra Mundial. “O período
de Lisboa é uma linha de passagem do artista,
onde gradativamente vai deixando a figura –na
busca de uma essência mais abstraída- para
criar nesse período a Série Vegetal”
afirma o curador.
A fase dos anos 50 demonstra o período em que
Cícero Dias se envolveu com o grupo Espace e
a Ècolè de Paris, integrado por artistas
de várias nacionalidades que, como ele, tornaram-se
exclusivos da Galerie Denise René. A produção
do artista neste período é notadamente
composta por obras abstratas. Já no final dos
anos 50, simultaneamente com a produção
abstrata, começaram a surgir algumas obras figurativas
impregnadas de lirismo, onde as temáticas evocam
com saudosismo as cenas pernambucanas, chamadas de “Figuração
Lírica”.
Extremamente envolvido com a arte abstrata, Cícero
produz nos anos 60 uma pequena série de obras
abstratas informais. Segundo o curador, nessa série
Cícero utiliza como linguagem a abstração
informal, jogando nas telas com o contraste da luz e
da sombra. A paleta torna-se mais suave. Esta série
é chamada de Entropia.
Após esse curto período, o pintor voltou
a concentrar a sua produção na figuração,
que nunca mais abandonou. “Entre os anos 70 e
90 há a consolidação dessa nova
figuração. Nela há a interação
das formas geométricas e figurativas, surgindo
uma pintura figurativa mais estruturada e complexa”,
explica o curador. Os dois grandes painéis, de
6m x 4,5m, que ilustram as revoluções
libertárias pernambucanas e o martírio
de Frei Caneca, representam a produção
mais marcante desse período. |
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A
Vida e a Obra de Cícero Dias
Considerado um dos mais importantes artistas brasileiros
do século 20, Cícero Dias foi o pioneiro
do surrealismo e da abstração na América
Latina. Ele foi contemporâneo e amigo de artistas
e intelectuais que viveram o auge do período
modernista.
Os escritores e poetas Mário de Andrade, Gilberto
Freire, Murilo Mendes, Raquel de Queiróz, João
Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego e os pintores
Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Anita
Malfati e Lasar Segall são algumas das personalidades
com quem o artista manteve intenso convívio.
Vivendo em Paris, desde 1937 até 2003, quando
faleceu, aproximou-se também da intelectualidade
local e tornou-se grande amigo de Picasso e do poeta
Paul Éluard, além de dezenas de outros.
Ativo protagonista de uma história em que vida
e obra fundem-se aos episódios políticos
mais marcantes no Brasil e no exterior, os críticos
afirmam que Cícero Dias soube manter-se fiel
aos seus ideais de liberdade na expressão de
sua arte e como cidadão do mundo.
O artista fixou-se em Paris, a partir de 1937, fugindo
das pressões e do arbítrio do Estado Novo
no Brasil, e, entre 1943 e 1945, em Lisboa, por conta
do nazismo que assolava a Europa. Cícero foi
para Paris a convite de Di Cavalcanti, que lá
vivia na época. A passagem dele por Portugal
foi especialmente importante. Foi lá que ele
se casou com a francesa Raymonde Voraz, que conheceu
nos meios artísticos de Paris.
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O
artista, que fugiu das perseguições dos
fascistas em Pernambuco, caiu nas mãos dos nazistas
alemães. Ele foi detido e enviado, em 1941, para
uma prisão de Baden-Baden, na Alemanha, para
ser, junto com outros, trocado por prisioneiros alemães
que estavam no Brasil.
“Convocado” pelo amigo Picasso, retornou
a Paris, em 1946, onde permaneceu até falecer
em 2003. Na dedicatória de uma peça de
teatro de Picasso, intitulada “O prazer agarrado
pela cauda”, o pintor espanhol escreveu: “Para
Dias, cuja presença em Paris é necessária”.
Porém, mesmo com a proximidade de tantos mestres
e de uma arte efervescente após a guerra, Cícero
manteve-se sempre um artista brasileiro em Paris ou
Lisboa.
“Antecipava Cícero Dias o abstracionismo
e o construtivismo no Brasil. Era mais uma vez um desbravador.
Integrou-se à Escola de Paris, mas se manteve
sempre brasileiro. Irmanava-se ao geometrismo, que também
seduzia Arp, Magnelli, Delaunay, Vasarely (...)”,”,
escreveu Mário Hélio Gomes de Lima, no
livro “Cícero Dias – Uma vida pela
pintura”, sobre a produção abstrata
do artista.
Enquanto a força expressiva de sua obra continuou
a irradiar e a repercutir na arte brasileira. Em uma
“orgia” de cores vibrantes e formas figurativas,
abstratas ou geométricas, as pinturas e os desenhos
de Cícero Dias estão inundados da poética
e do imaginário de sua inesquecível Pernambuco. |
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Amigo
de Picasso
“Ao chegar a Paris em 1937, Cícero Dias
foi tomado de imediato pelo choque estético:
a excelência expressiva de “Guernica”,
o vigoroso brado de Picasso sobre a guerra civil da
Espanha. Foi o primeiro alumbramento estético
do brasileiro na Europa. Nasceu entre ambos uma intensa
afinidade eletiva tanto na acepção intelectual
quanto de diversão.
Como as suas grandes amizades no Brasil, esta também
nascia na boêmia, nos cafés parisienses.
Picasso foi um dos ilustres que compareceram à
primeira exposição de Dias, na galeria
Jeanne Castel, e destacou, além da sua condição
de “pintor e poeta”, o intenso colorido
tropical daquelas pinturas.
Dias passou a freqüentar assiduamente o ateliê
de Picasso. A intimidade amplia a cumplicidade entre
os artistas e, com o advento da Grande Guerra, aprimora-se
em solidariedade. Ao seguir para Baden-Baden, em 1941,
sob as ordens alemãs, Cícero Dias recebe
de Picasso um desenho como regalo. Era comum, aliás,
entre eles deixar quadros nos ateliês do outro.
Quando Dias foi expor em Portugal, Picasso fez seu retrato.
Mas não foi possível expô-lo devido
a censura do patrocinador das mostras (Lisboa e Porto):
o governo Salazar, inimigo franco do pintor de “Guernica”.
No entanto, outro presente do espanhol fará o
brasileiro retornar à França: na dedicatória
do seu livro “O Prazer Agarrado pela Cauda”,
Picasso diz que “a presença de Dias em
Paris é necessária”.
Foi um retorno definitivo que ainda mais aproximou os
amigos “pra toda vida”. Logo Picasso aceitará
ser padrinho da única filha de Cícero
Dias, Sylvia. E também por solicitação
do brasileiro autorizará a ida de “Guernica”
e diversos quadros para a segunda bienal de São
Paulo, iniciada no final de 1953.
A cumplicidade familiar e boêmia também
proporcionou aos amigos situações pitorescas,
como: Picasso, para esconder-se de assédios preferiu
que, durante vários anos, fosse mantido no nome
de Cícero Dias um telefone que era seu.”
(trecho do livro “Cícero Dias – Uma
vida pela pintura”, produzido pela Simões
de Assis Galeria de Arte, em 2001). |
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