A
exposição na visão dos curadores
por
Filip Le Roy e Ed de Heer
Quando
ouvimos falar de artistas plásticos como Rembrandt,
Goya, Moore ou Picasso, imediatamente nos vêm
à mente imagens de esculturas e pinturas. Isso
é natural, pois a fama desses mestres se deve
a esse tipo de arte.
Mas
poucas pessoas sabem que esses artistas divulgaram
suas grandes obras através da xilogravura,
da gravura em metal e da litogravura. Além
disso, o grande público desconhece o fato de
terem sido essas as técnicas utilizadas por
eles para mostrar suas possibilidades totalmente exclusivas
de expressão.
Inicialmente
o artista usava a arte gráfica, de fato, como
catálogo: ele reproduzia e distribuía
uma amostra de suas obras às editoras e aos
amantes de obras de arte, conseguindo assim novas
encomendas. Mas logo se descobriu que nessa técnica
havia um caráter próprio, que ela podia
ir muito além do objetivo utilitário,
‘mercantilista’.
A
gravura tem características próprias,
que exigem um grande conjunto de meios, uma série
de passos intermediários, antes que a imagem
seja reconhecida como arte plástica. Não
demorou muito para os artistas descobrirem as possibilidades
envolvidas nesse procedimento de gravação,
permitindo novas formas de expressar seus sentimentos.
Assim, é justamente através do seu trabalho
gráfico que podemos conhecer melhor a personalidade
do artista.
Mas
isto não torna o trabalho gráfico evidente,
pois o espectador raramente capta esses traços
característicos, essa distância entre
a visão, o conceito e o trabalho em si. A produção
gráfica não tem por objetivo principal
a exclusividade, e esse fato gera confusão
e dúvida a respeito da autenticidade. Além
disso, uma vez que os trabalhos são na grande
maioria pequenos e nada extraordinários, eles
tendem a ser subestimados.
Nesta
exposição reunimos algumas gravuras
que são verdadeiras obras de arte. Elas demonstram
como os artistas, através dos séculos,
superaram de forma magistral o procedimento puramente
técnico dessa forma de expressão artística.
A
exposição “Seis Séculos
da Arte da Gravura” oferece uma amostra variada
e cativante desse campo da arte e de sua história.
As gravuras mostradas na exposição,
ao todo 150, fazem parte do acervo de museus e coleções
particulares da Bélgica, Alemanha, Holanda
e Suíça, e na escolha buscou-se obter
o máximo de representatividade. Assim, para
dar o devido embasamento, estão representados
os artistas mais importantes. Também se teve
o cuidado de fornecer, com essa seleção,
uma imagem fidedigna do tema escolhido e das técnicas
que os artistas gráficos utilizaram ao longo
dos séculos.
Episódios
importantes na história da reprodução
gráfica – como por exemplo a arte holandesa
no século XVII, a arte por volta de 1900 e
o Expressionismo Alemão – tiveram destaque
especial, ao passo que períodos pouco expressivos,
como o século XVIII, ganharam menos atenção.
Ao lado de obras de artistas famosos foram incluídas
gravuras de pequenos mestres, que não podiam
faltar em razão do alto nível e/ou da
originalidade de seu trabalho.
O uso da gravura no expressionismo
por
Carlos Martins e Valeria Piccoli
O
expressionismo é um fenômeno europeu
do início do século XX que encontrou
na Alemanha condições particularmente
propícias para seu desenvolvimento. Em 1905,
um grupo de artistas forma o Die Brücke (A Ponte),
que terá continuidade no Der blaue Reiter (O
Cavaleiro Azul), a partir de 1911. Apresentando propostas
revolucionárias para o fazer artístico,
esses artistas se opõem ao caráter essencialmente
sensorial do Impressionismo. Se por impressão
consideram a realidade que se imprime na consciência,
por expressão entendem a subjetividade que
se imprime à realidade. O Expressionismo pressupõe
o compromisso do artista com relação
às questões sociais e à situação
histórica, almejando uma relação
efetiva com a sociedade. Assim sendo, a questão
da comunicação é de fundamental
importância. Esses preceitos nortearam também
os expressionistas que não participaram dos
dois grupos seminais do movimento, e até mesmo
as derivações ocorridas em outros países.
Os
expressionistas recorreram largamente à gravura,
que, em seus primórdios, foi a forma mais simples
e direta de expressão e comunicação,
tendo se tornado uma tradição para ilustrações
na Alemanha. Assim, com a maneira artesanal pela qual
a matriz é feita, o artista deixa expressa
sua marca sobre a matéria resistente do metal
ou madeira; impressa a matriz, a imagem se multiplica
e propicia uma ampla circulação de suas
idéias.
A
linguagem formal da gravura se desenvolve ao mesmo
tempo que a da pintura, e, ao exercerem mútua
e íntima influência, constroem uma coesa
poética visual, até então inédita
em qualquer outro momento da história da arte.
A força das imagens deriva da rigidez e angulosidade
das linhas, da utilização de formas
maciças, da simplicidade arcaica do fazer e
da referência à arte dos povos de uma
civilização mais autêntica. Imagens
que prenunciam e registram um período entremeado
de melancólicos e negros presságios
de guerra e morte.
Schmidt-Rottluff,
talvez o mais contundente dos artistas do Die Brücke,
imprime em suas xilogravuras uma vigorosa tensão,
ao passo que, entre os expressionistas independentes,
Beckmann fere o metal com a veemência de sua
ponta-seca para apresentar um “circo”
de personagens e situações insólitas.
Otto Dix, personagem predominante no período
entre guerras, mostra o homem em sua penúria
e estado peculiar, com malícia e fealdade.