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A
exposição “Guido Viaro –Um visionário
da arte” apresenta a maior retrospectiva da produção
do italiano Guido Viaro (1897-1971), que se radicou em Curitiba
a partir de 1929. Composta de aproximadamente 200 obras,
incluindo pinturas, desenhos, gravuras e esculturas, a mostra
integra um grande projeto de resgate da produção
do artista. O público poderá fazer a visitação
entre 29 de novembro e 04 de março.
“O Medo”, “O Homem sem Rumo” e “A
Polaca” são algumas das obras-primas presentes
na exibição. A maior parte das obras pertencem
à família do artista e apenas 30 delas à
colecionadores particulares e instituições
de arte. Complementando o projeto cenográfico, na
sala expositiva, o público poderá assistir
a um vídeo inédito sobre Viaro, elaborado
pelo neto do artista, Túlio Viaro, e também
poderá ver a projeção de mil e cem
obras catalogadas e fotografadas por Juliano Sandrini.
Todo o projeto de resgate da obra de Guido Viaro está
sendo desenvolvido sob a curadoria do filho do artista,
Constantino Viaro, em parceria com Estela Sandrini e Maria
José Justino. Além da apresentação
da retrospectiva de Viaro, no Museu Oscar Niemeyer, o grupo
prevê ainda a edição de um livro e de
um DVD sobre a vida e a obra do artista, e também
de um CD, com o levantamento de aproximadamente mil obras
fotografadas e catalogadas.
Segundo
o curador Franz Manata, a exposição procura
mostrar a face modernista da coleção relacionada
com alguns objetos indiciais, correspondentes ao período
de meio século de arte moderna brasileira. A curadoria
privilegiou duas vertentes artísticas: o abstracionismo,
dividido em informal e geométrico, e o figurativismo,
cujas obras foram agrupadas em seis núcleos.
Os
núcleos se dividem em realismo social, paisagem rural,
festas, naturezas-mortas, marinhas e paisagens urbanas.
“No figurativismo adotamos um critério oposto
ao utilizado no abstracionismo: em lugar de relações
formais, agrupamos as obras em função dos
gêneros temáticos nos quais a pintura já
era classificada antes do surgimento da arte abstrata”,
diz Manata.
A contextualização das 73 obras se dá
por meio da veiculação de músicas e
pela inserção, em cada núcleo temático,
de vitrines contendo publicações, publicidade,
objetos decorativos e utilitários, fotos e etc, que
evocam o ambiente histórico-social e o contexto imaginário
em que as obras foram criadas. Assim, por exemplo, pinturas
figurativas, pertencentes ao realismo social, são
contextualizadas por obras musicais da época, broches
de propaganda política apreendidos pela Delegacia
Especial de Segurança Política e Social do
Estado Novo e por objetos emblemáticos da rotina
dos trabalhadores brasileiros, como as tradicionais marmitas.
As
obras abstratas do núcleo informal têm a sua
contextualização assegurada pelo mobiliário
de Tenreiro que, de forma provocativa e lúdica, busca
abrir um novo caminho de percepção para os
artistas ali reunidos, como Maria Bonomi, Iberê Camargo
e Letycia Quadros.
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O
Artista
Críticos de arte e estudiosos da obra de Guido Viaro
afirmam que o artista “abordou com muita sensibilidade
e competência diversas problemáticas e gêneros
na arte”, entre eles, o social, o religioso, a paisagem
e o retrato por meio da pintura, desenho, gravura e escultura.
A curadora Maria José Justino diz que “em todas
essas experiências, salta o humanista, com uma linguagem
moderna, expressionista”.
Nascido na Itália (Badia Polesine, província
de Rovigo), Viaro escolheu o Brasil para viver. Desembarcou
no Rio de Janeiro (1927) e seguiu para São Paulo,
onde estabeleceu uma breve convivência com artistas
que mais tarde comporiam o “Grupo Santa Helena”
(Volpi, Clóvis Graciano, entre outros). Nesse período,
Viaro sobreviveu como ilustrador em jornais e realizou serviços
gráficos e afrescos em cafés, residências
e fazendas.
