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Abrigados
em uma grande maquete do Olho, de 4m por 1,70m, estão
três esquilos da mongólia, a destruir os
bonecos de papel machê e seus cinco delicados
vestidos de papel vegetal, em tamanho miniaturizado
de 30 cm. Nesse ambiente, a maquete do Olho repete-se
outras duas vezes, uma dentro da outra.
O
olhar do espectador caminha entre o real, que acontece
dentro da maquete, e o virtual, que está no
entorno. Esse olhar e o que acontece dentro da maquete
são registrados por câmeras embutidas.
Editadas e manipuladas, as imagens são projetadas,
sem ordem de tempo e espaço, em uma parede
expositiva, de 6m de altura por 28m de comprimento,
colocada à frente da maquete. Como resultado,
são obtidas imagens hiper-realistas, granuladas,
disformes e imperfeitas. Um halo de luz colorida atrás
da parede chama a atenção para uma espécie
de “fast-food” da arte. Todos os “produtos”,
identificados com a logomarca da mostra, custam R$
199,00 e podem ser adquiridos.
Ao
lado da maquete, uma grande vitrine exibe, em tamanho
real, a reprodução dos cinco modelos
de papel. No vidro, dezenas de palavras, aparentemente
aleatórias em forma de poesia concreta, indicam
sentidos de conceitos trabalhados. Todo ambiente é
envolvido por um ruído, criado em computador,
e por uma iluminação que valoriza as
linhas de Niemeyer.
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A
instalação
Na instalação, criada com exclusividade
para ser apresentada no Museu Oscar Niemeyer, o estilista
Jum Nakao, formado em artes plásticas, o cineasta
Kiko Araujo e o cenógrafo Julio Dojcsar, especializado
em intervenções urbanas, pensaram em
uma obra, não datada, que pudesse dialogar
com o espaço arquitetônico. O Olho, criado
por um dos maiores arquitetos brasileiros, está
exposto, o que era grandioso torna-se pequeno. “Qualquer
um pode olhá-lo de cima, como um deus contemplando
uma criação terrena”, afirma Júlio.
Jum complementa: “Em vez de preencher o imponente
espaço, nós o envolvemos, o tornamos
parte da obra”.
O
mesmo acontece com o visitante que, ao ser projetado,
passa a ser observado, inserindo-se também
na obra. Outra inversão da lógica. É
no virtual, a maquete, que acontece a ação
real. “É uma instalação
onde o espectador é instigado a unificar, a
conectar os fragmentos de uma obra que divide-se e
subdivide-se continuamente, rompendo com a linearidade
do tempo e do espaço”, continua Kiko
Araújo.
Antes
de chegar ao salão principal do anexo, o visitante
obrigatoriamente percorre um trajeto que os artistas
definem como “processo de construção
do imaginário do espectador”. A instalação
tem início no subsolo, ao final do túnel
que faz a ligação do Prédio Principal
ao Olho, e prossegue pelos outros três níveis
da base.
“A
idéia foi criar uma narrativa da exposição.
O público é conduzido por um caminho
que o leva a contracenar com a obra. O que é
público entra no Museu. Por isso, logo na entrada,
depara-se com um estêncil do esquilo da mongólia
grafitado e uma frase popular. É a conexão
com o que encontrará ao final do caminho”,
complementa Dojcsar. O estêncil e o grafite,
ícones da cultura popular, são os traços
de interferência do urbano, “transpondo
o museu para a cidade”.
No
piso seguinte, o visitante encontra uma exposição
de fotografias, de Sandra Bordin, dos bonecos da maquete,
vestidos com as mesmas roupas de papel. Os bonecos
das imagens estão em escala reduzida. Um piso
acima, a exposição de fotos se repete.
Porém, um olhar mais atento revela que os bonecos
foram substituídos, nas fotos, por modelos
reais. Entre pisos, estão as fotografias de
Fernando Louza, que mostram o momento do rasgar das
roupas no histórico desfile de 2004, realizado
pelo trio, no São Paulo Fashion Week. Antecedendo
o salão principal, as fotografias de Alexandre
Perroca exibem os bastidores desse desfile.
