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A
exposição A arte sob o olhar
de Djanira, com curadoria de Pedro Martins
Caldas Xexéo e Laura Maria Neves de Abreu, relata
o generoso sentido de brasilidade da artista. Aproximadamente
80 obras, provenientes do acervo do Museu Nacional de
Belas Artes do Rio de Janeiro (MNBA), entre pinturas,
desenhos, gravuras e matrizes, demonstram toda a poética
de Djanira (1914-1979) na representação
do imaginário popular brasileiro.
Segundo o diretor do MNBA, Paulo Herkenhoff, “nenhum
artista jamais percorreu tantos espaços do imaginário
e das festas da gente brasileira, da religião
e da paisagem, das crianças e do trabalho em
todos os quadrantes de nosso País como Djanira”.
Herkenhoff ressalta que esta é uma das duas maiores
exposições da artista já realizada
em todos os tempos, envolvendo o trabalho de Djanira
em toda a sua dimensão. “Djanira foi a
grande intérprete modernista do Brasil. Depois
das experiências das vanguardas dos anos 20 e
30, escassa em obras, o Brasil explode na paleta de
Djanira.” |
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| As
Obras |
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A seleção de pinturas
presentes na exposição inclui peças
significativas da produção de Djanira
nas quatro décadas de sua atuação.
O curador Pedro Xexéo afirma que, “na medida
do possível”, incluiu alguns dos temas
exercitados por Djanira como o retrato; os temas lúdicos
como o futebol, a música popular, as atividades
circenses, o teatro; a representação de
pequenas unidades urbanas; a natureza morta, além
das diversas atividades representativas do trabalho
“–provavelmente a vertente mais vigorosa
do trabalho de Djanira”. Ele ressalta que também
estão presentes as famosas pinturas da artista
que representam os trabalhadores das salinas, os beneficiadores
de cal, os mineiros que “laboram nas profundezas
das minas de Santa Catarina e a extração
de ferro em Minas Gerais”.
Retrato de Senhora, de 1942,
é a obra mais antiga. Xexéo recorre à
reflexão de Flávio de Aquino para ponderar
que esta seria a obra mais representativa do período
em que a pintura de Djanira era “sombria, de tons
rebaixados, sem as cores vivas e cruas que a caracterizarão
por tanto tempo”, segundo a opinião de
Aquino.
Outra obra importante é O Circo,
de 1944, “onde se aliam espontaneidade com domínio
da composição, e Caboclinhos,
que proporcionou à artista o Prêmio de
Viagem ao País, do Salão Nacional de Arte
Moderna de 1952. O curador também destaca dois
esboços preparatórios denominados Indústria
Automobilística e
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Petrobras,
ambos são estudos para o painel decorativo do
navio Princesa Isabel. Xexéu é curador
de pintura brasileira do MNBA.
“Djanira nos legou uma produção
artística numerosa e dentro deste universo a
quantidade de desenhos é excepcional”,
ressalta a curadora Laura Abreu, que se dedica ao estudo
das gravuras feitas pela artista. Segundo ela, “o
desenho era para Djanira um exercício, uma prática
necessária. A obra sempre nascia a partir do
desenho. O grafite, a caneta esferográfica, o
crayon ou o lápis de cor sobre o papel registrava
os primeiros momentos da composição, que
se complementava através da utilização
da têmpera a guache ou da tinta a óleo”.
Laura diz que o exercício do desenho deu a Djanira
a segurança do traço. Além do desenho,
a artista também fez gravuras em madeira, linóleo,
metal e serigrafia, e painéis feitos em azulejos.
Para a exposição, a curadora selecionou
dois esboços a grafite para duas gravuras que
fazem parte do livro Oratório,
publicado em 1970. Outra gravura interessante é
a Bananeira e Cacaueiros ,
cuja matriz também está exposta. Ela destaca
ainda dois desenhos feitos a bico de pena: um chamado
Violinista e Pianista e o
outro, o desenho Sonho de Criança
Pobre, cuja obra, na opinião da
curadora, ilustra os momentos de dúvida da artista,
que ainda “na incerteza de qual temática
explorar, se abria a influências e ao conhecimento
de um novo mundo”.
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O
Brasil de Djanira |
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No
final dos anos 30, Djanira cuidava da saúde,
internada em uma clínica em São José
dos Campos, interior de São Paulo, e nunca
havia pintado. Segundo a curadora Laura Abreu, em
uma brincadeira a artista disse que “faria um
retrato melhor do que aquele que via pendurado na
parede”. Recuperada e entre várias mudanças
de endereços, em 1939 Djanira já morava
no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, onde
mantinha uma pensão. Foi nela que a artista
recebeu o jovem pintor romeno Emeric Marcier que,
em troca de pousada lhe deu aulas de pintura.
“A presença do europeu lhe trouxe o roteiro
para a descoberta dos tesouros que tinham ficado esquecidos
nos pálidos baús da infância (...)”,
escreveu, em 1945, o crítico Ruben Navarra,
amigo e grande incentivador da artista, que acompanhou
o crescimento do trabalho de Djanira, lembra a curadora.
Com o início da 2a. Guerra Mundial, jovens
artistas europeus vieram para o Brasil. “Como
Emeric Marcier, aqui chegaram Maria Helena Vieira
da Silva, Arpard Szénes que, juntamente com
os brasileiros Milton Dacosta, Carlos Scliar e outros,
privaram do convívio de Djanira, em Santa Teresa”.
Laura faz referência a uma declaração
feita pela própria artista anos mais tarde:
“Comecei a pintar desenhando o mundo modesto
que me cercava. Meus animais, minha varanda, o interior
de minha casa, o retrato dos vizinhos. Eram estudos
de observação amorosa das coisas que
estimava.” De acordo com a curadora, somente
em 1942 que Djanira apareceu no panorama cultural
brasileiro, participando do Salão Nacional
de Belas Artes e, no ano seguinte, realizou sua primeira
exposição individual na Associação
Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro.
Terminada a guerra, em 1945, Djanira partiu para uma
estadia de quase três anos nos Estados Unidos.
“Esta viagem lhe abriu horizontes.” Durante
essa estadia, conheceu Marc Chagall, Juan Miró
e Fernand Léger. “Ela trabalhou muito,
participou de exposições em Nova York,
Washington e Boston. Interessou-se pela arte dos muralistas.
Voltou, em 1947, para o Brasil e em seu trabalh foi
flagrante o apuro da técnica.”
“De volta à minha terra pretendo viajar
pelo Brasil, conhecê-lo melhor, e como meu destino
é pintar, pintarei tudo o que encontrar”,
declarou a artista na época, em uma entrevista
ao Jornal do Brasil. Na análise da curadora,
com esta declaração Djanira demonstrou
que “dissipara a dúvida que havia lhe
dividido por um tempo: ou fazia uma arte surrealista
romântica, como ela própria definira,
ou partia para a prática de uma arte voltada
para as raízes brasileiras. E a última
opção foi a que Djanira abraçou.”
Uma escolha que a própria Djanira relatou:
“Quando viajo pelo Brasil, descubro que ainda
tenho muito a pintar. São essas viagens que
engrandecem meu trabalho. Eu não poderia viver
entre quatro paredes e criar sem que meus olhos não
vissem a paisagem e os tipos que retrato.”
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