Mais tarde (1929), fixou-se no Paraná, onde constituiu
família, fez amigos e amadureceu como artista. Aqui,
“no meio da forte influência dos discípulos
de Alfredo Andersen e da tendência paranista, inaugurou
uma nova linguagem, uma pintura de cunho expressionista,
que soube diferenciar assunto de arte e uniu verdade à
beleza”, disse Maria José. Segundo ela, Viaro
foi precursor, entre nós, da linguagem estética
atualizada. Responsável, ao lado de Poty Lazzarotto,
pela ilustração da “Revista Joaquim”.
Além de grande mestre da arte paranaense, Viaro foi
o único a estender essa experiência ao trabalho
infantil, criando a primeira “escolinha de arte”
(1937), com a vontade e o compromisso de alargar a dimensão
estética aos menos favorecidos. “Essa preocupação
ética e social permanece presente em toda a sua obra.
É o primeiro a lidar com arte e educação,
não apenas no Paraná, mas no Brasil, no entendimento
profundo da arte como forma de elevar o homem.”
Para Maria José, “como ninguém, Viaro
teve a fina sensibilidade de perceber que fazer arte é
educar-se na liberdade instigando a curiosidade de seus
alunos –crianças, adolescentes e adultos –,
procurando abrir caminhos sem impor o seu próprio”.
Leonor Botteri, Ida Hannemann Campos, Luiz Carlos de Andrade
Lima, Jair Mendes, Fernando Velloso, Fernando Calderari,
Domicio Pedroso, João Osório Brzenzinski,
Estela Sandrini, Zimmermann foram alguns de seus discípulos.
“A arte foi a sua humanização, no diálogo
autêntico com a vida. Além de ensinar, sua
obra se abre generosamente para uma experiência singular
da beleza, fazendo-nos experimentar algo de vital, emoção
e prazer pela arte, ao mesmo tempo em que nos ensina o respeito
e amor pelo homem, pela mulher, pela arte e pela vida.”
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Nervuras
da Arte em Guido Viaro
por Maria José Justino
"Talhado a canivete
em madeira, como um ídolo asteca, brutal, não
é um anjo saudoso de um éden, mas o
anjo expulso do céu e, no entanto, orgulhoso
de sua sorte e força (…) duro e baixo
como uma casa de pedra". Foi desse modo que Dalton
Trevisan definiu o artista. Voluntariamente excluído
da província de Rovigo (Badia, Polesine), Viaro,
filho de pequenos agricultores, conservou-se a vida
toda esse homem da terra. Carnal, rude e generoso.
Nessa generosidade, o ateu Sartre podia conviver sem
atritos com São Francisco de Assis, as metrópoles
com sua pequena aldeia em Badia ou com a pequena Curitiba
dos anos trinta. Ele próprio, um ateu convicto,
acreditava no homem, na terra e na arte.
Nascido na Itália
(1897), Viaro fez do Brasil a sua escolha. Na Itália
dos anos vinte, viu a tradição da pintura,
desde a estrutura renascentista aos “macchiaiol”;
em breve passagem por Paris, encontrou os modernos.
Chega ao Brasil, em São Paulo, ávido
pelo exercício da arte. É acolhido pela
solidariedade dos imigrantes italianos, estabelecendo
uma breve convivência com artistas, que mais
tarde iriam compor o Grupo Santa Helena, em especial
Clóvis Graciano e Alfredo Volpi. Trabalhar
com ilustrações e humor nas revistas
e jornais italianos (Il Pasquino e Il Moscone), decoração
de cafés e residências, pintar murais
etc., além da convivência com pessoas
cultas (jornalistas, artistas, ecumênicos, profissionais
liberais), não deixava de ser um exercício
técnico importante para a formação
artística. Mais tarde (1929), fixa-se em Curitiba,
no Paraná. Aqui, no meio da forte influência
andersiana e da tendência paranista, a pintura
de Viaro vai se construindo como um contraponto. Fora
dessa celeuma, inaugura uma pintura essencialmente
moderna.