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Texto
Crítico
Por
Daniela Bousso
A inquietação, o desejo de ousar
e de mexer com as coisas, a busca de sentido
para a existência contemporânea
são presenças desde sempre na
trajetória do grupo formado pelos artistas
Julio Dojcsar, Jum Nakao e Kiko Araujo. Mas
estes componentes, aos quais chamo de ingredientes
dos nossos tempos, parecem ter se intensificado
desde 2004, quando o grupo realizou uma performance
na passarela do São Paulo Fashion Week,
na qual roupas extremamente elaboradas em papel
vegetal, desfiladas pelas modelos, foram por
elas rasgadas e destruídas em cena, inutilizando
meia tonelada de papel e mais de 700 horas de
trabalho.
Esse
processo de realização performática
repetiu –se, na seqüência,
na galeria Vermelho em São Paulo, a convite
dos galeristas, no intuito de se criar uma discussão
sobre arte e mercado. Das passarelas para a
galeria de arte, no mínimo o grupo atingiu
uma de suas metas, inspirada em Morin: fugir
das ações óbvias, procurar
novos caminhos e criar o que eles denominam
de “cartografia do invisível”.
Se, de um lado,o que se espera da moda é
que ela seja altamente consumível, a
ponto de cair no gosto popular atingindo às
massas, da arte o que se espera é que,
de certa forma, ela provoque no espectador sensações
de estranhamento, encantamento ou incômodo,
enfim, espera-se que a arte não deixe
que passemos impunes por aquilo que estamos
vendo ou daquilo que estamos participando.
Este
é bem o caso do trabalho deste trio de
artistas. Nas fronteiras entre arte e moda,
eles propoem trabalhos que envolvem cada vez
mais o espectador, bem à moda de Oiticica.
A instalação REVOLVER trata, por
meio da metáfora da urbanidade e do gigantismo,
da presença destrutiva do consumo na
sociedade urbana contemporânea.
A
alusão a estas questões vai ocorrer
em diferentes camadas durante a visita à
exposição: primeiro, o visitante
vai perceber a imponência da obra arquitetônica
de Oscar Niemeyer. O caráter monumental
do edifício adquire força em dobro
quando os artistas completam o preenchimento
dos vazios com um áudio de microruídos
e iluminação que amplia as suas
dimensões. Mas isso não basta
em REVOLVER . O próximo passo será
colocar o espectador diante do principal ícone
da exposição: ratos da mongólia,
( também já anunciados no saguão
de entrada da instalação), do
tamanho de um automóvel, devorando roupas
de 6ms de altura, apresentados a partir de uma
grande projeção, e sendo observados
por seres humanos, também enormes. Note
–se a velocidade desta projeção,
fora de sincronia e fora do tempo real, seguida
do som em descompasso com as imagens.
Na camada seguinte da instalação,
o público vai se deparar com a maquete
do museu – o olho - de Niemeyer. Tudo
o que parece surreal na verdade é real.
O edifício em forma de olho existe e
a maquete apenas utiliza a metáfora do
excesso e da repetição. No interior
da maquete, réplicas hiper realistas
de roupas sobre bonecos, um universo em miniatura
aonde novamente ratos se alimentam das obras
expostas: roupas e bonecos, a serem destruídos
sob os olhos do espectador.E a maquete se repete
dentro da maquete.
Espaço
real, espaço virtual, repetições,
réplicas, bonecos, alteração
de temporalidades. O virtual ocupa o real, o
tempo é subvertido, e de repente, o visitante
é submetido a mais uma etapa, mais um
trabalho para o “loop” do raciocínio,
como já bem disseram os artistas.
Última
etapa: por trás das projeções,
o espaço de um supermercado reproduzido
apresenta gôndolas e produtos deslocados
do seu contexto cotidiano para o interior do
museu.Tudo à venda, com um aplique do
ícone da exposição, o esquilo
da mongólia.Tudo invertido: o espaço
do museu transformado em supermercado de obras,
o status da galeria de arte relegado ao de supermercado,
o ready- made exposto em série, industrializado,
arte e consumo problematizados, eis aqui a metáfora
do excesso, a metáfora do “loop”
na sociedade contemporânea, no mais perfeito
estilo “híbrido”, fazendo
uso de novas tecnologias, esculturas, objetos,
apropriações, que ironiza a modernidade
líquida e que coloca em risco o estatuto
do museu, o da moda e o da própria arte,
pelas vias do consumo e da banalização,
pela repetição e pelo excesso.

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