O acervo resgata e preserva a memória
da ocupação do território paranaense

O acervo do historiador David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990), adquirido pelo Governo do Paraná e incorporado ao Museu Paranaense, em dezembro de 2004, é um rico conjunto de peças, obras de arte e objetos que resgatam, preservam e divulgam a história do Paraná. “A compra de acervo é um fato raríssimo na história do Brasil. Não temos notícia de uma aquisição deste porte há muitas décadas. Essa compra comprova a sensibilidade do governador Roberto Requião para a área da cultura”, afirma a secretária da Cultura, Vera Mussi.

Com 555 peças em exibição, que incluem mobiliário, livros, documentos, numismática, ferramentas, utensílios, porcelanas, indumentária, armarias e obras de arte, a exposição segue um roteiro baseado na ocupação do território paranaense. Resultante da parceria entre o Museu Oscar Niemeyer e a Secretaria de Estado da Cultura, a concepção da mostra é assinada por uma comissão organizadora integrada pelos historiadores Aymoré Índio do Brasil, Regina Elena Iório e Renato Carneiro.
 
O Primeiro Museu
por Valéria Marques Teixeira, historiadora
O Museu Coronel David Carneiro foi criado em 1928, mas sua sede definitiva - um prédio com mais de 3 mil metros quadrados, projetado por David Antonio da Silva Carneiro Júnior – foi inaugurado em 1952, junto à casa de seu proprietário, com entrada pela Rua Comendador Araújo. O professor David Carneiro reuniu, durante a vida, coleção representativa da História do Paraná e do Brasil.

O seu museu foi considerado a maior coleção particular de antigüidades do Estado, e uma das maiores do País - possuía um acervo de mais de 5 mil itens, em que se destacavam uniformes e armas militares usados na Revolução Federalista e na Guerra do Paraguai, documentos e objetos históricos, como os mais de cem quadros de personalidades da vida pública paranaense, raridades que o próprio professor David tinha o hábito de mostrar aos visitantes, a quem recebia como amigos.

Inspirado e concebido dentro da Filosofia Positivista, de acordo com a doutrina adotada por seu idealizador, o Museu David Carneiro abrigava uma sala de conferências sobre o positivismo, realizadas aos domingos, e a Capela da Religião da Humanidade, local onde se evidenciava o gosto clássico que a arte positivista pressupõe e que estava consagrada nas obras ali representadas.
 
De acordo com Augusto Comte, fundador do Positivismo, a Humanidade é o “Grande Ser” que abrange a totalidade histórica. O Grande Ser é o “motor imediato de cada existência individual ou coletiva”, que inspira a fórmula máxima do Positivismo: “O amor por Princípio, a Ordem por Base e o Progresso por Fim”. A religião Positivista, natural, racional, científica e exclusivamente humana, não admite mistérios, revelação, vontade sobrenatural e nenhuma crença cuja exatidão a sua razão não tenha podido demonstrar. Baseia-se no conhecimento do mundo e pretende concorrer para o aperfeiçoamento moral, intelectual e prático da Humanidade.

David Carneiro norteou sua vida pelo catecismo Positivista e contribuiu de maneira sistemática para a propagação dessa doutrina no Paraná, orientando incansavelmente todos que quiseram dela usufruir. O Museu Coronel David Carneiro foi fechado definitivamente em 1994. Em dezembro de 2004 foi desapropriado pelo Governo do Estado do Paraná e suas peças incorporadas ao acervo do Museu Paranaense.
   
David Carneiro, uma grande obra
* por Wilson Bóia
Dos historiadores paranaenses já desaparecidos e entre os em exercício, o professor David Antonio da Silva Carneiro (1904 – 1990) destaca-se como um dos que mais trabalhos escreveu e publicou no esforço de resgatar, preservar e divulgar a nossa memória.

Nascido em Curitiba a 29 de março de 1904, David Carneiro inclinou-se inicialmente para a carreira militar. No entanto, a morte de um amigo, Newton Prado, no episódio dos “18 do Forte” (1922), época em que estudava no Colégio Militar do Rio de Janeiro, levou-o a desistir da farda. De volta a Curitiba, matricula-se na Faculdade de Engenharia, diplomando-se em 1928. No ano seguinte, 1929, o historiador começa a produzir a sua enorme biografia, redigindo um opúsculo sobre Guilherme Frederico Virmond, alemão de nascimento e possivelmente o primeiro pintor a se radicar no Paraná.
 
E mesmo que, ainda no ano de sua formatura, tenha sido obrigado a assumir a empresa da família, por causa da morte do pai, um dos mais importantes industriais do mate do Paraná, David Carneiro conseguiu conciliar as atividades de empresário com as de historiador. É ainda nessa época que começa a tomar forma outra grande obra do autor, o “Museu Coronel David Carneiro” (em homenagem ao seu pai), de início um repositório de peças vinculadas ao Cerco da Lapa (1894) e hoje reunindo um dos mais preciosos acervos de objetos que contam a História do Paraná.