Fez da arte a sua
humanização, o seu diálogo autêntico
com a vida. Além de ensinar (Fernando Velloso,
Violeta Franco, L.C. Andrade Lima, Brzezinski, Calderari,
Zimmermann, Estela Sandrini, alguns de seus discípulos),
sua obra se abre prodigamente para uma experiência
singular da beleza e da verdade, fazendo-nos experimentar
algo de vital – emoção e prazer
pela arte e respeito pelo ser humano. Privilegiou
na pintura a luz – tanto no que trazia da experiência
européia e paulista como dos seus estudos sobre
Monet e Hopper (pintores escolhidos para ilustrar
suas aulas) –, mas também o traço
próximo à tradição de
gravadores e a estrutura construtiva de Morandi, do
pós-impressionismo de Cézanne e do retorno
à ordem (Novecento). O desejo de fazer uma
arte sólida por meio de uma construção
livre foi a escolha de Viaro.
No
final dos anos cinqüenta, Viaro não escapa
ao apelo do abstracionismo. Chega a experimentar essa
linguagem com obras de estruturas geométricas,
uma pesquisa voltada mais à matéria.
Ele próprio deixa escapar que se tratava de
uma experiência: “Estou à procura
de uma forma de sensibilidade pictórica e harmonia
musical dentro do abstracionismo, o que considero
ideal, se atingido algum dia. (...) Devido à
minha idade, não sei se conseguirei libertar-me
das influências figurativas e se algum dia chegarei
ao abstrato puro. “ A sua pintura não
se contenta em abstrair nem tampouco em reduzir-se
ao gestual; ela quer mais do que o exterior do movimento,
ela quer as cifras secretas do ser. Sua relação
com o mundo passa pelo profano, pelo matérico,
pela carne. Ele precisa dessa materialidade para se
expressar. Mas essa necessidade não abandona
a estruturação da obra. Como no caso
de Hopper, Viaro soube aproveitar a lição
abstrata incorporando-a na representação
realista. Suas paisagens e mesmo muitos dos trabalhos
com a temática religiosa posteriores a essa
experiência, ganham em liberdade.
A
sua relação com a arte é sempre
empática, é um adepto da subjetividade.
A objetividade não o seduz, mesmo porque faz
parte daquele grupo para quem a exatidão não
significa a verdade. O seu trajeto é uma luta
constante para escapar ao realismo objetivo e duro,
inclinando-se para a liberdade conquistada pela construção
moderna, independentemente das vanguardas históricas.
A poética de Viaro não está necessariamente
interessada na face bela das coisas, mas na sua intimidade,
distancia-se do naturalismo e do impressionismo, buscando
uma arte mais sólida. Viaro é o encontro
de muitas águas: construtivo e intuitivo. Em
sua obra não há oposições
entre expressionismo e formalismo; a construção
não exclui a expressão. Todavia, há
momentos na obra de Viaro quase impressionistas e
outros que o aproximam da poética pós-impressionista,
mais construtivos. Boa parte de sua extensa obra oscila
entre a estruturação construtiva e a
pincelada expressionista, sem necessariamente haver
oposição, pois, “afinal de contas,
a continuidade histórica depende das facetas
que se escolha acentuar, e nada seria mais equivocado
que estabelecer uma dicotomia na história da
arte moderna entre as correntes formalista e expressionista”
(Rosenberg).
Todos
esses caminhos são frutos da experiência
autodidata, “sem mestre e sem escola”,
brotada dos desafios de quem, de seu canto curitibano,
fazia a travessia da aventura da arte no mundo. Pacientemente,
Viaro foi construindo a sua poética, autêntica,
o que não a impede de dialogar com a história
da arte.
O
último Viaro inclinou-se para uma pintura de
síntese, deixando os brancos significarem.
Esses brancos já começam a ganhar atenção
em aquarelas da década de quarenta, em pinturas
como “Santa Ceia” (1954) e nos últimos
trabalhos, como “Paisagem” (1971). Para
Viaro, como para o pintor da Province, “os brancos
não são vazios, mas espaços nos
quais vibra a cor excessivamente saturada do toque
vizinho, uma zona de transição e de
passagem” (Cézanne). É um recurso
utilizado por Viaro para fazer a tela respirar, torná-la
viva. O silêncio fala, cria sentidos.
Reserva
para a gravura o seu lado existencial, expressando
não uma rebeldia social, mas uma solidariedade
com os mais simples. Mesmo nas gravuras, o lado mediterrâneo
sobrepuja a dramaticidade, o claro escuro da existência
humana. Entre as nervuras da madeira (xilogravura)
e as sendas indomáveis do metal, circula vida.
