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Provenientes
do Museu Torres Garcia, as coleções exibem,
pela primeira vez no Brasil, os brinquedos desmontáveis
de madeira, pintados, e os desenhos do Universalismo Construtivo
do artista uruguaio Joaquin Torres Garcia (1874- 1949).
A mostra é composta de aproximadamente 250 obras,
que incluem duas coleções: Universalismo Construtivo
e Aladdin. A coleção do Universalismo apresenta
108 trabalhos, incluindo desenhos, objetos, pinturas e esboços,
e a coleção Aladdin exibe 142 trabalhos entre
estudos, pequenos cenários de teatro e brinquedos.
A
criação dos conceitos do Universalismo Constructivo
é considerada a obra-prima de Torres Garcia. Nele,
o uruguaio reúne suas experiências com as vanguardas
européias, no início do século XX.
De acordo com os curadores Jimena Perera e Alejandro Diaz,
bisnetos do artista, ele propõe a síntese
de estéticas como o expressionismo, o surrealismo
e o abstracionismo, com a inclusão de elementos inconscientes,
simbólicos, e que estariam no plano ideal, no eterno.
“No
meu tempo (falo de por volta de 1900) todos os artistas,
bons e ruins, costumavam falar de sentimento: eu sinto isso;
ou eu não o sinto; ou isto é muito sentido.
Pouco a pouco, tal maneira de se expressar foi se perdendo,
é que se foi substituindo o sentir pelo pensar. E
sobre a inteligência (o pensar) se quis fundar tudo.
Por isto as contas não saíram; e é
a falta de humanidade que se encontra na arte.”
Para
o artista, “toda verdade está em duas linhas,
uma vertical e uma horizontal”. Respectivamente, espírito
e natureza, o equilíbrio entre homem e criador, concreto
e abstrato. São esses conceitos, segundo os curadores,
que permeiam toda a obra do artista, embora ele só
tenha iniciado a redação de sua teoria a partir
de 1931. Em sua elaboração, a produção
de brinquedos é um dos capítulos mais significativos
na história de Torres Garcia.
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Os brinquedos
O pintor inicia seu projeto de fabricação
e distribuição de brinquedos desmontáveis
de madeira, aos 44 anos, ao final da Primeira Grande Guerra
(1914-1918), na Europa. Vivia um período de crise.
Identificado com o Noucentisme, movimento nacionalista catalão
com motivação política e cultural,
o artista tem seu momento culminante de vinculação
ao movimento quando recebe a encomenda para pintar cinco
murais para o Palácio da Assembléia de Barcelona.
Com inspiração neoclássica, mas modernos
em seu plano e geometria, pinta, entre 1913 e 1916, quatro
dos cinco murais.
Os
murais são encobertos por pinturas, ao gosto da burguesia
que as patrocinava, e o quinto permanece apenas esboçado.
Os murais de Torres Garcia são restaurados posteriormente.
Antes, trabalha com Gaudí na produção
dos vitrais da Catedral de Palma de Mallorca e da Sagrada
Família, até ocorrer a ruptura com o movimento.
É junto a essa busca de completa renovação
de sua pintura que inicia, artesanalmente, a fabricação
de brinquedos.
“Quero
explicar algo, com respeito a minha pintura, que acredito
ser útil recordar: em 1906 comecei a pintar afresco,
e tal pintura se inspirava nas formas clássicas das
pinturas dos vasos gregos, vale dizer, em imagens perfeitamente
normais. Esta pintura logo foi se desenvolvendo, mas dentro
do mesmo espírito: planista, ordenada, universal.
E sempre sem sair do aspecto normal. Por que não
continuei assim? Não me satisfazia. Via a possibilidade
de outra arte mais concreta. E então, de 1916 a 1924
comecei a descompor a imagem, e em realidade, a encontrar
uma estrutura. Por isso em 1928 e 1929, pude formular minha
teoria de Arte Construtiva, e, então, em um plano
universal.”
Torres
Garcia apresenta seus brinquedos pela primeira vez em Barcelona,
na exposição “Brinquedos de Arte”,
em 1918. Assim apresentavam-se os novos produtos, na busca
de comerciantes que os distribuíssem. Eram famosas
as edições da “Exposição
de Brinquedos e Artigos de Bazar”, na Universidade
Industrial. A recepção é muito boa,
mas o retorno financeiro não vem na mesma proporção
do sucesso das apresentações.
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Dois
anos depois, pressionado por sucessivas crises econômicas
e tendo nos brinquedos o meio de sustento e expressão
artística, o artista muda-se, com a família,
treze vezes, entre 1916 e 1926. De Barcelona segue para os
Estados Unidos, depois para a Itália, Sul da França,
Paris e Madri; até retornar, em 1934, para Montevidéu,
já aos 60 anos de idade. Suas iniciativas contaram
com a ajuda de inúmeros amigos, comerciantes, políticos,
artistas e intelectuais. Os brinquedos, desenhos, artigos,
pinturas e conferências sobre arte chegam a atrair a
atenção de artistas de vanguarda, como Miró.
Até constitui, em 1924, a Aladdin Companhia de Brinquedos,
em Nova York, destruída por um incêndio no ano
seguinte.
Apesar
dos brinquedos terem sido exportados para vários países
e serem apreciados em toda a Europa como obras de arte, pela
originalidade e linguagem estética, os negócios
não prosperaram e a fabricação em grande
escala é interrompida. Mantém apenas a empresa
Aladdin Brinquedos, produzidos pelo próprio Torres
Garcia com escritório comercial em Florença.
Já a Aladdin Companhia de Brinquedos, de Nova York,
era a empresa que emitia ações e possuía
uma fábrica para a produção de brinquedos,
sobretudo “cavalos mecânicos”, dos quais
chegaram a ser fabricados cem por dia. Com a extinção
dela, a produção de brinquedos retorna ao processo
artesanal, apenas como auxílio financeiro, e a pintura
volta a ser prioridade. |
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Pinturas
Construtivistas
A
partir de 1926, Torres Garcia vive, em Paris, o período
mais rico, artisticamente. Ele expõe em diferentes
galerias, vende tudo o que produz, e sua arte começa
a ser reconhecida. Entre 1927 e 1928 é influenciado
pela arte primitiva e pela arte negra, quando conhece
Piet Mondrian. Em 1929, pinta as primeiras obras construtivas
e sua pintura tende à abstração.
Então forma o movimento artístico “Cercle
et Carré” (círculo e quadrado),
junto ao escritor e pintor Michel Seuphor (1901-1999)
e outros artistas de vanguarda. O “Movimento
Círculo e Quadrado” surge com tendência
construtivista e abstrata, como uma espécie
de resposta ao surrealismo.
Já
em Madri, começa a desenvolver os conceitos
de seu Universalismo. Torres Garcia publica, em 1944,
o livro “Universalismo Constructivo”,
que tende à definição de uma
arte americana com vigência universal. Literatura
que é construída a partir de inúmeros
textos, anotações de diários
e desenhos, produzidos para ilustrar as conferências
que o artista realizou ao longo da carreira.
“A
atitude do artista diante do espectador deve partir
da base que está diante do homem de todos os
tempos, que está diante do homem de todos os
povos. Portanto, a linguagem deve ser a mais universal
e a mais compreensível. Geometria e simbolismo
teriam que ser a maneira natural de expressar o artista.
E foi assim que encontrando todas as peças
do quebra-cabeça, pude formá-lo por
inteiro”, escreve o artista em 1930, quando
trabalha a seção áurea de seus
estudos de relações geométricas.
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