E é justamente com “O Cerco da Lapa e seus Heróis”, trabalho publicado em 1934, que David Carneiro começa a se impor no cenário local, destacando-se como um pesquisador de grande fôlego e profundamente vinculado às coisas de sua terra. Ainda dentro desse tema – A Revolução Federalista – o historiador produziu vários trabalhos, revelando-se uma das maiores autoridades no Paraná sobre o assunto.

No entanto, logo cedo, o autor não restringe sua produção à História do Paraná ou apenas à História. No mesmo ano da publicação de seu “Cerco da Lapa”, escreve “Casos e Coisas da História Nacional”, fazendo a primeira de uma série de incursões pela história do País. Da mesma forma, começa a se revelar também o David Carneiro cronista, poeta, ensaísta e romancista, além de biógrafo e jornalista. Positivista, por arraigada convicção desde os primeiros anos da juventude, começou a dedicar também a essa filosofia um bom espaço em suas produções.
Em 1943, David Carneiro deixa a direção da empresa de família e passa a se dedicar com maior vigor à produção cultural. É dessa época o seu primeiro romance histórico, “O Drama da Fazenda Fortaleza”. Nesse livro, se o romancista dá vivacidade às cenas e aos personagens, o historiador não deixa de compartilhar da trama, revelando ao leitor os sertões de Tibagi no século XVIII. Ao mesmo tempo, comparece o pesquisador atento, que recolheu elementos de um fato verídico, revivendo a tragédia.
Paralelamente, quase que religiosamente, a cada ano, publicava um novo livro, o historiador dava início também à sua carreira como professor. De 1949 a 1953, dirigiu a Escola de Música e Belas Artes do Paraná, acrescentando aqui mais uma especialidade em seu múltiplo currículo, o que professor de “Arquitetura Analítica”.

Na década de 50, demonstra mais uma vez sua versatilidade, assumindo a cadeira de “Evolução da Conjuntura Econômica”, na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Paraná. Esta carreira não existia e foi criada especialmente para ele. E seu envolvimento com esse campo, estimula-o a produzir vários e importantes trabalhos sobre a história econômica do Paraná, revelando alguns aspectos pouco conhecidos de nosso passado. Além da Universidade do Paraná, esteve ainda vinculado à Universidade de Brasília, onde foi professor titular de História.

Na década de 60, David Carneiro dá início a uma outra fase de sua carreira como professor, a de professor-visitante em universidades dos Estados Unidos. As universidades de Nebrasca, da Califórnia (Ucla), de Harvard e de Miami são algumas escolas daquele país onde ele lecionou História e Economia.


* Texto de Wilson Bóia, incluído no livro “Gente Nossa, Coisas Nossas”, que fala sobre diversas personalidades paranaenses. Bóia, já falecido, foi o biógrafo do historiador David Carneiro
   
A obra
Os textos de David Carneiro somam-se às dezenas, vários deles vertidos para o inglês, francês, italiano e espanhol. Tomando especificamente os que dizem respeito à História do Paraná, é possível encontrar aí uma rica e viva fonte de subsídios para se entender, estudar e pesquisar o nosso passado.

Dos seus romances históricos, é possível destacar o já citado “Drama da Fazenda Fortaleza”, “Bárbara Heliodora”, “Juca Teodoro”, “Um Noivado em 1894” (reeditado posteriormente como “Bodas de Sangue”) e “O Prussiano Pacifista”.

Em relação à História do Paraná, eis alguns títulos: “O Cerco da Lapa e seus Heróis”, Os Fuzilamentos de 1894 no Paraná”, “O Paraná e a Revolução Federalista”, todos em torno do mesmo tema; “A Vida e a Obra de Afonso Botelho Sampaio e Souza” (importante documento sobre as bandeiras militares e de conquista dos sertões paranaenses, na segunda metade do século XVIII e um dos assuntos também prediletos do historiador); “História do Período Provincial do Paraná”; “História da História do Paraná”; “História do Incidente Cormorant”; “Efemérides Paranaenses”; “Galeria de Ontem”, e dezenas de outros textos.
 
Quanto à História do Brasil: “Tiradentes”; “ Floriano – Memória e Documentos”; Dos Troféus na História do Brasil”; “História da Guerra Cisplatina”; “Casos e Coisas da História Nacional”. Ensaios: “Educação e Universidade”; “Ensaios de Interpretações Morais”; “A Marcha do Ateísmo”; “Dos Ciclos Irreversíveis em Cicloeconomografia”; “Brasília e o Problema da Federação Brasileira”; “Museus”; “Hipócrates e a Locação das Cidades”. É ainda de sua autoria uma “História Geral da Humanidade Através de Seus Maiores Tipos”, em sete volumes.

Há que, por fim, destacar o David Carneiro cronista, que manteve durante longos anos a coluna “Veterana Verba”, no jornal “Gazeta do Povo”, de Curitiba. Já o David Carneiro poeta coleciona também uma razoável produção, embora apenas parte dela seja de conhecimento público.




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