Se os medievais exaltavam, por meio da xilogravura,
os santos mártires, Viaro, com as suas, celebra
o homem simples no seu cotidiano, o trabalhador nas
suas lides. “A gravura vem de dentro”,
disse certa vez Viaro a Sérgio Milliet. Profundo
conhecedor dos mistérios do traço, Viaro
reinventou, por necessidade, a zincogravura, que nada
mais é do que o aproveitamento das placas de
zinco (reaproveitamento das placas que lhe advinham
como ilustrador de revistas, jornais etc.), desenvolvendo
uma água-forte impressa não em côncavo,
mas em relevo, como o processo mesmo da xilogravura.
A
modernidade de Viaro foi, então, um caminho
natural de quem vinha para o mundo da arte sem uma
escolaridade tradicional. A sua pintura festeja a
cor; as gravuras reafirmam o peso da vida. Da pintura
à monotipia, da gravura às aquarelas,
em menor escala na escultura, a preocupação
técnica o acompanhava. Há momentos extraordinários
do Viaro pintor, em especial nos retratos. Entre eles,
chamo a atenção para “O Medo”,
“O Homem sem Rumo” e “A Polaca”,
uma das melhores obras de Viaro. É uma pintura
que capta a alma da jovem, o seu interior, suas vibrações,
sua luminosidade, seu perfume. As cores quentes dominam.
O fundo pode revelar certa espiritualidade nas nuanças
dos azuis, também no azul do olhar da jovem,
mas a sensualidade se sobrepõe na escolha do
vermelho como dominante no vestido e no carmesim dos
lábios. O etéreo ganha carnalidade.
Até o louro dos cabelos ondulados recebe reflexos
do vermelho. Revela um pintor apaixonado: pela modelo,
pela pintura, pela luz, pela cor. É uma mulher
real que possibilita ao artista alcançar valores
universais. É uma mulher loira particular,
polaca, italiana ou alemã, enfim, uma mulher
feita de luz, etérea; ao mesmo tempo, a pintura
suplanta o referencial a uma mulher específica,
galga uma transcendência, uma autonomia, são
todas as mulheres em uma só, todo o feminino
sintetizado. Há uma interação
entre o mundo fenomenológico e o transcendental,
do mesmo modo em que a tensão entre construção
e emocional é resolvida. É uma pintura
quase de manchas, que o aproximaria tanto dos impressionistas
como dos *macchiaioli*, mas nela a expressão
se afirma de maneira forte, as pinceladas nervosas
captam o essencial. É uma pintura que estrutura
as massas, onde o contorno não é um
coadjuvante, mas nervura da obra. Incrível
como a leveza dessa pintura no ar expressa a espiritualidade
da jovem. É como se Viaro tivesse pintado essa
obra de um só impulso, e trouxesse o infinito
de um só golpe. Nada falta e nada sobra. A
displicência das linhas desenhando a gola e
as mangas do vestido é exata. Não houve
escolha premeditada, os gestos aconteceram na medida.
Primado da sensibilidade, da intuição
e do instinto, brotados de uma região mais
bruta, por isso mesmo tão sensível.
Nessa obra, Viaro é soberbo!
E
poderíamos falar de tantas outras obras de
Viaro com igual entusiasmo.
O
que importa é que Viaro toma a arte como um
exercício estético e ético que
leva ao conhecimento do mundo cósmico, a uma
experiência estética do homem no encontro
com a obra total de arte. Pintando as prostitutas,
os operários, os pescadores, os humildes, a
maternidade, os temas religiosos, a vida prosaica,
enfim, o homem e a mulher em todas as suas pegadas
terrenas, Viaro torna-se um criador genuíno,
com uma poética própria tecida no tempo
da matéria. Merece, sem nenhum favor, ocupar
um lugar na arte brasileira ao lado de Volpi, Rebolo,
Pancetti, Di Cavalcanti, Guignard e Iberê Camargo.
Curitiba precisa deixar de ser provinciana e apresentar
os seus artistas ao mundo, até porque eles
cantam a nossa aldeia em linguagem universal
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