A ciência como ponte para a arte
Humanista e libertária, em centros de tratamento sem grades, Nise da Silveira introduziu seus novos métodos na década de 1940, quando nem se discutia a humanização dos manicômios. Adotou a arte como um meio de compreensão e uma alternativa para tratar a loucura sem utilizar os procedimentos convencionais. Tornou-se um marco.
Por um período trocou correspondências com Jung. Discípulo de Freud e famoso por sua pesquisa sobre os sonhos e os símbolos, Jung incentivou Nise a exibir as obras de seus pacientes no II Congresso Internacional de Psiquiatria (1957), em Zurique. Diante de imagens ainda tão enigmáticas, orientou a médica que estudasse mitologia, como chave para a compreensão das obras criadas pelos internos.
Inicialmente destinada ao estudo científico, a produção dos pacientes foi tão abundante que surgiu a idéia de reunir as obras em um museu. Assim, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado. Hoje, apontado como um dos mais importantes do mundo, no gênero, seu acervo constitui um verdadeiro mapa antropológico da psique humana. Pela importância para a cultura brasileira, em 2004, a coleção foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A repercussão do rico e profundo trabalho desenvolvido por Nise da Silveira influenciou o surgimento de pesquisas e instituições semelhantes em outros estados, como Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia e até na Europa, como Portugal, França e Itália.
Método
O método de trabalho no Museu de Imagens do Inconsciente consiste, principalmente, no estudo de séries de imagens. De acordo com os especialistas, isoladas, parecem indecifráveis. Porém, organizadas em séries de imagens de um mesmo indivíduo, permitem aos terapeutas e pesquisadores melhor compreensão dos desdobramentos de processos intrapsíquicos e do quadro psicológico do paciente. Outras seleções reúnem temas de incidência freqüente em diversos casos clínicos, como mandalas, rituais, metamorfoses e animais fantásticos, entre outros.
Polêmica
No início da década de 1950, alguns críticos de arte se negaram a reconhecer o trabalho feito pelos pacientes. O crítico Mário Pedrosa caminhou contra a corrente. Ele criou, a partir dessa experiência, o conceito de arte-virgem. Em busca de uma designação para esse modo do fazer arte, surgiram outras denominações como arte-bruta ou outside, entre outras. Enfim, para Pedrosa serviu para definir a arte que não é forjada em escolas, realizada por autores sem formação artística.
“Pedrosa reconheceu a qualidade estética nos trabalhos de alguns autores, classificando-os como verdadeiras criações artísticas”, lembra Luiz Carlos Mello, curador e diretor do museu carioca. Segundo ele, Pedrosa argumentava que “o artista não é aquele que sai diplomado da Escola Nacional de Belas Artes, do contrário não haveria artistas entre os povos primitivos, inclusive entre os nossos índios”.
O curador trabalhou ao lado da psiquiatra Nise da Silveira durante 27 anos e produziu 15 documentários sobre as pesquisas científicas desenvolvidas por ela. “Os trabalhos, dentro do tratamento terapêutico, são como fotografias, instantâneas, do mundo interno, do inconsciente dos pacientes. Além de serem fontes de estudo sobre a situação psíquica de seu autor, muitos desses trabalhos têm qualidades estéticas.” |