Pela primeira vez em Curitiba é exibida uma mostra individual da pintora e desenhista Niobe Xandó (São Paulo, 1915), considerada a precursora do realismo mágico no Brasil e autora de uma produção repleta de simbolismos e elementos gráficos. Abrangente, a exposição apresenta cerca de 240 obras, entre pinturas, desenhos, colagens e objetos. A exposição tem o patrocínio da Companhia Paranaense de Energia (COPEL) e o apoio do Ministério da Cultura, do Governo do Paraná e da Caixa.

“Para mim, o lúdico se configura como marca fundamental da personalidade de Niobe. Assim, fiz uma “brincadeira-mais-do-que-séria com as peças de um verdadeiro jogo-de-armar, para provocar o observador e permitir que ele mesmo faça um exercício e vislumbre mais junções inéditas e a remontagem imaginativa de uma nova mostra”, explica Antonio Carlos Abdalla, que organiza a quarta grande exposição da artista.

Apesar de afirmar que tem procurado explicar menos a curadoria em si “para, dessa forma, permitir ao visitante maior grau de liberdade”, o curador diz que procurou agrupar certas semelhanças e contrastes, construindo seqüências. “Além do percurso com variadas interpretações, a obra de Xandó se presta, também, a uma exposição multimídia, como esta, integrada com perfeição, no Módulo do Letrismo-Mecanicismo”. Módulo que, para compor o clima, tem a ambientação sonora da pesquisadora e meio-soprano Anna Maria Kieffer e Vanderlei Lucentini.

Letrismo-Mecanicismo

Das 13 fases existentes na obra de Niobe, aqui são exibidos trabalhos representativos de cinco delas segmentados como Flores Fantásticas, Máscaras, Letrismo, Mecanicismo e Abstracionismo Geométrico. Entre as obras referenciais de cada segmento estão Flor Fantástica XII (1964), Máscara CII (1967), Signos Verdes (1967), Black Power I (1970) e Geométrico LXVIII (1980). As obras são provenientes de coleções particulares, da Pinacoteca do Estado e do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

A utilização de símbolos ancestrais, elementos gráficos e recursos visuais bem humorados e de sentido religioso, assim como os recorrentes desenhos de máscaras, são característicos na produção de Niobe. O crítico de arte Orlando Margarido, por ocasião da mostra realizada na Pinacoteca, ao início da nota sobre a exposição, afirmou que “na arte brasileira, poucas obras em seu conjunto exigem tamanha capacidade de decifração por parte do espectador como as da paulista Niobe Xandó”, cuja “magnífica e enigmática produção” assemelha-se à do colega argentino Xul Solar (1887-1963), surrealista pioneiro em seu país.

Os primeiros exercícios no gênero fantástico, distantes da realidade, surgiram na década de 50 com a série de flores. Na seqüência, aparecem as misteriosas máscaras e a adoção de princípios do Letrismo e do Mecanicismo, ambos de origem francesa. São trabalhos produzidos entre os anos 1960 e 1970, em que a artista experimenta características dos dois movimentos franceses, com a utilização dos códigos alfabéticos e dos recursos geométricos.  Niobe Xandó dá sentido alegórico a palavras e nomes. Recorre a termos como Lourdes, poema e horas para a interferência visual, quase que confundindo o entendimento do espectador.

O Letrismo surgiu na França, em 1950, por meio do artista e teórico Maurice LeMaitre, um ex-dadaísta. Ele conheceu Niobe em Paris, em 1968, e a convidou para uma exposição de letristas no Museu de Arte Moderna de Paris; mas a artista não aderiu diretamente ao movimento. No Mecanicismo, ela cria, segundo Abdalla, “obras ainda mais originais e extravagantes”, com a utilização de arruelas, rolemãs, réguas, compassos e outros objetos inusitados. Nesse movimento, os artistas expressavam admiração pelas novas tecnologias e a tudo que remetesse à mecânica do mundo moderno.

Niobe Xandó iniciou a carreira na década de 1940 e produziu ao longo de 60 anos. Hoje tem 93 anos e por questões de saúde não trabalha mais. Ela foi uma artista autodidata que freqüentou o eclético ambiente cultural de São Paulo e Paris. Teve forte ligação com intelectuais de esquerda nos anos 1940 e 1950 e assistiu às manifestações estudantis de 1968, na capital francesa, o que criou grande impacto sobre sua produção. 

Cansei do mundo tal qual se apresenta!

por Washington de Carvalho Neves

O Museu Oscar Niemeyer acumula qualidades arquitetônicas e museográficas ao manter várias e amplas salas expositivas que aparentemente não se comunicam. O espectador entra em cada um dos salões e parece sair de experiências sensoriais diversas. Superficialmente se poderia afirmar que são exibições dissociadas, submetidas a percursos com começo, meio e fim. Mas a arte, felizmente, nos trai e vai muito mais longe.

