Sobre um nome riscado à linha do horizonte
Diógenes Moura
curador
Quando o fotógrafo Roberto Linsker escreve, no texto de abertura do livro Mar de Homens, sobre Benedito das Purificações, 87 anos, pescador de águas sagradas que ele encontrou lá pelas bandas de Corumbau, na Bahia; quando repete que Benedito das Purificações apertou sua mão, depois de lhe contar uma vida, e foi embora sem nada lhe pedir – o homem, sua memória, a família, o mar -, ali está a fatura poética e o que quer “dizer” a série Mar de Homens: uma peregrinação entre mitos e realidade que durou cerca de oito anos, da Costa de baixo à Costa de cima de um mesmo Brasil, onde homens e lendas, vida e morte se completam e nascem outra vez para que a história de todos eles, e das águas que os cercam, vença noites de tempestades e dias de sol a pino, que salgam mãos e rostos, para fazer nascer seres “de espuma e outros de vidro anoitecendo”.
São quase épicas essas fotografias. Vê-las, assim, do ponto de vista do tempo e do significado que cada uma das imagens imprime com suas histórias, e ao guardá-las em nichos, é esse gesto – que nos aproxima de um mundo tão real quanto distante -, que faz surgir, de lá de dentro das páginas de Mar Morto, daquele, e desse espírito romanceado de líquidos e alma, uma pergunta que só poderia ser mesmo feita pelo povo do mar: Os homens da terra (o que sabem os homens da terra?). Isso para não confundir os raios da lua com os cabelos de Yemanjá. Então essas fotografias também nos falam de uma certa fé, impune como um punhado de arrecifes, que dão sentimentos às famílias das águas que por ali nascem, e por ali crescem, e vão para o mar e ou voltam ou não voltam, como nunca voltou João Batista, homem de Maria de Lourdes, mestre de canoa, daqueles que sabem sobre o vento e que ficou por lá, entregue aos raios doces da Deusa profunda, mãe de Exu.
São os olhos de Linsker que nos contam essas histórias. Desse jeito, assim, quando a fotografia encontra o impulso para seguir adiante: fazer do tempo o sentido para as suas lembranças. As lembranças de todos esses personagens, drapeados por Deuses, suor e sargaço. De uma lembrança fugidia dentro de um mesmo país que não se sabe direito quem é. Algumas dessas imagens ultrapassam qualquer representação estética (flechando no coração o “coma” do rigor formal) para construir quadros em que palavras não chegam onde precisam ir. Por mais que se tente, em muitos momentos, Mar de Homens vence o verbo. Se é que isso é possível. Quantos nomes têm essas imagens? Em quantas lendas cabe cada uma delas?

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