O comentário natural é: gostei mais de tal ou qual exposição e ficar por aí. Olhar externamente para a presença marcante do prédio no cenário curitibano e ir embora. A visita arguta e de espírito aberto possibilita, em contraponto, constatar que nesse momento particular do cronograma da instituição, uma trama se engendra diante de nossas percepções ao apreciar as sensíveis exibições de Niobe Xandó, OSGEMEOS e os trabalhos artísticos em torno da psiquiatra Nise de Silveira.

Na vibração do mundo atual, em que tudo caminha para uma nova ordem mundial, vale revalidar a visita que o Museu Oscar Niemeyer suscita. Comecemos pela observação crítica de cada um dos conjuntos apresentados. Logo após é possível fazer uma amarração geral e encontrar as estimulantes convergências poéticas das três exposições em cartaz.

Niobe Xandó, com duas salas do museu, passa por um processo de grande visibilidade graças o empenho do pesquisador e curador Antonio Carlos Abdalla. A obra da artista é investigada por meio de cinco módulos. Todas elas comprovam como Niobe Xandó lida com o ancestral, o bom humor, a espontaneidade de gestos e aos procedimentos técnicos que remetem a uma urbanidade desenfreada, amalucada. Sua obra tem a característica do muralismo, das obras que têm a vocação para o ambiente público.

A produção de OSGEMEOS saiu das ruas e veio para o museu, sem perder o sentido panfletário das exaustões das cidades atuais. As criaturas humanas que circulam pelos trabalhos da dupla de artistas circulam na contramão da agressividade mais destilada e cruel que tomou conta do mundo e sugerem uma nova fórmula de convivência social, a que nos é possível. Tudo o que pode ser conferido na sala do Museu Oscar Niemeyer sugere um novo humanismo: transformar tanta “feiúra” e descontrole em algo digerível e oxigenado.

A função da arte e a relação arte e vida ganham dimensões sugestivas na exposição em torno da obra de Nise da Silveira. Como o nome da mostra sugere, Nise é enfocada como a rebelde (de justas e magnânimas causas). Os trabalhos produzidos por pacientes com distúrbios mentais emanam uma viva sensibilidade artística que nos mobilizam a sempre acreditar na superação dos mais dolorosos entraves humanos.

No “unidos venceremos”, Niobe Xandó, OSGEMEOS e as obras dos pacientes-artistas de Nise de Silveira injetam em Curitiba a necessária preponderância da arte desobediente e profundamente instigante. Conjuntamente essas exposições chacoalham o público do museu no sentido de uma reflexão que escapa do essencialmente estético e vai muito além. A arte afinal não é para botar medos interpretativos, causar mesuras e abordagens limitadoras.

Sem deixar de aferir as particularidades e complexidades de cada exposição (que obviamente são preservadas e muito bem exploradas pelas respectivas curadorias e pela própria organização do museu), a leitura das três exibições pode ter sentido comum e promissor. Isso é válido para o público geral, para o estudante de artes visuais e para aquelas pessoas que estão ligadas às questões contemporâneas, quer seja o leitor assíduo de jornais como aquele que não se cansa de descobrir as dimensões da internet.

Não é preciso temer uma floresta de signos ou de conceitos que essas mostras suscitam. O caminho sugerido para a compreensão é simples. Niobe, OSGEMEOS e Nise nos conduzem a uma visualidade que se encarna no domínio público, na vocação de que a arte tem elementos de uma revolução silenciosa, libertadora de tantas amarras e feliz, mesmo que oriunda de tantos embates.

São três mostras unificadas que podem ser traduzidas da seguinte forma: cansei do mundo tal qual se apresenta! Quero ver e sentir o que transforma e move as sensibilidades. Ou ainda: quero mais poesia nas ruas e nas mentes. A loucura libertada e dentro dos canais da sabedoria não faz mal. Ela é companheira de toda hora.

Niobe (observe a música incidental de Anna Maria Keiffer sonorizada na exposição) indica que estamos uma fábrica de imagens e frases riscadas no espaço imaginário. Osgemeos faz de um carro um bicho com um imenso carão afetuoso e de mãos acariciadoras. Os artistas que giram no universo de Nise suavizam a realidade da imperfeição (?) comportamental do mundo. Nessas exposições a indicação é que as amarras sensoriais são possíveis de serem desatadas: da intimidade para o externo e do exterior para o interno.

Pode ser exagero ou erro conceitual: mas a arte nos cura. Quem vê a arte com outros olhos pode mergulhar em novos padrões de concepção, mesmo não sendo artista. O Museu Oscar Niemeyer que merece longa e perene vida é esse incrível castelo contemporâneo das transformações pela arte. Niobe, OSGEMEOS e Nise merecem serem vistos assim conjuntamente e com grande contentamento.

 
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